As Origens do Dízimo e a Institucionalização na Lei Mosaica
O conceito de dízimo — a entrega da décima parte dos rendimentos ou colheitas — é um tema recorrente nas Escrituras Sagradas, aparecendo cerca de 39 vezes, com a vasta maioria dessas menções localizadas no Antigo Testamento. Para compreender a profundidade teológica e histórica desta prática, é necessário observar sua evolução desde os patriarcas até a consolidação da Lei Mosaica.
Historicamente, a primeira menção significativa ocorre antes mesmo da existência da Lei escrita, na narrativa de Abraão. Após retornar vitorioso de uma batalha para resgatar seu sobrinho Ló, Abraão encontra Melquisedeque, descrito como "sacerdote do Deus Altíssimo". Num gesto espontâneo de reconhecimento e gratidão, sem a coerção de um mandamento formal, Abraão entrega o dízimo de tudo o que havia conquistado.
"E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos. E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo." Gn. 14:20
Posteriormente, vemos a prática surgir com seu neto, Jacó. Em um momento de fuga e incerteza, Jacó erige uma coluna e faz um voto a Deus. Sua promessa, contudo, carrega um tom de condicionalidade: ele se compromete a entregar o dízimo caso o Senhor o protegesse, o alimentasse e garantisse seu retorno seguro.
Com o advento da era Mosaica, o cenário muda. O que antes era um ato voluntário ou um voto pessoal, torna-se uma instituição legal e obrigatória para a nação de Israel. O livro de Levítico detalha minuciosamente as leis de ofertas e sacrifícios — sejam para perdão de pecados voluntários ou involuntários, ofertas de cereais ou libações. Nesse contexto, o dízimo assume um papel social e religioso fundamental: a manutenção da tribo de Levi.
Como os levitas foram separados para o serviço sagrado e não receberam herança de terras como as outras tribos, o dízimo funcionava como o sustento do ofício sacerdotal e a garantia do funcionamento do Tabernáculo (e posteriormente, do Templo). O Templo não era apenas um prédio, mas o centro da vida comunitária e espiritual, o local onde a Arca da Aliança repousava e onde a presença de Deus se manifestava.
"Também todos os dízimos da terra, quer dos cereais, quer do fruto das árvores, pertencem ao Senhor; santos são ao Senhor." Lv. 27:30
No encerramento do Antigo Testamento, o profeta Malaquias traz uma das passagens mais citadas sobre o tema. O texto apresenta uma severa repreensão divina, não apenas ao povo que deixava de contribuir, mas também à liderança sacerdotal que administrava mal os recursos sagrados. A negligência na entrega dos dízimos era vista como um abandono da casa de Deus, comprometendo a adoração e o sustento daqueles que serviam no altar.
"Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente para a recolherdes." Ml. 3:10
Portanto, no contexto da Antiga Aliança, o dízimo oscilava entre a gratidão patriarcal e a obrigação legal, servindo como pilar estrutural para a adoração corporativa de Israel.
A Perspectiva de Jesus: Entre a Prática dos Fariseus e a Essência da Lei
Com a chegada de Jesus, a interpretação da Lei e dos profetas ganha uma nova dimensão, transcendendo a literalidade muitas vezes fria praticada pelas autoridades religiosas da época. Cristo não veio para abolir a Lei, mas para cumpri-la e dar-lhe o seu sentido pleno, muitas vezes confrontando diretamente a hipocrisia dos escribas e fariseus.
Em um dos seus discursos mais contundentes, Jesus aborda a questão do dízimo, não para anulá-lo naquele contexto, mas para reordenar as prioridades espirituais que haviam sido invertidas pela religiosidade da época. Ele aponta para o fato de que os líderes religiosos eram extremamente meticulosos na matemática da entrega, dizimando até mesmo sobre temperos insignificantes, enquanto negligenciavam os pilares fundamentais da vontade de Deus.
"Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas." Mt. 23:23
Neste trecho, nota-se que Jesus não proíbe a prática ("não omitir aquelas"), mas deixa claro que a observância externa de um rito, por mais precisa que seja, é vazia se não estiver acompanhada de justiça, misericórdia e fidelidade. A crítica recai sobre a "espiritualidade contábil" que ignora o amor ao próximo.
Para ilustrar ainda mais a diferença entre a obrigação legalista e a postura do coração, Jesus conta a parábola do fariseu e do publicano. Ambos sobem ao templo para orar, mas com atitudes diametralmente opostas. O fariseu, cheio de si, utiliza o dízimo como uma credencial de justiça própria diante de Deus.
"O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo." Lc. 18:11-12
Em contrapartida, o publicano, reconhecendo sua condição de pecador, clama apenas por misericórdia. O veredito de Cristo é revolucionário: quem volta para casa justificado não é aquele que cumpriu a tabela da lei e deu o dízimo, mas aquele que humilhou seu coração.
Isso demonstra que, na perspectiva de Jesus, a obrigação nunca deve se sobrepor ao sentimento genuíno. Ele nunca colocou a regra acima do relacionamento. Embora vivesse em um período de transição — cumprindo a Lei perfeitamente antes da inauguração da Era da Graça na cruz —, seu ensino consistentemente apontava para uma realidade onde o valor da oferta não reside na porcentagem, mas na intenção e na entrega total da vida.
Diferenças Hermenêuticas: O Dízimo é Obrigatório na Nova Aliança?
A questão da obrigatoriedade do dízimo nos dias atuais não é um problema de tradução bíblica, mas sim de hermenêutica — a ciência da interpretação dos textos sagrados. A Bíblia é a mesma para todos, mas as "lentes" teológicas utilizadas para lê-la podem levar a conclusões distintas sobre a vigência dessa prática na vida da Igreja contemporânea.
Existem, basicamente, duas linhas principais de interpretação que moldam o entendimento cristão sobre o tema:
1. A Perspectiva da Continuidade (A Favor da Obrigatoriedade)
Esta linha de pensamento defende que o dízimo é um princípio eterno, anterior e superior à Lei Mosaica. O argumento central baseia-se na cronologia bíblica:
- Antes da Lei: Como visto anteriormente, Abraão entregou o dízimo a Melquisedeque antes de Moisés escrever qualquer mandamento. Isso sugere que o dízimo é uma prática de fé universal, não restrita à aliança sinaítica.
- Na Lei: O dízimo foi ratificado e regulamentado.
- Depois da Lei: Argumenta-se que Jesus, ao dizer aos fariseus que não deveriam omitir o dízimo (Mt 23:23), validou a prática para os seus seguidores.
Sob essa ótica, a falta de entrega do dízimo é frequentemente associada à quebra de um princípio espiritual, podendo acarretar na retenção de bênçãos ou na ação do "devorador", conforme a leitura literal de Malaquias.
2. A Perspectiva da Descontinuidade (Crítica Literária e Graça)
Por outro lado, há uma interpretação que enxerga o dízimo de 10% como uma sombra que se cumpriu em Cristo, ou como uma prática cultural específica de Israel que não foi imposta à Igreja gentílica.
- Crítica ao Texto de Abraão: Alguns estudiosos apontam que Moisés, o autor do Gênesis, escreveu a história de Abraão já com a mentalidade da Lei. Além disso, o dízimo de Abraão foi um evento único de despojos de guerra, e não uma entrega mensal de rendimentos.
- O Contexto de Jesus: Defende-se que, quando Jesus falou sobre o dízimo aos fariseus, Ele estava se dirigindo a pessoas que ainda viviam sob a vigência total da Antiga Aliança. A transição para a Graça só se completaria com sua morte e ressurreição.
- Silêncio Apostólico: Nota-se que nas cartas apostólicas (Paulo, Pedro, João), dirigidas às igrejas, não há nenhuma ordem explícita para o recolhimento de dízimos, mas sim instruções abundantes sobre generosidade e ofertas voluntárias.
