description Artigo Cristãs groups Teologia e Pregações

Mateus 4:1-11: A Tentação Vencida: Como Jesus, o Último Adão, Preparou o Caminho para o Sermão da Montanha" (Gn 2:16-17; 3:1-6; Is 2:2-3; Mq 4; 1Co 15:21-22)

  1. Introdução — Um encontro decisivo no deserto (Mt 4:1-2): Jesus levado pelo Espírito, não surpreendido pelo diabo; os 40 dias de jejum como preparação consciente para um confronto determinante.

  2. O paralelo estrutural com o Éden (Gn 2-3): a estrutura bíblica do Shalom perfeito, a queda e a restauração final em Apocalipse 21-22; a tentação de Jesus como espelho da tentação de Adão e Eva.

  3. A tática da serpente e o poder do desejo visual (Gn 3:1-6): como a serpente induziu Eva ao erro, o papel do "ver e desejar" no pecado original, e a fé como certeza do que não se vê.

  4. A primeira tentação: a necessidade (Mt 4:3-4): a tentação da fome e da identidade ("se você é o filho de Deus..."), a resposta de Jesus e a teologia da mesa (Salmo 23, a Santa Ceia, Jesus comendo com pecadores).

  5. A segunda tentação: a competência (Mt 4:5-7): a tentação de provar valor por meio de virtudes e títulos; o padrão bíblico de que o pecado de grandes homens (Moisés, Salomão, Davi, Abraão, Pedro) surge exatamente da sua maior virtude.

  6. A terceira tentação: o poder (Mt 4:8-10): os reinos do mundo entregues a Satanás pela queda do primeiro casal (o "cabeça federal"), e a vitória de Jesus como o Último Adão (1Co 15:21-22).

  7. Da vitória no deserto ao Sermão do Monte (Mt 4:23-25; 5:1; Is 2:2-3; Mq 4:1-2): o cumprimento profético de Isaías e Miqueias — Jesus como o "monte do templo do Senhor" ao qual afluem as nações; a cura das multidões e o início do sermão que "aquecerá o coração".

  8. Conclusão — Um ministério local de alcance cósmico: a obediência de Jesus como reversão cósmica da queda; a esperança presente para tempos de confusão.

Introdução — Um Encontro Decisivo no Deserto

Voltamos ao Evangelho de Mateus, agora no capítulo 4, um texto que considero fundamental para compreendermos o ministério de Jesus em sua totalidade. Vou ler até o versículo 11, porque é uma passagem rica e necessária para entendermos tudo o que vem depois.

O texto começa assim:

"A seguir, Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo diabo. E depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, ele teve fome." (Mt 4:1-2)

Há algo neste início que precisa ser destacado antes de qualquer outra coisa: Jesus não estava caminhando distraído quando foi surpreendido pelo diabo. Ele não era alguém que ignorava o que estava por vir. Pelo contrário — Jesus sabia exatamente o que enfrentaria, a ponto de se preparar com quarenta dias e quarenta noites de jejum. Esse não foi um encontro acidental; foi um encontro determinante para tudo o que aconteceria dali em diante no seu ministério.

Quero trazer aqui um princípio sobre o início do Evangelho de Mateus: não há como escapar do paralelo constante com o livro de Gênesis. Isso não é coincidência — é estrutural na própria Bíblia. As Escrituras se abrem com dois capítulos de uma criação perfeita, aquilo que chamamos de Shalom. Tudo era pleno, não havia pecado. Mas no terceiro capítulo de Gênesis entra a queda, e a partir dali toda a história humana fica desnorteada. O mal e a maldade entram na narrativa até o vigésimo capítulo do Apocalipse, quando Satanás é definitivamente vencido — e então, nos dois últimos capítulos do Apocalipse, o 21 e o 22, a narrativa retorna aos parâmetros do Éden.

É por isso que, ao observarmos a tentação de Jesus no deserto, precisamente essa cena constrói um paralelo direto com a tentação do primeiro casal. Assim como a serpente se aproximou de Adão e Eva para induzi-los à desobediência, o diabo se aproxima de Jesus com a mesma estratégia fundamental. E é justamente esse paralelo — entre o primeiro Adão que caiu e o Último Adão que vence — que dá a este texto sua importância teológica decisiva.

