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Atos 4:1-31: A Religião que Matou o Filho de Deus: Perseguição, Ousadia e a Pedra Rejeitada

O Cenário da Perseguição

Estamos começando o capítulo 4 de Atos. Na semana passada chegamos até o versículo 4, que fechava o relato do capítulo 3: João e Pedro entrando no templo, um paralítico pedindo esmola, e Pedro respondendo aquela frase que atravessa os séculos: "Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho, isso te dou: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, anda." Os pés e tornozelos daquele homem se firmaram. Ele ficou de pé. O povo se ajuntou, espantado, em torno de Pedro e João, e Pedro aproveitou a multidão para pregar a respeito da ressurreição.

Foi exatamente aí que os líderes religiosos ficaram furiosos. E é dali que nasce a primeira perseguição que a igreja enfrenta na história que Lucas registra para Teófilo.

Hoje eu quero ler de novo a partir do primeiro versículo, porque Pedro e João estão no templo — o lugar dos sacerdotes, o lugar deles — falando de Cristo. E é ali, dentro da própria casa deles, que os religiosos se levantam contra os apóstolos.

Diz o texto, capítulo 4, a partir do versículo 1:

"Enquanto Pedro e João ainda falavam ao povo, chegaram os sacerdotes, o capitão do templo e os saduceus, ressentidos porque os apóstolos estavam ensinando o povo e anunciando em Jesus a ressurreição dentre os mortos. Prenderam Pedro e João e os recolheram no cárcere até o dia seguinte, pois já era tarde. Porém muitos dos que ouviram a palavra creram, subindo o número desses homens a quase cinco mil."

Pense no que isso significa. No dia de Pentecostes, três mil pessoas se converteram. Agora, por conta de tudo que aconteceu ali no templo — a cura do paralítico e a pregação que se seguiu — o número sobe a quase cinco mil. No dia seguinte, as autoridades, os anciãos e os escribas se reuniram em Jerusalém. O sumo sacerdote Caifás estava lá, Anás também, João, Alexandre, e todos os que eram da linhagem do sumo sacerdote. E colocando os apóstolos diante deles, perguntaram:

"Com que poder, ou em nome de quem, vocês fizeram isso?"

Foi assim que começou o primeiro grande embate entre a igreja nascente e o sistema religioso que deveria, em tese, estar do mesmo lado. Mas não estava. E é sobre essa contradição — a religião de Deus perseguindo o filho de Deus — que eu quero conversar com vocês hoje.


Uma Perseguição Vinda de Dentro

Reparem em algo que considero fundamental para entender esse texto: essa é a primeira vez que a perseguição aparece na narrativa que Lucas escreve para Teófilo. E ela não aparece pelas mãos do Império Romano. Ela não vem dos romanos.

Ela começa pelas mãos dos religiosos.

É a religião de Deus, o povo de Deus, dentro do templo de Deus — onde Deus habita para o seu povo — chamado pelo nome de Deus, com sacerdotes ungidos por Deus no meio do povo de Deus, oficiando a Deus... e são eles que mataram o Filho de Deus.

Tem alguma coisa errada aqui.

Tem alguma coisa muito errada quando a estrutura criada para apontar as pessoas a Deus se torna o instrumento que as afasta dele. Quando o sistema que deveria guardar a verdade se torna o sistema que a persegue. E é exatamente isso que vamos ver se repetir, capítulo após capítulo, ao longo de Atos: a perseguição não nasce do poder secular — nasce do poder religioso que se sente ameaçado.

Guardem essa observação, porque ela não é um detalhe histórico isolado. Ela é uma chave de leitura para todo o livro de Atos, e — ouso dizer — para entender como a religião institucionalizada se comporta em qualquer época, inclusive na nossa.


A Empresa Familiar do Templo

Para entender por que os saduceus reagiram com tanta violência, precisamos entender quem eram essas pessoas e como o sistema religioso do templo funcionava naquela época.

