Lucas Cap. 18
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23. Dízimo e Graça: Da Obrigação Legal à Liberdade de Contribuir (Gn. 14:20; Ml. 3:8-10; 2 Co. 9:7)
A Perspectiva de Jesus: Entre a Prática dos Fariseus e a Essência da Lei
Com a chegada de Jesus, a interpretação da Lei e dos profetas ganha uma nova dimensão, transcendendo a literalidade muitas vezes fria praticada pelas autoridades religiosas da época. Cristo não veio para abolir a Lei, mas para cumpri-la e dar-lhe o seu sentido pleno, muitas vezes confrontando diretamente a hipocrisia dos escribas e fariseus.
Em um dos seus discursos mais contundentes, Jesus aborda a questão do dízimo, não para anulá-lo naquele contexto, mas para reordenar as prioridades espirituais que haviam sido invertidas pela religiosidade da época. Ele aponta para o fato de que os líderes religiosos eram extremamente meticulosos na matemática da entrega, dizimando até mesmo sobre temperos insignificantes, enquanto negligenciavam os pilares fundamentais da vontade de Deus.
"Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas." Mt. 23:23
Neste trecho, nota-se que Jesus não proíbe a prática ("não omitir aquelas"), mas deixa claro que a observância externa de um rito, por mais precisa que seja, é vazia se não estiver acompanhada de justiça, misericórdia e fidelidade. A crítica recai sobre a "espiritualidade contábil" que ignora o amor ao próximo.
Para ilustrar ainda mais a diferença entre a obrigação legalista e a postura do coração, Jesus conta a parábola do fariseu e do publicano. Ambos sobem ao templo para orar, mas com atitudes diametralmente opostas. O fariseu, cheio de si, utiliza o dízimo como uma credencial de justiça própria diante de Deus.
"O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo." Lc. 18:11-12
Em contrapartida, o publicano, reconhecendo sua condição de pecador, clama apenas por misericórdia. O veredito de Cristo é revolucionário: quem volta para casa justificado não é aquele que cumpriu a tabela da lei e deu o dízimo, mas aquele que humilhou seu coração.
Isso demonstra que, na perspectiva de Jesus, a obrigação nunca deve se sobrepor ao sentimento genuíno. Ele nunca colocou a regra acima do relacionamento. Embora vivesse em um período de transição — cumprindo a Lei perfeitamente antes da inauguração da Era da Graça na cruz —, seu ensino consistentemente apontava para uma realidade onde o valor da oferta não reside na porcentagem, mas na intenção e na entrega total da vida.
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