O Cenário da Perseguição: A Sabedoria de Estêvão e a Conspiração do Sinédrio

A narrativa do livro de Atos dos Apóstolos apresenta um momento crucial na história da igreja primitiva: a transição de uma perseguição institucionalizada, iniciada com Pedro e João, para um cenário de violência aberta e execução pública. No centro deste episódio está Estêvão, um homem descrito como cheio de graça e poder, que operava grandes prodígios entre o povo. Embora tenha sido inicialmente escolhido para o serviço das mesas — o diaconato, focado na assistência social às viúvas gregas e hebreias — Estêvão demonstrava uma eloquência e um conhecimento profundo das Escrituras que transcendiam suas funções administrativas. O texto bíblico relata que a oposição a Estêvão não surgiu diretamente do sumo sacerdote, mas de grupos específicos da diáspora judaica. Membros da chamada "Sinagoga dos Libertos" (provavelmente judeus que haviam sido escravizados por Roma e posteriormente libertos, ou seus descendentes), juntamente com cireneus, alexandrinos e outros da Cilícia e da Ásia, levantaram-se para debater com ele.

A dinâmica desses debates revela a primeira grande tensão intelectual do cristianismo nascente: os opositores não conseguiam resistir à sabedoria e ao Espírito com que Estêvão falava. A incapacidade de vencê-lo no campo das ideias e da interpretação da Lei levou seus adversários a mudarem de estratégia. Abandonaram o debate teológico honesto e recorreram ao suborno e à manipulação, uma tática que espelhava os eventos que precederam a crucificação de Jesus.

"Então subornaram alguns homens para que dissessem: 'Ouvimos este homem proferir blasfêmias contra Moisés e contra Deus'. E incitaram o povo, os anciãos e os escribas; e, investindo contra ele, o arrebataram e o levaram ao Sinédrio." (Atos 6:11-12)

Esta é a terceira grande perseguição registrada em Atos, mas difere das anteriores pela mobilização popular induzida. Enquanto Pedro e João foram convocados pelas autoridades, Estêvão foi arrastado por uma turba instigada por falsos testemunhos. Ao ser apresentado diante do Sinédrio — a suprema corte judaica — as acusações foram forjadas para tocar nos pontos mais sensíveis da identidade nacional e religiosa de Israel: o Templo e a Lei de Moisés.

As testemunhas falsas alegaram que Estêvão não cessava de falar contra o "lugar santo" e que pregava que Jesus, o Nazareno, destruiria o Templo e mudaria os costumes entregues por Moisés. Pela Lei, conforme descrito em Levítico, a blasfêmia contra Deus ou contra Sua obra era um crime capital, punível com apedrejamento. Portanto, a armadilha jurídica estava perfeitamente montada para legitimar uma execução.

Entretanto, o relato de Lucas oferece um contraste visual impressionante entre a fúria dos acusadores e a paz do acusado. Enquanto o tribunal se preparava para um julgamento viciado, a serenidade de Estêvão era visível a todos.

"Todos os que estavam sentados no Sinédrio, fitando os olhos nele, viram o seu rosto como se fosse rosto de anjo." (Atos 6:15)

Este cenário estabelece o palco para uma das defesas mais contundentes da Bíblia. O Sinédrio esperava um réu amedrontado ou defensivo, mas encontrou um homem cuja fisionomia refletia uma comunhão superior e que estava prestes a transformar seu banco de réus em um púlpito, recontando a história de Israel não para se salvar, mas para expor a contínua resistência do povo ao Espírito de Deus.


A Narrativa Histórica: A Dualidade entre Aliança e Rebelião

Ao receber a palavra para sua defesa, Estêvão não responde diretamente às acusações de blasfêmia com negativas simples. Em vez disso, ele inicia uma magistral retrospectiva histórica, dirigindo-se aos acusadores como "irmãos e pais". Essa abordagem demonstra não apenas seu profundo conhecimento da Torá, mas também estabelece uma base comum: todos ali compartilham a mesma herança e a mesma aliança.

No entanto, a narrativa de Estêvão carrega um subtexto teológico perigoso para o Sinédrio. Ele constrói a história de Israel evidenciando um padrão cíclico de comportamento: a iniciativa graciosa de Deus em levantar libertadores e a resposta consistente do povo em rejeitá-los.

A Aliança com Abraão e a Providência sobre José

O discurso começa com Abraão, o pai da fé. Estêvão destaca que o "Deus da glória" apareceu a Abraão ainda na Mesopotâmia, fora da Terra Prometida, sublinhando que a presença de Deus não está confinada a um território geográfico específico. A promessa da terra e a aliança da circuncisão foram dadas antes que houvesse templo ou lei codificada.