Os saduceus eram o partido que indicava o sacerdote para o templo. Eram eles que dominavam esse setor da vida cultural e religiosa do povo. Era muito mais comum encontrar saduceus atuando no templo, porque os sacerdotes vinham dessa seita. Fariseus e escribas, por sua vez, eram mais comumente encontrados nas sinagogas, onde acontecia o estudo da Palavra de Deus. E parece que fariseus e escribas também disputavam com os saduceus o direito de indicar, dentre eles, um sacerdote — uma tensão que já vinha de mais de duzentos anos antes de Cristo.

Porque antes, o filho de sacerdote assumia o sumo sacerdócio por sucessão natural. Mas, já na época do Império Grego, depois da morte de Alexandre o Grande, começou a simonia — a compra da posição de sumo sacerdote diante do imperador, mediante pagamento em dinheiro. Isso está registrado na história, no período interbíblico. Quando chegamos aos dias de Jesus, essa posição já não tinha mais nada a ver com sucessão, com unção, com uma tribo sacerdotal legítima passando o cargo de pai para filho.

Anás era o sumo sacerdote. Caifás, o sumo sacerdote em exercício, era seu genro. E o texto de Atos nos diz que havia ali "a linhagem do sumo sacerdote" — uma espécie de corte dentro do sinédrio, um domínio político-religioso.

A verdade é que esse sistema, que juntava o poder de Roma ao poder religioso, era extremamente vantajoso para os saduceus. Tendo o apoio de Roma para escolher os sacerdotes, eles transformaram a administração do ambiente religioso numa gestão terceirizada por uma empresa familiar. E era muito lucrativo, porque eles também dominavam o comércio do templo — aquele mesmo comércio que Jesus expulsou, derrubando a mesa dos cambistas. A moeda do templo era diferente da dracma, do denário, do siclo comum. Então eles controlavam o câmbio, a troca de moeda que circulava ali dentro, além da venda dos animais para sacrifício.

O empreendimento religioso era controlado por uma família. Quando o texto menciona "a linhagem do sumo sacerdote", está falando provavelmente da descendência de Anás — que talvez não fosse pai biológico de Caifás, mas que, por se casar com a filha do sacerdote, ocupou o lugar de sumo sacerdote num acordo com Roma, e trazia seus parentes para ocupar posições dentro dessa empresa religiosa familiar.

Sei que hoje é difícil imaginar empreendimentos familiares governando empresas religiosas — não é uma coisa muito comum nos nossos dias. Mas tentem visualizar como isso acontecia naquele contexto, porque é essencial para entender o tamanho da ameaça que Pedro e João representavam.


Por Que a Ressurreição Incomodava Tanto

Há um detalhe teológico que precisa ficar claro: os saduceus não criam na ressurreição. Simplesmente não acreditavam. Os fariseus ainda criam nas profecias de Daniel e Ezequiel sobre a ressurreição dos mortos, mas os saduceus, não.

E a pregação dos cristãos batia de frente com a crença central dessa seita, porque falava fundamentalmente sobre ressurreição. Aliás, todo domingo em que estamos aqui reunidos, a pregação dos apóstolos bate na ressurreição — porque nós somos filhos da ressurreição. Temos uma nova vida. Morremos para este mundo e nascemos de novo. A ressurreição é a marca do cristão: ele não tem mais nada a ver com este mundo, mas tem tudo a ver com a nova vida em Cristo. E isso é profundamente libertador.

E libertação não é uma coisa que combina bem com religião. Religião se dá melhor no ambiente do aprisionamento, dos controles, dos sistemas fechados. Foi exatamente ali, do lado de Pedro e João — que estavam presos pela corte judaica, o sinédrio, sob o capitão do templo — que essa tensão ficou visível. Eles poderiam julgar segundo a religião, mas não podiam condenar à morte. Apenas os romanos podiam fazer isso. Tanto é verdade que, quando Jesus foi julgado de madrugada pelos saduceus, teve que ser levado até Pilatos, que lavou as mãos para que ele pudesse ser condenado.