"A Bíblia é a mesma, o que muda é o óculos que a gente usa para ler. As lentes que fazem a imagem chegar ao nosso cérebro podem distorcê-la ou clarificá-la. São diferenças hermenêuticas."
Essa segunda visão sugere que Jesus não veio trazer novas obrigações legalistas, mas um novo sentido para a Lei. Ele é o próprio cumprimento da Lei. Portanto, tentar impor o dízimo como uma taxa obrigatória seria um retrocesso à sombra, ignorando a realidade da luz que é Cristo.
A tensão entre essas duas visões leva a uma pergunta fundamental: se a regra dos 10% não for imposta, o que deve motivar a contribuição do cristão?
A Lei da Liberdade: Contribuição como Resposta de Gratidão e Amor
Se a imposição legal do dízimo é questionada à luz da Nova Aliança, surge um receio natural: a igreja deixaria de receber recursos? A resposta reside em uma mudança de paradigma. Sair da tutela da Lei não significa entrar na anarquia, mas sim adentrar na "Lei da Liberdade". Nesta perspectiva, a contribuição deixa de ser um imposto religioso pago por medo ou ganância e torna-se uma resposta espontânea de um coração transformado.
O apóstolo Paulo oferece a diretriz central para esta prática no Novo Testamento, deslocando o foco da porcentagem fixa para a disposição interior:
"Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria." 2 Co. 9:7
A lógica da Graça sugere que a nossa vida inteira pertence a Deus, e não apenas uma fração matemática dela. Enquanto a Lei servia como um tutor externo para regular o comportamento, a presença do Espírito Santo nos crentes deve gerar um compromisso interno superior. A entrega passa a ser total. Como Paulo declara em Gálatas: "Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim". O escritor aos Hebreus ecoa esse sentimento ao nos convidar a oferecer nossos corpos como sacrifício vivo.
Isso significa que a oferta vai muito além do dinheiro. Ela engloba tempo, talentos e serviço ao próximo. Um profissional que usa suas habilidades para abençoar a comunidade, alguém que dou alimentos ou roupas, está exercendo o princípio da oferta. Deus não está interessado em um acerto de contas financeiro, como se fosse um auditor fiscal celestial; Ele deseja o coração por inteiro.
O Perigo da Espiritualidade Transacional
Um dos maiores riscos da manutenção da mentalidade legalista do dízimo é transformar o relacionamento com Deus em um comércio.
- A Ganância Travestida de Fé: Muitos contribuem esperando receber em troca, motivados pela promessa de multiplicação financeira.
- O Medo do Devorador: Outros contribuem por medo de punição ou maldição.
Ambas as motivações são alheias ao Evangelho. A Cruz de Cristo é a prova definitiva de que Deus já nos abençoou com tudo o que era necessário. Não ofertamos para sermos abençoados, mas porque já fomos abençoados pela obra redentora de Jesus. A gratidão, e não o interesse, deve ser o motor da generosidade.
A Sustentabilidade da Igreja e a Maturidade
É inegável que as instituições eclesiásticas possuem custos operacionais, contas e funcionários. A abordagem da liberdade é, de fato, um caminho mais "difícil" e arriscado do que a imposição de uma regra fixa. Exige maturidade tanto da liderança quanto dos membros.
Contudo, a premissa é que o amor gera um compromisso mais forte do que o decreto. Da mesma forma que não se deve criar uma lei para obrigar um filho a amar o pai — pois isso anularia a genuinidade da relação —, a igreja não deveria precisar de decretos de ameaça para se manter. Se a participação depende apenas do medo ou da obrigação, a essência da comunidade de fé já se perdeu.
Em suma, a contribuição na Nova Aliança é um convite à liberdade. É a oportunidade de demonstrar, sem constrangimentos, que onde está o nosso tesouro, ali também está o nosso coração.
Casa da Rocha. 23 - Dízimo | Parte 1/3 - Zé Bruno - Vetores. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=72O2rsUbPRk.