Vamos, então, entender com profundidade cada uma dessas camadas antes de chegarmos às três tentações específicas que Jesus enfrentou.


A Tática da Serpente e o Poder do Desejo Visual

Para compreendermos plenamente o que aconteceu comigo no deserto, preciso voltar ao texto de Gênesis 3, onde a serpente tenta o primeiro casal. Em Gênesis 2:16-17, Deus havia ordenado que o homem e a mulher não comessem da árvore do conhecimento do bem e do mal. Era uma ordem clara, simples, sem margem para interpretação.

Mas, no capítulo terceiro, a serpente inicia uma conversa com a mulher que já nasce distorcida:

"É verdade que Deus disse que vocês não podem comer de nenhuma árvore do jardim?"

E a mulher responde ampliando a proibição além do que Deus havia dito, afirmando que não poderiam sequer tocar na árvore. A serpente, então, nega a consequência da desobediência e lança a verdadeira isca:

"Deus sabe que, no dia em que dela comerem, os seus olhos se abrirão, e vocês serão como Deus, conhecedores do bem e do mal."

E então vem o versículo que considero central para entender toda a mecânica da tentação: vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e desejável para dar entendimento, ela tomou do fruto e comeu. Este texto é decisivo porque revela algo profundamente humano — tudo aquilo que vemos desperta em nós um desejo. Foi exatamente isso que aconteceu com a mulher: ela viu, e o ver despertou o desejo. Ela comeu, e deu também ao marido, que comeu com ela.

A partir daquele instante, a Bíblia registra que os olhos de ambos se abriram. Eles perceberam que estavam nus, o medo entrou em seus corações, e tentaram fugir da presença de Deus. Esse é o ponto de virada: a partir do momento em que os olhos do primeiro casal se abrem para o mal, para a maldade, para o egoísmo e para a ganância, tudo o que vemos e que desperta desejo em nós passa a ser algo que queremos conquistar para o nosso próprio benefício, para o nosso deleite, para a nossa vaidade.

É exatamente por isso que, quando temos fé, deixamos de fixar o olhar apenas nas coisas visíveis que julgamos ser o objetivo final da nossa existência — as conquistas, os títulos, as posses. A fé passa a ser a certeza, ou a firme convicção, daquilo que não se vê. Pode até soar como uma contradição de termos: como pode a fé ser a certeza do que não se vê? Mas é precisamente isso — a fé abre os nossos olhos para a presença de Deus dentro da própria história, para além do que os olhos naturais alcançam.

Foi essa mesma dinâmica — ver, desejar e ceder — que o diabo tentou reproduzir comigo no deserto. Ele queria que eu olhasse para determinadas coisas e as desejasse, exatamente como Eva viu o fruto e desejou. Era a mesma tática antiga, porque o diabo, apesar de possuir certo poder e certa atuação na história, não é nada criativo — ele sempre recorre à mesma estratégia.


A Primeira Tentação: A Necessidade

A primeira tentação que o diabo lançou contra mim foi a tentação da necessidade. O texto registra:

"Então o tentador, aproximando-se, disse a Jesus: 'Se você é o Filho de Deus, mande que essas pedras se transformem em pães.' Jesus, porém, respondeu: 'Está escrito: O ser humano não viverá só de pão, mas de toda palavra que procede da boca de Deus.'" (Mt 4:3-4)

Há algo extremamente sutil nessa abordagem que merece nossa atenção: "Se você é o Filho de Deus, faça isso — para mostrar que você é mesmo, para provar que você pode, que você consegue, que você é quem diz ser." Essa é uma questão que está entranhada no coração humano: a necessidade constante de provar a alguém que somos alguém. É uma questão identitária. Estamos sempre buscando demonstrar às pessoas que temos valor, que temos capacidade, que merecemos reconhecimento, que somos alguém para um outro alguém. Essa necessidade habita o coração do ser humano, e o diabo sabe disso muito bem.

Foi por isso que ele explorou uma necessidade concreta: eu estava com fome. Imaginem um jejum de quarenta dias e quarenta noites — nem conseguimos dimensionar o que isso representa fisicamente. E ali, faminto, veio a primeira tentação relacionada à necessidade física mais básica: a fome, o desejo de saciar o corpo, de saciar o estômago.