Não tinham, portanto, muito o que fazer com Pedro e João naquele momento. E aliás, foi essa mesma corte que julgou Jesus, apenas três ou quatro meses antes desse episódio. João e Pedro viveram aqueles dias de perto — Pedro especialmente, porque estava no pátio, próximo à casa onde Jesus era julgado, quando lhe perguntaram três vezes se ele era um dos galileus que estavam com Jesus. E ele negou três vezes, com medo, porque poderia ser morto também.

Agora essa mesma corte prendeu Pedro. E dessa vez ele não teve medo. Cheio do Espírito, bateu de frente com esses religiosos tão preocupados com o seu empreendimento lucrativo — tão preocupados, aliás, que se pudessem, teriam acabado com Pedro e João ali mesmo. Mas o povo estava vendo. O rapaz curado provavelmente foi junto — não vou sem vocês, disse ele, preso por quê? E os religiosos devem ter pensado: até que a gente podia cortar o pescoço desses caras, mas o milagre está bem aqui na nossa frente, e o povo lá fora está dando glória a Deus. Não é hora de matá-los agora. Depois, quem sabe.

Esse é mais ou menos o cenário que estamos observando: a religião de Deus perseguindo o Filho de Deus.

Tem alguma coisa errada aqui.


Pedro Cheio do Espírito: De Medo a Ousadia

"Com que poder, ou em nome de quem, vocês fizeram esse milagre?"

E aí Pedro — não mais com medo diante da mesma corte que, poucos meses antes, condenou e crucificou Jesus — cheio do Espírito, respondeu que foi Jesus quem lhes deu autoridade e os levou a fazer o que fizeram. Ele é a pedra que foi rejeitada pelos construtores — que são vocês — mas que foi colocada como pedra angular.

Reparem no que está acontecendo ali. O mesmo homem que, meses antes, tremeu diante de uma serva no pátio de Caifás e negou conhecer Jesus por três vezes, agora está de pé diante do sumo sacerdote, de Anás, de Caifás, de toda a linhagem sacerdotal — e não recua. Não gagueja. Não pede desculpas. Ele acusa.

Essa transformação não é fruto de coragem natural, de personalidade forte, de treinamento retórico. É o Espírito Santo enchendo um homem que, por si mesmo, já provou do que é capaz quando confia apenas em suas próprias forças. A diferença entre o Pedro do pátio e o Pedro do sinédrio não é Pedro. É o Espírito que agora habita nele.

E é isso que ele vai usar para desmontar, com precisão cirúrgica, a autoridade daqueles que o interrogam.


A Pedra Rejeitada que Se Tornou Angular

O que Pedro disse não foi improviso. Está no Salmo 118 — um salmo que todos ali cantavam, que todos glorificavam a Deus com ele. O Salmo 118, no versículo 22, diz:

"A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a pedra angular."

E Pedro pega esse texto — que os saduceus também cantavam, aplicando-o a si mesmos — e faz uma exegese, uma hermenêutica de interpretação que devolve o salmo contra quem o cantava. Ele diz: a pedra principal é o Messias. E os construtores, que deveriam construir e edificar a vida do judeu em torno da Lei e dos princípios de Deus, rejeitaram a verdadeira pedra. Mas ela veio a ser a pedra principal.

Pedra angular não é apenas uma pedra qualquer, uma pedra decorativa. É a pedra fundamental sobre a qual se constrói toda a estrutura. Nos arcos de pedra — antes da existência do concreto armado — as pedras eram cortadas em ângulo específico para que houvesse distribuição correta de carga. A pedra principal, a que ficava no centro do arco, precisava ter uma precisão exata, porque era ela que sustentava a estrutura inteira, distribuindo o peso e mantendo tudo no lugar.