A narrativa avança para os doze patriarcas, filhos de Jacó. Aqui, Estêvão introduz o primeiro grande exemplo de rejeição a um escolhido de Deus: José.

"Os patriarcas, invejosos de José, venderam-no para o Egito; mas Deus estava com ele e o livrou de todas as suas aflições..." (Atos 7:9-10)

O ponto central de Estêvão é a ironia divina: os irmãos rejeitaram José, vendendo-o como escravo, mas foi justamente através de José — aquele que eles desprezaram — que Deus proveu sustento e salvação para a família durante a fome. Aquele que foi resistido tornou-se a pedra angular da sobrevivência do povo.

Moisés: O Libertador Rejeitado

A maior parte da argumentação de Estêvão concentra-se na figura de Moisés. A escolha é estratégica, visto que ele fora acusado de blasfemar contra Moisés. Estêvão descreve o nascimento de Moisés em um tempo de opressão, sua educação na sabedoria egípcia e, crucialmente, sua primeira tentativa de defender seus irmãos hebreus.

Quando Moisés tentou intervir em uma briga entre dois israelitas, sua liderança foi questionada imediatamente:

"Mas o que agredia o seu próximo o repeliu, dizendo: Quem te constituiu autoridade e juiz sobre nós?" (Atos 7:27)

Estêvão enfatiza que Moisés foi rejeitado por seu próprio povo antes de fugir para Midiã. Quarenta anos depois, no episódio da sarça ardente, Deus envia esse mesmo homem de volta ao Egito. A retórica de Estêvão torna-se afiada:

  • O homem que o povo rejeitou ("Quem te constituiu chefe?"), Deus enviou como chefe e libertador.
  • Moisés operou prodígios e sinais, guiando o povo pelo deserto.
  • Moisés prometeu que Deus levantaria outro profeta semelhante a ele (uma alusão clara a Cristo).

A Inclinação à Idolatria

Apesar da libertação, a "Igreja no deserto" (a congregação de Israel) não permaneceu fiel. Estêvão recorda que, em seus corações, eles "voltaram para o Egito". A rejeição à liderança visível de Moisés (quando este estava no Monte Sinai) resultou na fabricação do Bezerro de Ouro.

"Fizeram um bezerro naqueles dias, ofereceram sacrifício ao ídolo e se alegravam com a obra das suas mãos. Mas Deus se afastou e os entregou ao culto do exército do céu..." (Atos 7:41-42)

Estêvão conecta esse evento antigo ao exílio na Babilônia, citando os profetas para demonstrar que a idolatria — seja a Moloque ou a outros deuses estelares — foi a causa do juízo divino. O argumento implícito é devastador: historicamente, os verdadeiros "blasfemadores" contra Moisés e contra Deus não foram os profetas perseguidos, mas os próprios antepassados dos que agora julgavam Estêvão. Havia duas linhagens claras na história de Israel: a linhagem da providência divina (Abraão, José, Moisés) e a linhagem da rebelião (os patriarcas invejosos, os hebreus que rejeitaram Moisés, os adoradores do bezerro). Estêvão estava preparando o terreno para identificar em qual dessas linhagens o Sinédrio se encontrava.


Do Tabernáculo ao Templo: A Compreensão da Presença Divina

Um dos pontos centrais da acusação contra Estêvão era a suposta blasfêmia contra o "Lugar Santo", o Templo de Jerusalém. Para os judeus da época, o Templo não era apenas um centro de culto, mas o símbolo máximo da identidade nacional e a garantia da presença de Deus entre eles. Em sua defesa, Estêvão desconstrói essa teologia geográfica, demonstrando que a presença divina nunca esteve limitada a uma estrutura física imutável.

Ele recorda o "Tabernáculo do Testemunho", a tenda sagrada que acompanhou o povo durante a peregrinação no deserto. Este santuário móvel foi construído "segundo o modelo" que Deus revelara a Moisés, simbolizando um Deus que caminha com Seu povo, dinâmico e presente nas adversidades. O Tabernáculo entrou na Terra Prometida sob a liderança de Josué e permaneceu como o centro de adoração até os dias de Davi.