O diabo insinuava, em essência: "Você não é o Filho de Deus? Você não é o Rei do universo, o Criador de todas as coisas? Você não é aquele que, pela sua Palavra, trouxe tudo à existência como o Verbo? Então, se você é o Filho de Deus, por que está com fome, com o estômago roncando? Transforme essas pedras em pães e sacie a sua fome. É simples assim."

Mas a resposta que eu dei foi exatamente a resposta que Eva deveria ter dado no Éden: a nossa saciedade verdadeira não está naquilo que comemos, mas na obediência.

E há um detalhe importante que não podemos deixar passar: a primeira tentação de Satanás contra mim envolveu comida. Isso pode parecer banal à primeira vista — falar sobre comida parece um assunto menor —, mas a comida carrega um peso muito mais profundo dentro da nossa espiritualidade do que costumamos imaginar. Existe até uma teologia chamada teologia da mesa, da qual particularmente gosto muito, porque a comida ocupa um lugar central em toda a narrativa bíblica. Afinal, o próprio pecado entrou no mundo por causa de um fruto que a mulher comeu. E aqui, a primeira tentação contra mim também girou em torno da comida — o diabo tentando me induzir a transformar pedras em pão.

Há um contraste rico nisso: enquanto o diabo buscava me levar a comer pão por necessidade e prova de identidade, eu viria a instituir o pão como símbolo da redenção — o memorial da nossa fé, a convicção de que sou o Senhor da existência de cada um. É essa ordenança que a igreja pratica todos os meses na Santa Ceia, o pão e o vinho.

É por isso que o Salmo 23 declara que o Senhor é o pastor e nada faltará — e a cena descrita ali é justamente a de uma mesa farta, uma mesa de paz. A Escritura diz: "Preparas mesa perante mim na presença dos meus adversários", porque na mesa que Deus prepara há paz. E o Apocalipse revela que Deus está preparando um grande banquete para o seu povo.

É por isso, também, que quando eu vim e comecei a comer com pecadores, isso escandalizou os religiosos da época. Como assim, um homem que se apresenta como mestre senta-se à mesa com pecadores? A lógica religiosa da época dizia: não se come com pecador, não se senta com pecador. A mentalidade era mais ou menos esta: "Eu sou santo, cumpridor das minhas obrigações religiosas, das minhas ofertas litúrgicas — e se um pecador apenas projetasse sua sombra sobre o meu alimento, esse alimento estaria contaminado, e eu precisaria passar por um processo de purificação."

Mas a minha lógica é radicalmente diferente: não é o pecador que contamina o santo — é o Santo que purifica o pecador. Por isso eu nunca tive receio de sentar à mesa com pecadores: eu não temia ser contaminado por eles. Eu vim exatamente para trazer paz e purificação. Sou eu quem purifica o pecador, e não o contrário.

Compreender essa primeira tentação — a tentação relacionada à comida — nos ajuda a enxergar um fio que atravessa toda a Escritura: desde o Éden, passando por toda a narrativa bíblica, até chegar ao meu próprio ministério.


A Segunda Tentação: A Competência

A segunda tentação que enfrentei foi a tentação da competência. O texto registra:

"Então o diabo levou Jesus à cidade santa, colocou-o sobre o pináculo do templo e disse: 'Se você é o Filho de Deus, jogue-se daqui, porque está escrito: Aos seus anjos dará ordens a seu respeito, e eles o sustentarão nas mãos, para que você não tropece em alguma pedra.' Jesus respondeu: 'Também está escrito: Não ponha à prova o Senhor, seu Deus.'" (Mt 4:5-7)

É interessante notar que essa segunda tentação está diretamente atrelada à questão da identidade, assim como a primeira. Sempre desejamos ser identificados por aquilo que temos de virtude. Buscamos, historicamente, provar que temos valor em alguma competência, em alguma atuação específica. E o diabo tentou explorar exatamente esse desejo humano de afirmação: "Olha, você é o Filho de Deus — então jogue-se daqui, porque as Escrituras dizem que os anjos lhe dão ordens e você não tropeçará em pedra alguma."