A pedra principal é Jesus.

Acho que os saduceus balançaram a cabeça diante disso. "Os construtores desprezíveis são vocês", disse Pedro — usando o próprio texto sagrado que eles cantavam a plenos pulmões — "e a pedra é Jesus Cristo." É fundamental entender: é sobre ele que se constrói tudo. Tudo aquilo que cantamos com tanta convicção — "Digno é o Cordeiro de receber toda honra, toda glória, todo poder, todo domínio" — porque ele é o centro de todas as coisas, o centro do universo. Há um trono, e o Cordeiro está lá.

A Palavra de Deus estava dando uma verdadeira advertência ao sacerdote de Deus, dentro do sinédrio de Deus, na religião de Deus.

Tem alguma coisa errada aqui.


Homens Iletrados, mas Cheios de Cristo

E a religião de Deus, o sacerdote de Deus, o povo de Deus, a nação escolhida de Deus, crucificou o Filho de Deus — e agora estava querendo crucificar e matar os discípulos do Filho de Deus.

Tem alguma coisa errada aqui.

Talvez sejam dois deuses diferentes dos quais estamos falando. Apesar de possuírem o mesmo nome, "Deus" tem significado e domínio diferentes em corações diferentes, porque são deuses diferentes: um é o Deus que rende corações ao seu governo, ao seu reino; e outro é um outro deus, que rende dividendos aos seus súditos e os leva a dominar um outro tipo de império.

Talvez um seja Emanuel — e o outro seja "Emamonmuel". Deus conosco... e Mamom no bolso. Pensei nisso agora mesmo.

Diz o texto que, quando Pedro terminou de falar, eles ficaram abismados, porque perceberam que Pedro e João eram homens incultos e iletrados — a palavra ali é agrámatos, de onde vem nossa palavra "gramática". Eles não tinham cultura formal, não tinham sido treinados nas escolas. Idiótes — a palavra usada — significa, literalmente, homens comuns, sem instrução formal.

Essa era a ideia que os saduceus, no topo do seu orgulho, do domínio do seu império religioso, faziam a respeito dos discípulos de Jesus. Só que, na hora em que eles abriram a boca, os saduceus reconheceram ali o mesmo Espírito que havia em Jesus. Perceberam: esses caras andaram com Jesus. São os mesmos discípulos. Porque esses mesmos saduceus, alguns meses antes, na última entrada de Jesus no templo, já haviam debatido com ele no pátio, enquanto o povo assistia em volta. E Jesus lhes deu uma verdadeira lição com a Palavra. Todos os embates de Jesus com os religiosos terminaram da mesma forma: eles perderam. Todos foram rebaixados.

Porque Jesus abriu a boca com a própria Lei, com os próprios princípios divinos que deveriam reger o povo de Deus e o sacerdote de Deus — e os usou como advertência contra eles mesmos. "O que está escrito é contra vocês. Os construtores desprezíveis são vocês." Ali, na fachada, na placa, só há um nome. Jesus já havia dito a respeito deles:

"Este povo me honra com os lábios, mas o coração está longe de mim."

Nesses embates em que os religiosos perderam, Jesus, com sabedoria de interpretação das Escrituras, já os havia derrotado — os saduceus, os fariseus, os escribas. E agora, quando Pedro fala assim, parece que eles tiveram um déjà vu. "Esses caras andaram com Jesus." O sotaque deles denunciava: eram galileus. Mas falavam com intrepidez, com um conhecimento que só se explica porque o estudo da Lei, dos Salmos, dos Profetas era o fundamento cultural da vida deles — e agora, iluminado pelo Espírito.