Davi, o homem segundo o coração de Deus, desejou ardentemente edificar uma casa permanente para o Senhor. No entanto, a construção coube a seu filho, Salomão. Foi neste ponto que a história de Israel sofreu uma inflexão teológica perigosa: a transição de um Deus que se move com o povo (Tabernáculo) para a crença em um Deus contido em uma edificação estática (Templo). Estêvão desfere então o golpe fatal na idolatria institucionalizada de seus ouvintes, citando os próprios profetas para corrigir a visão distorcida que tinham sobre a habitação divina:

"Entretanto, o Altíssimo não habita em casas feitas por mãos humanas; como diz o profeta: O céu é o meu trono, e a terra o estrado dos meus pés. Que casa me edificareis? diz o Senhor; ou qual é o lugar do meu repouso? Não fez, porventura, a minha mão todas estas coisas?" (Atos 7:48-50)

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Ao invocar essa passagem (Isaías 66:1-2), Estêvão argumenta que Deus é o Criador do universo e não pode ser domesticado ou confinado por paredes de pedra. Ao absolutizar o Templo, os líderes religiosos haviam reduzido o Deus de Israel ao nível das divindades pagãs do Antigo Oriente Próximo, que eram "presas" em seus santuários locais.

A ironia da defesa de Estêvão é cortante: ao tentarem proteger o Templo físico, os líderes estavam, na verdade, limitando a glória de Deus. Eles acusavam Estêvão de blasfêmia, mas eram eles que possuíam uma visão apequenada do Todo-Poderoso. Deus não dependia daquele edifício para existir ou agir; Ele é o Senhor dos Céus e da Terra.

Essa compreensão preparava o caminho para a revelação de que o verdadeiro "Templo" passaria a ser, em Cristo e posteriormente na Igreja, o próprio ser humano habitado pelo Espírito, e não mais uma construção de alvenaria.


O Confronto Final e o Martírio: A Religião que Desemboca no Ódio

Após estabelecer a base histórica e teológica, o discurso de Estêvão sofre uma mudança abrupta e dramática. Ele deixa de ser o réu que explica a história de Israel para assumir a posição de um profeta que denuncia o pecado presente. A narrativa, que até então era uma recitação de fatos aceitos, transforma-se em uma acusação frontal contra a liderança religiosa de Jerusalém.

Estêvão utiliza uma linguagem que ecoa os antigos profetas, chamando seus acusadores de "homens de dura cerviz" (teimosos) e "incircuncisos de coração e de ouvidos". A acusação central é devastadora: assim como seus antepassados resistiram a José e a Moisés, o Sinédrio agora resistia ativamente ao Espírito Santo.

"Vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim como fizeram vossos pais, também vós o fazeis. Qual dos profetas vossos pais não perseguiram? Eles mataram os que anteriormente anunciavam a vinda do Justo, do qual vós agora vos tornastes traidores e assassinos; vós que recebestes a lei por ministério de anjos, e não a guardastes." (Atos 7:51-53)

A ironia atinge seu ápice: os guardiões da Lei tornaram-se os transgressores da Lei; os que aguardavam o Messias tornaram-se seus assassinos. Estêvão conecta a linhagem da rebelião histórica diretamente àqueles homens, identificando-os não como herdeiros da promessa, mas como herdeiros da resistência a Deus.

A Visão da Glória e a Fúria Religiosa

A reação do conselho foi visceral. O texto descreve que eles "rangiam os dentes" de raiva, uma expressão de ódio incontrolável. Em contraste absoluto com essa fúria terrena, Estêvão é arrebatado em uma experiência espiritual sublime. Cheio do Espírito Santo, ele fita os olhos no céu e vê a glória de Deus e Jesus.

Um detalhe teológico crucial nesta visão é a posição de Cristo. Estêvão declara:

"Eis que vejo os céus abertos, e o Filho do homem, que está em pé à mão direita de Deus." (Atos 7:56)

Para o Sinédrio, ouvir que o homem que eles haviam condenado e entregue aos romanos para ser crucificado estava agora na posição de honra e autoridade divina foi insuportável. Gritando e tapando os ouvidos — um gesto ritual para não ouvir blasfêmias — eles abandonaram qualquer pretensão de processo legal. O julgamento dissolveu-se em um linchamento.

O Apedrejamento e a Oração Final

Estêvão foi arrastado para fora da cidade e apedrejado. A execução não seguiu o protocolo romano formal, mas assemelhou-se a um ato de fúria coletiva sancionado pela omissão das autoridades e inflamado pelo zelo religioso. Neste cenário de brutalidade, a "religião" — entendida aqui como o sistema de ritos vazio de Deus — revela sua face mais sombria: quando confrontada com a Verdade que não pode refutar, ela recorre à eliminação do mensageiro.