Eu não cedi a essa provocação. E há algo profundamente instrutivo quando observamos a Bíblia como um todo e refletimos sobre os grandes homens de Deus ao longo da história sagrada. Pensemos: quem foi o homem mais manso sobre a terra? A Escritura afirma que foi Moisés. E qual foi o pecado de Moisés? Ele perdeu a paciência com o povo, golpeou a rocha com seu cajado e, com isso, ofendeu a Deus. O pecado de Moisés foi exatamente a falta daquilo em que ele mais se destacava: a mansidão e a paciência.

Quem foi o homem mais sábio sobre a terra? Salomão. E qual foi o seu pecado? Foi justamente a falta de sabedoria ao tomar para si mil mulheres. Quem foi o homem segundo o coração de Deus? Davi. E qual foi o seu pecado? Um pecado do coração, quando se deixou enredar por Bate-Seba. Quem foi o pai da fé, aquele que, quando olhamos para todo o Antigo Testamento, se torna o próprio símbolo da fé? Abraão. E a história de Abraão mostra, em vários momentos, justamente a sua falta de fé — quando saiu de Ur dos Caldeus e, contrariando a ordem de Deus de deixar sua parentela, levou consigo o sobrinho Ló, o que lhe traria diversos problemas depois. Mais tarde, no Egito, ao invés de afirmar que Sara era sua esposa, disse que era sua irmã, por medo de que o matassem por causa da beleza dela — e repetiu esse mesmo erro, tempos depois, com o rei Abimeleque.

E há ainda Pedro, o discípulo mais corajoso entre os doze, cujo pecado foi exatamente a falta de coragem — a covardia ao me negar três vezes.

Essas histórias revelam um princípio espiritual profundo: quando alguém possui uma grande competência ou virtude em determinada área, é justamente ali, muitas vezes, que reside o seu maior perigo, o seu calcanhar de Aquiles. A pessoa se torna tão segura da própria virtude que é exatamente nesse ponto que ela tropeça. Por isso as Escrituras advertem:

Maldito o homem que confia no homem e do seu braço faz a sua força.

Toda virtude que possuímos — seja inteligência, competência ou talento — é, em última análise, alvo da graça de Deus. Tudo isso é fruto da graça, não de mérito próprio.

Há ainda uma reflexão adicional sobre essa tentação da competência: nós, seres humanos, somos frequentemente identificados por aquilo que fazemos e pelos títulos que carregamos. Se alguém é formado em medicina, recebe o título de "Doutor" antes do próprio nome. Um pastor recebe o título de "Pr." Em nossa sociedade, o título de competência, o título de utilidade, muitas vezes precede até mesmo o nosso próprio nome. E, por isso, muitas pessoas são tentadas a viver exclusivamente em função das suas competências, esquecendo-se de que toda capacidade é dom, não posse.

Essa foi a segunda tentação do diabo contra mim.


A Terceira Tentação: O Poder

A terceira e última tentação estava relacionada ao poder. O texto narra:

"O diabo ainda o levou a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles, e disse: 'Tudo isto lhe darei se, prostrado, você me adorar.' Então Jesus lhe ordenou: 'Vá embora, Satanás! Porque está escrito: Adore o Senhor, seu Deus, e preste culto somente a ele.'" (Mt 4:8-10)

Imagino que essa cena tenha se assemelhado a uma projeção — como se o diabo estivesse exibindo diante de mim todos os lugares, todas as épocas, todos os reinos do mundo e toda a sua glória, dizendo: "Tudo isto lhe darei se, prostrado, você me adorar."

Há algo muito interessante nessa proposta. A primeira reação que pode vir à mente de quem lê esse texto é pensar que o diabo estava dizendo um absurdo — afinal, como ele poderia entregar algo a quem é o próprio Rei do universo? E, de fato, essa seria uma reação natural. Mas note bem: eu não disse, em momento algum, que o diabo não poderia oferecer aquilo. E há uma razão teológica profunda para isso.

Quando Deus criou todas as coisas — o universo inteiro — e formou o homem e a mulher como o coroamento de toda a criação, Ele entregou toda a criação, todo o domínio, ao primeiro casal, para que eles a cultivassem e a guardassem. Eles se tornaram, naquilo que a teologia chama de cabeça federal — aquele que representa toda a humanidade diante de Deus e no governo sobre a criação. O primeiro casal tinha, portanto, governo sobre tudo. E quando decidiram abandonar a Deus, esse domínio passou, de fato, para as mãos do maligno. O mundo jaz no maligno justamente porque o primeiro casal entregou o seu domínio a Satanás.