Essa interpretação assustou aqueles homens. Eles reconheceram que Pedro e João haviam estado com Jesus. Disseram: "saiam um pouco" — e foram conversar entre si. Enquanto isso, do lado de fora, havia um milagre ambulante andando pelo Pórtico de Salomão, o povo glorificando a Deus, os discípulos falando de ressurreição, citando os Profetas, citando a Lei — e tudo fazendo sentido para aquela multidão. "Já estou fechando a porta. Ninguém mais vai entrar. Estamos aqui com o homem curado, com Pedro falando da ressurreição, falando dos Profetas, falando da Lei — e tudo faz sentido."

A perspectiva da perda do povo causa arrepios na religião. Arrepios de verdade. Porque a religião se perpetua através de um sistema de sacrifícios — e não estou falando dos sacrifícios do altar. Estou falando do sacrifício do povo. A religião se perpetua consumindo e triturando gente. É um sistema abençoador controlado por uma empresa familiar religiosa. Estou falando do que acontecia ali, naquele contexto específico — mas me parece que o modus operandi não mudou muito ao longo dos séculos.

Por isso o homem curado estava ali. Por isso havia tanta gente glorificando a Deus. Não convinha mexer com aqueles dois agora — a galinha dos ovos de ouro estava rendendo. Melhor deixar assim por enquanto. Parece que a religião transita muito bem nesse tipo de acordo.


"Julguem Vocês Mesmos": Obedecer a Deus ou aos Homens

Jesus não estava preocupado com isso. Ele disse: se quiserem me matar, matem — a cruz vai levar. Não estou preocupado se vou ter fama ou não, se vou ter templo ou não. "Derrubem este templo, e em três dias eu o reconstruirei." Não estava preocupado com a perpetuação de coisa nenhuma. Estava preocupado com a verdade, porque ele é o caminho, a verdade e a vida. Quem quiser, tome sua cruz e o siga; quem não quiser, pode matá-lo — mas ele ressuscita no terceiro dia, porque ninguém mata a vida.

A religião se dá bem com a morte. Ela se perpetua com sacrifício e com morte. Mas a ressurreição só se dá bem com a vida.

E o texto diz que eles ameaçaram Pedro e João: se continuarem falando desse Jesus, dessa ressurreição, nós vamos matar vocês. E então vem a resposta de Pedro — uma resposta capaz de arrebentar as duas pernas do sinédrio:

"Julguem vocês mesmos se é justo diante de Deus ouvirmos antes a vocês do que a Deus."

Para mim importa muito mais fazer o que Deus está dizendo do que o que vocês estão dizendo. Isso é uma explosão bombástica na cabeça de um saduceu. Como assim: "o que eu digo" e "o que Deus diz" não são a mesma coisa? Não, não são. A religião de Deus, do povo de Deus, do templo de Deus, na cidade de Deus, de Israel, de Deus, com sacerdotes ungidos por Deus — não são de Deus. Pelo menos esse sistema não é. Não estou falando dos corações voluntários e verdadeiros de todos aqueles que faziam parte da nação de Israel e temiam a Deus, aguardando o verdadeiro Messias. Não estou falando da totalidade de um povo que nem sabemos definir completamente. Mas essa casca, esse pequeno triângulo no pico da pirâmide — a última coisa que estava fazendo era glorificar a Deus. Afinal, mataram o Filho de Deus. Desprezaram a pedra que veio a ser a principal. Deve ter ofendido muito aqueles homens ouvir isso.

Como assim, "ouvir a nós ou ouvir a Deus"? Porque ouvir a vocês e ouvir a Deus são duas coisas distintas. Duas coisas muito diferentes.

E a gente prefere ouvir a Deus. Gente da Casa da Rocha, ouça a Deus. Leia o evangelho. Vá à livraria, compre os livros, os devocionais, os melhores comentaristas do mundo estão aí — leia, estude.