Mesmo sob a chuva de pedras, Estêvão reflete perfeitamente o caráter de seu Mestre. Suas últimas palavras são ecos diretos de Cristo na cruz: a entrega de seu espírito a Jesus e, de joelhos, um clamor por misericórdia para com seus algozes:

"Senhor, não lhes imputes este pecado." (Atos 7:60)

A cena encerra-se com uma nota sombria e profética. As testemunhas, para terem liberdade de movimento ao lançar as pedras, depositaram suas capas aos pés de um jovem chamado Saulo. Aquele que consentia na morte de Estêvão e observava a execução representava a continuidade daquela perseguição, sem saber que ele mesmo, no futuro, seria transformado por aquele mesmo Jesus que Estêvão via nos céus.


Análise Contemporânea: O Risco de Repetirmos os Erros dos Fariseus

A narrativa do martírio de Estêvão não é apenas um registro histórico sobre o passado de Israel ou o início da Igreja; ela funciona como um espelho perigoso e necessário para a cristandade contemporânea. A lição mais inquietante que extraímos deste episódio é que a religião institucionalizada, mesmo quando utiliza o nome de Deus, o templo de Deus e a Lei de Deus, pode se tornar a maior antagonista do próprio Deus.

A Autossuficiência da Religião

O fenômeno observado no Sinédrio revela uma verdade desconfortável: a religião não precisa, necessariamenteres, de Deus para existir e funcionar. Um sistema composto por ritos, hierarquias, liturgias e códigos morais pode operar perfeitamente no "piloto automático", oferecendo aos seus adeptos uma falsa sensação de redencão e justiça própria, enquanto o Espírito Santo é deixado do lado de fora.

O perigo que corremos hoje é o de sermos "evangélicos da religião do evangelho", mas que resistem ao Cristo do evangelho. É possível construir grandes templos, atrair multidões e defender dogmas com ferocidade, e ainda assim estar posicionado na "linhagem da rebelião", resistindo àquilo que Deus deseja fazer no presente. A religião torna-se um fim em si mesma, substituindo o relacionamento vivo por uma estrutura que satisfaz o ego humano, mas não transforma o coração.

A Hermenêutica da Conveniência

Outro ponto crítico é o uso instrumental das Escrituras. Os fariseus e doutores da lei conheciam o texto sagrado profundamente, mas o utilizavam para cegar a si mesmos e oprimir os outros. Hoje, o risco permanece o mesmo: "sacar" versículos bíblicos fora de contexto para validar preconceitos, justificar a violência verbal ou defender posições políticas e ideológicas.

Muitas vezes, buscamos nas Escrituras personagens como Davi, Salomão ou Josué para justificar nossos comportamentos ou buscar modelos de prosperidade e guerra, esquecendo-nos de que esses homens eram falhos e pecadores. O único padrão perfeito, a única "exegese" completa de Deus e do homem, é Jesus Cristo. Nele vemos o Deus que não conseguimos ver e o Homem que não conseguimos ser. Qualquer leitura bíblica que não nos leve à cruz e à imitação do caráter pacificador e sacrificial de Jesus é, em última análise, uma leitura religiosa, mas não cristã.

De Perseguidos a Perseguidores

A reflexão final que o texto de Atos nos impõe é sobre a nossa postura diante do mundo e do "outro". Estêvão morreu orando por seus assassinos; o sistema religioso matou para silenciar uma voz discordante. O maior medo da igreja atual não deveria ser a perseguição vinda de fora — de Roma, do Estado ou da cultura secular. O maior medo deve ser o de nos tornarmos os perseguidores. O risco real é que, na tentativa de defender a "sã doutrina" ou a "moral", nos transformemos em um novo Sinédrio: homens teimosos, de corações incircuncisos, que creem estar prestando um culto a Deus enquanto apedrejam aqueles que pensam diferente.

A verdadeira comunidade cristã não é aquela que impõe sua vontade com violência, mas aquela que morre para si mesma. É a comunidade dos "arrependidos", que não barganha com Deus através de jejuns para obter favores (como uma greve de fome espiritual), mas jejua porque tem fome da presença d'Ele.

Para não repetirmos o erro dos que apedrejaram Estêvão, precisamos de uma conversão diária. É necessário abandonar a postura de donos da verdade e assumir a posição de servos que lavam os pés, que perdoam e que, diante da glória de Deus, reconhecem a própria miséria e clamam por graça. Somente assim deixaremos de ser uma religião que desemboca no ódio para sermos, de fato, o corpo vivo de Cristo na Terra.

Avatar de diego
há 2 dias
Matéria: Bíblia
Artigo

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