É nesse sentido que o diabo pôde afirmar: "Veja, agora tudo é meu. Se você me adorar, eu lhe entregarei tudo isso. Eu tenho, sim, capacidade de dar." E foi diante dessa oferta que eu respondi: "Vá embora, Satanás! Porque está escrito: Adore o Senhor, seu Deus, e preste culto somente a ele." O poder não me iludiu.

Essa questão é de importância central, porque eu sou o Último Adão. Em Primeira Coríntios 15, no capítulo dedicado inteiramente à ressurreição, encontramos esta declaração fundamental:

"Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem... Porque, assim como em Adão todos morrem, também em Cristo todos serão vivificados." (1Co 15:20-22)

Eu precisava passar pela tentação justamente porque sou o Último Adão — não o segundo, mas o último. O primeiro Adão passou pela tentação e falhou. Eu também precisava enfrentar essa mesma prova, e eu venci. Foi por isso que, depois da tentação no deserto, de fato teve início o meu ministério público. Houve o batismo, depois a tentação, e então o começo do ministério — o chamado dos discípulos e, em seguida, o Sermão da Montanha, algo verdadeiramente extraordinário.


Da Vitória no Deserto ao Sermão do Monte

O Sermão da Montanha é um texto de tamanho valor, irmãos, tão impressionante que se poderia dedicar um semestre inteiro apenas a ele. Antes de nos determos em seu conteúdo, porém, preciso trazer uma reflexão essencial sobre aquilo que podemos chamar de pré-Sermão da Montanha — porque há um texto profético que antecipa exatamente essa cena, encontrado tanto em Isaías 2 quanto em Miqueias 4. Trata-se, na prática, do mesmo texto, dirigido ao mesmo povo, na mesma época. A diferença é de ênfase: Isaías fala com uma abrangência maior, tratando de políticas públicas e alianças governamentais, enquanto Miqueias se dirige de forma mais direta ao povo.

Vejamos o que diz Isaías 2:2-3:

"Nos últimos dias, o monte do templo do Senhor será estabelecido no alto dos montes e se elevará sobre as colinas; e para ele afluirão todas as nações. Muitos povos virão e dirão: 'Venham, subamos ao monte do Senhor, ao templo do Deus de Jacó, para que nos ensine os seus caminhos e andemos nas suas veredas'; porque de Sião sairá a lei, e de Jerusalém, a palavra do Senhor."

Há duas expressões nesse texto que merecem atenção especial. Primeiro, "nos últimos dias": no Antigo Testamento, essa expressão apontava para o cumprimento de todos os dias anteriores — ou seja, para a vinda do Messias. Segundo, "o monte do templo do Senhor": essa era a figura da teofania, a aparição visível e audível de Deus na história, como o monte que ardia em fogo diante de Moisés. Nas aulas anteriores, vimos que, no Antigo Testamento, havia muitas teofanias — e que, à medida que a Escritura foi sendo registrada, essas manifestações visíveis foram se tornando menos frequentes. Mas a profecia dizia que, nos últimos dias, essa presença visível e audível de Deus subiria sobre outros montes, e para ela afluiriam todas as nações.

Quando olhamos para o final do capítulo 4 e o início do capítulo 5 de Mateus, vemos exatamente esse cumprimento:

"Ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte; e, tendo-se assentado, aproximaram-se dele os seus discípulos, e ele passou a ensiná-los." (Mt 5:1-2)

Eu sou o monte do templo do Senhor. Sou a presença audível e visível de Deus, a grande teofania na história. Ao ver as multidões, eu me elevei sobre outros montes — o cumprimento direto de Isaías e Miqueias.