Daqui a pouco vamos passar pela igreja de Bereia, onde Paulo esteve mais à frente em Atos. Paulo pregava, e os irmãos bereanos não ficavam apenas dizendo "amém, glória a Deus, aleluia, recebemos tudo". Eram duros — mas por um bom motivo. Quando Paulo terminava a primeira noite de pregação, eles diziam: "amanhã estarei aqui de novo". E iam para casa consultar as Escrituras, porque Paulo anunciava Cristo a partir do Antigo Testamento — e o Antigo Testamento fala sobre Cristo. No dia seguinte, voltavam e diziam: "Paulo, verificamos a Escritura. O que você falou sobre Deus procede, irmão. Recebemos."

É uma igreja difícil de pregar, porque só aceita um evangelho sem enfeites, sem discurso vazio. Que a gente da Casa da Rocha seja assim. A gente quer Cristo. Ele é o Cordeiro. Pode sair daqui sem religião, sem conversa fiada, sem invenção, sem tentativa de agradar. Não vamos ganhar ninguém aqui através de artifício. Queremos o Cristo crucificado e ressurreto.

E o texto diz que Pedro e João saíram dali — não havia mais o que fazer com eles. Foram encontrar os irmãos na comunidade, contaram tudo o que havia acontecido, e começaram a orar juntos, do mesmo jeito que aconteceu no Cenáculo, em Atos 2.


A Oração que Eles Não Fizeram

Ali, reunidos, eles voltaram a recitar os textos do Antigo Testamento — os salmos. Por acaso, o Salmo 146, cujo versículo 6 diz:

"O Senhor que fez os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, mantém para sempre a sua fidelidade."

É exatamente o que eles acabaram de orar, o que acabamos de ler: "Senhor dos céus e da terra." Eles estavam ali, cantando o Salmo 146. Depois cantaram um trecho do Salmo 2, salmo de Davi:

"Porque se enfurecem as nações e os povos imaginam coisas vãs? Os reis da terra se levantam, e as autoridades conspiram contra o Senhor e contra o seu ungido."

Tudo o que eles falaram ali é o que está no salmo. Deve ter sido algo muito intenso — o salmo explodiu de significado na cabeça deles. Cantaram o Salmo 2 a vida inteira e, de repente, conheceram Jesus, o Messias do salmo, e agora estavam vendo os poderosos da terra se levantar exatamente contra ele. "Está tudo escrito, nós estamos vivendo o que está escrito."

E aqui acontece algo muito improvável. Eles oraram:

"Senhor, diante das ameaças desses homens, dá para nós ousadia para continuar falando — porque eles não querem que a gente fale."

Pedro e João estavam pregando a ressurreição, falando de Cristo, e por isso os líderes religiosos trouxeram sobre eles palavras de condenação e de ameaça. E a resposta de Pedro e João, numa palavra, foi: vamos continuar falando o que Deus quer que a gente fale.

O problema central aqui não foi a cura. Percebam isso — o centro deste texto não é a cura do rapaz na porta do templo. O problema é a pregação. O problema é a libertação das cabeças e das mentes. O problema todo é desconfigurar pessoas que estão padronizadas e robotizadas dentro de um sistema. Porque os odres velhos, dos quais Lucas já havia falado a Teófilo lá no capítulo 3 do evangelho, os "homens velhos ressecados", não suportariam o vinho novo. Iam explodir. Porque estava chegando o reino de Cristo, o senhorio que faz curvar corações e joelhos diante dele — ainda que isso custe a vida.

Por isso eles oraram como Cristo orou. Jesus foi para a cruz porque manteve a boa confissão diante de Pôncio Pilatos. É assim que o texto descreve. E Pedro e João fizeram a mesma coisa: se quiserem matar, que matem.

Isso nos faz lembrar também o Antigo Testamento, que aponta para Cristo — o que aconteceu no reinado de Nabucodonosor, com Daniel, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego. "Se vocês não se curvarem diante da estátua, vão para a fornalha." E qual foi a resposta deles? Sete vezes mais forte, e mesmo assim: "será que o Deus de vocês vai livrar vocês da fornalha? Não sabemos se ele vai livrar. Se livrar, ele livrou. Se não livrar, de qualquer maneira, é melhor estar na mão dele do que na sua."

Percebam o tipo de oração que Pedro fez — melhor dizendo, percebam a oração que ele não fez. Porque a oração que ele não fez fala mais alto do que a que ele fez.

Ele não orou dizendo: "Senhor, estamos aqui chorando, faz cessar a perseguição." Não pediu para que a perseguição parasse. Isso é muito significativo, porque seria a primeira coisa que a maioria de nós oraria.

Há uma segunda oração que ele não fez: "Senhor, tira esse César, coloca outro César. Esse está nos perseguindo, estamos preocupados — porque se vier um César diferente, ele também pode nos perseguir." Estou falando dessa época, não estou falando de hoje — cada um interprete como quiser. Nós precisamos, talvez, ser amigos do Estado, dos "céus", para ficarmos amigos de César, e ter com ele um acordo para que não faça mal contra a nossa igrejinha, enquanto isso nós apenas nos preparamos... para uma reunião em Roma. Digo isso para todos os lados, para todas as vertentes, para todas as ideologias — canhotas ou destras.

O que eu quero dizer a vocês — e não vou rir disso, porque não seria trágico se não fosse verdade — é: prestem atenção no que Pedro e João disseram. A Igreja de Cristo não se curva por causa da perseguição. Não faz acordos por causa da perseguição. A Igreja de Cristo não lambe as sandálias de César.

A Igreja de Cristo não lambe as sandálias de César.

Porque o nosso Cristo não fez isso, e foi para a cruz. Você está pronto para morrer? Você está pronto para morrer? Se você não estiver, você vai — como diz um irmão meu, ninguém sai vivo desta vida, a não ser para a ressurreição eterna.

A gente muitas vezes nem está pronto para as pessoas meterem o pau na gente nas redes sociais — porque uns são mais de Herodes Antipas, outros mais de Herodes o Grande, uns gostam mais do Vespasiano, outros do Domiciano. Ninguém agradava a todos: uns eram mais amigos de Pilatos, os herodianos gostavam de Herodes, os saduceus apoiavam as políticas dele na Judeia. Mas Cristo disse: não, é um outro reino, um outro rei.

Você está pronto para morrer? Nós temos que estar. Nós temos que estar.


O Lugar Tremeu: A Igreja Nasce na Ousadia

É muito difícil pregar essas coisas. Mas o que eu vou fazer é dizer o que está escrito. A oração deles não foi para cessar a perseguição, nem para mudar César — apesar de essa ser uma lógica muito recorrente nos movimentos religiosos ao longo da história. O movimento deles foi pedir intrepidez para continuarem sendo o que já eram: testemunhas de Cristo.

E mesmo que a oração deles fosse simplesmente essa, poderíamos até imaginar que Deus não gostou, que não respondeu. Mas o texto diz o contrário: Deus aprovou a oração, porque aquele lugar tremeu, e eles foram novamente cheios do Espírito Santo, e com ousadia saíram dali pregando.

Agora os saduceus tinham um problema ainda maior — porque antes eram apenas Pedro e João. Agora havia uma multidão inteira. O texto nos mostra uma verdadeira revolução: a igreja começa a explodir.