Antes disso, porém, o texto de Mateus já registrava algo importante:

"E a sua fama correu por toda a Síria; trouxeram-lhe todos os doentes, acometidos de várias enfermidades e tormentos, os endemoniados, os epiléticos e os paralíticos, e ele os curou. Da Galileia, de Decápolis, de Jerusalém, da Judeia e dalém do Jordão, numerosas multidões o seguiam." (Mt 4:24-25)

Eu percorria toda a Galileia ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do Reino e curando toda enfermidade entre o povo. É por isso que o Sermão da Montanha, que eu estava prestes a ministrar, representa o cumprimento do grande ensino profetizado logo no início dos escritos proféticos — porque Isaías é o primeiro livro profético, e carrega um peso singular no Antigo Testamento por seu forte caráter messiânico.

Deixo aqui um pequeno adiantamento, que aprofundaremos quando estudarmos o próprio livro de Isaías: ele é, de certa forma, uma miniatura da própria Bíblia. Assim como a Escritura completa tem 66 livros, Isaías tem 66 capítulos. E, assim como o Antigo Testamento reúne 39 livros e o Novo Testamento 27, o livro de Isaías se divide entre os capítulos 1 a 39 — que tratam do julgamento e da derrota de Israel diante do cativeiro babilônico — e os capítulos 40 a 66, que anunciam a graça de Deus em redimir o seu povo e trazer redenção. É nessa segunda parte que os textos messiânicos se concentram com mais força, como o Servo Sofredor de Isaías 53 e o anúncio de libertação aos cativos e vista aos cegos, em Isaías 61.

Quando Isaías se abre, portanto, ele já anuncia esse texto messiânico: o Messias viria, e para ele afluiriam pessoas de todas as nações, buscando ensino. E foi exatamente isso que aconteceu no Sermão da Montanha: eu, o Rei do Reino, estava curando enfermidades e libertando pessoas, porque o Reino de Deus havia chegado. Eu caminhava junto ao povo, comia com eles, olhava em seus olhos, os abraçava. E, ao subir ao monte e me assentar sobre uma pedra, pessoas de todas as nações se aproximaram, pedindo ensino — e ali comecei o maior sermão da história, aquele que se iniciaria com as bem-aventuranças.


Conclusão — Um Ministério Local de Alcance Cósmico

Quando olhamos para o início do meu ministério, para os capítulos segundo e terceiro de Mateus, encontramos ali uma denúncia contundente contra tudo aquilo que estava posto: a maneira como a religião havia sido pervertida, a maneira como a estrutura política se tornara danosa ao povo. E, diante disso, eu vim contrapondo toda essa estrutura de poder — sem me apoiar em nenhuma plataforma, nem religiosa, nem política. Vim junto ao povo, nascendo numa manjedoura, crescendo em meio à gente simples.

Iniciei meu ministério passando por uma tentação difícil — tão difícil que precisei me preparar por quarenta dias e quarenta noites. Foi uma tentação que fez com que o universo inteiro se curvasse diante da minha obediência, porque eu vi e não desejei, ao contrário de Adão e Eva, que viram e desejaram, permitindo que o desejo corrompesse a sua obediência. Eu me mantive firme junto ao Pai, obedecendo à sua palavra, cumprindo com o meu propósito, com a minha missão, em todo tempo.

É por isso que precisamos compreender que o meu ministério, embora histórico e presente na história de um lugar específico, tem uma abrangência universal — de alcance cósmico. Todo o universo anunciou a minha chegada: os magos, aqueles que discerniam os sinais nas estrelas, foram os primeiros a reconhecer a chegada do Rei dos judeus. Mas foi quando venci Satanás que essa dimensão cósmica se tornou plena. Assim como a desobediência de Adão e Eva trouxe consequências cósmicas — o afastamento do ser humano em relação a Deus, os conflitos nas relações humanas, e até a maldição sobre a própria terra —, a minha obediência trouxe redenção. Trouxe restauração. Trouxe a possibilidade plena da redenção.

Quando fui à cruz e disse "está consumado", e a terra tremeu diante do sacrifício, tornou-se possível vislumbrar novos céus e nova terra, porque tudo havia sido consumado.

Esse é o Senhor que entra na história — e é esse mesmo Senhor que, no próximo estudo, revelará o privilégio e a bênção do Sermão da Montanha, um texto magnífico que aquecerá o coração de cada um que se dispuser a lê-lo com atenção. Que, em meio a tanta confusão e dificuldade que a nossa sociedade atravessa, possamos saber que o Rei do Reino vive — e ele é a nossa esperança.

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