Meu caro amigo Teófilo recebeu essa carta de Lucas cerca de trinta e cinco, trinta e seis anos depois de tudo isso acontecer. Teófilo era amigo de Lucas. O livro de Atos deve ter sido escrito pouco antes do fim da década de 60 depois de Cristo. Então essa história já havia acontecido quando Lucas escreveu, e Teófilo provavelmente conheceu Cristo pelo testemunho de irmãos — não conheceu Jesus pessoalmente, provavelmente nem os apóstolos diretamente. Mas conheceu Lucas, que lhe escreveu essa história dizendo, em essência: "Veja essa igreja da qual você agora faz parte. Nos seus dias, Teófilo, a igreja já está um pouco mais estruturada do que estava nesses dias do início. Mas tudo o que você vê hoje começou assim. Teve gente que derramou sangue — começando por Cristo, o Filho de Deus — para que a sua igreja nascesse. Ela não nasce da vontade dos homens, mas da vontade de Deus. Ele é o Verbo que se fez carne, o Senhor que apareceu entre nós, e nos deu poder para sermos chamados filhos de Deus, todos os que creem no seu nome. Não se preocupe com o que vai acontecer. Peça a Deus ousadia. Foi a ousadia desses irmãos, prontos para ir à cruz, que fez o evangelho genuíno e não contaminado chegar até você."

Deus fez tremer aquele lugar, do mesmo jeito que aconteceu quando Cristo estava na cruz — quando o texto diz que houve trevas sobre a terra, um terremoto, mortos que saíram das tumbas vivos, e as pessoas batendo no peito dizendo: "esse homem era justo." Ele foi ao sacrifício falando a verdade. E os apóstolos, também prontos para o sacrifício, continuando com a verdade, viram o mesmo lugar tremer novamente.

Essa igreja que você conhece, Teófilo, começou assim. E quando olhamos para esse texto, é para dizermos: a igreja que está aqui hoje começou assim também. Acredito que, se nos mantivermos assim, ela ainda vai conseguir alcançar mais algumas gerações antes deste mundo entrar em colapso completo.

O lugar tremeu, e eles continuaram sendo de Cristo — não dos escribas, não dos herodianos, não dos fariseus, não dos saduceus, não de Anás, não de Pilatos, não de Herodes, não de César. Eles continuaram sendo de Cristo.

Deus nos abençoe. Estamos diante da mesa. Vamos participar da ceia, celebrar, como a música que cantamos, o Cordeiro de Deus que se entregou por nós. E é nesse momento que dizemos: nós comungamos disso — eu também dou a minha vida por ele.

Acho que eu e você vamos morrer sem ver nossos filhos — talvez vejam um pouco — mas acredito que nossos netos, e os netos deles, vão nascer num mundo onde a religião será um padrão estatizado, governado por uma maioria de uma etnia religiosa preponderante contra Cristo. Porque Paulo diz em 2 Tessalonicenses que o filho da perdição é aquele que se levanta contra tudo o que se chama Deus, porque vivemos dias de grande tribulação.

Então, o que fazemos? Fazemos um acordo com César, ou uma campanha de oração para acabar com a perseguição? Eu acho que devemos fazer o que eles fizeram: pedir a Deus ousadia para continuar sendo o que já somos — ainda que isso nos custe a reputação nas redes sociais, o que é o de menos. O máximo que podem fazer é tirar a nossa vida — mas eles nos dão, com isso, a oportunidade da paternidade eterna. O máximo que o diabo pode tentar fazer é nos jogar nos braços de Cristo, já que o amor a Deus está acima de todas as outras coisas.

Deus nos abençoe. É difícil pregar essas coisas — para mim também é difícil, porque seria muito mais fácil vir aqui e dizer que você vai ser abençoado de acordo com a oferta que dá. Mas acredito que escolhemos o caminho mais difícil, que é o caminho do Evangelho. E é ali que está o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, e é ali que vivemos.


Bendita cruz de Cristo, onde o intrépido e ousado Filho de Deus preferiu não se curvar — nem a Herodes, nem a Pilatos, nem a Anás, nem a Caifás, nem ao sinédrio. Bendita obra da cruz, que tem gerado gente nesta vida que não se curva a Anás, a Caifás, a Alexandre, a João, nem à linhagem do sumo sacerdote, nem a César — mas pede ao Senhor intrepidez.


A Casa da Rocha. 09 - O Início da perseguição - Zé Bruno - Meu Caro Amigo 2. https://youtu.be/UF8aZ5piEA4

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