O Pecado Original e a Natureza Representativa de Adão
Para compreender a soteriologia — a doutrina da salvação — é imperativo, primeiramente, entender a razão pela qual a humanidade necessita ser salva. A base dessa necessidade reside no conceito teológico do Pecado Original, uma doutrina amplamente desenvolvida por Agostinho ao longo da história da igreja.
A ideia central do Pecado Original não se limita a uma falha individual cometida por Adão e Eva no Éden. Pelo contrário, a desobediência no jardim afetou a humanidade em sua totalidade. A teologia bíblica aponta que o ato de Adão comprometeu toda a raça humana, estabelecendo um estado de perdição universal. O apóstolo Paulo descreve este evento de forma categórica:
"Pelo que, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram." (Romanos 5:12)
A Lógica da Representatividade
Uma dúvida comum que surge ao estudar este tema é a questão da justiça divina: seria justo toda a humanidade ser condenada pelo erro de um único homem? Para responder a isso, é necessário compreender a posição de Adão não apenas como o primeiro homem, mas como o representante federal da humanidade.
Adão era o que havia de melhor na raça humana, pois foi criado em perfeição. Diferente de nós, que já nascemos com uma natureza inclinada ao erro, Adão foi criado sem mácula. O argumento teológico é que, se Adão — o ser humano perfeito — falhou em obedecer, qualquer outro ser humano, sendo inferior em perfeição, teria cometido o mesmo erro. Portanto, Adão nos representou em nosso melhor estado possível.
Para ilustrar essa lógica de representatividade, podemos observar a dinâmica das batalhas antigas, como a narrada em 1 Samuel, no conflito entre Davi e Golias. A lógica daquele duelo era evitar um massacre generalizado: o melhor soldado de cada exército era escolhido para lutar. O resultado do duelo entre os dois representantes determinava o resultado da guerra para toda a nação.
"Se o representante vence, todo o exército vence. Se o representante cai, todo o exército é derrotado."
Da mesma forma, Adão estava no Éden como o representante da humanidade diante de Deus. Quando ele caiu, sua queda não foi apenas pessoal, mas arrastou consigo toda a sua descendência. O pecado de Adão contaminou a natureza humana, de modo que todos nascem sob essa influência corruptora. Não há exceções, como reafirma a Escritura:
"Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só. [...] Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus." (Romanos 3:10-12; 23)
Conclui-se, portanto, que a necessidade da salvação não é apenas uma questão de atos pecaminosos isolados que cometemos, mas uma questão de natureza. A humanidade está corrompida na origem, exigindo uma intervenção divina para reverter a sentença de morte herdada no Éden.
O Dilema Divino: Conciliando Justiça e Amor
Estabelecida a realidade do pecado original e a corrupção da raça humana, voltamos nosso olhar para a natureza de Deus. Na teologia, o estudo dos atributos divinos é essencial para compreender como o Criador reage à queda de Sua criatura. Dentre os diversos atributos de Deus, dois se destacam de maneira crucial no processo de salvação: a Justiça e o Amor.
Toda ação divina é perfeitamente coerente com Sua natureza. Deus não age de forma a contradizer quem Ele é. Diante do pecado do homem, Deus se viu diante de um cenário que, aos nossos olhos humanos, pareceria um impasse insolúvel.
O Conflito dos Atributos
Deus poderia simplesmente ignorar o pecado de Adão? Ele poderia olhar para a desobediência no Éden, dizer "vamos fingir que nada aconteceu" e seguir adiante com o relacionamento? A resposta é não. Isso seria impossível por causa de Sua Justiça. A justiça divina é um atributo inegociável que exige que toda transgressão receba a devida punição. Ignorar o pecado tornaria Deus injusto, violando Sua própria santidade e retidão.
Por outro lado, Deus poderia aplicar a sentença imediata e final? Visto que "o salário do pecado é a morte", Deus teria o direito de executar a sentença de morte sobre Adão e Eva instantaneamente, extinguindo a raça humana ali mesmo e, talvez, criando uma nova criatura do zero. Contudo, Ele não agiu assim. Por quê? Por causa de Seu Amor.
Deus nutre um amor profundo e imensurável pela humanidade. Destruir o objeto desse amor seria contrário à Sua natureza benevolente e misericordiosa.
A Necessidade de uma Solução Perfeita
Portanto, temos aqui o grande dilema da redenção:
- Pela Sua Justiça: Deus não pode deixar o pecado impune. O pecado exige condenação.
- Pelo Seu Amor: Deus não deseja a destruição do pecador. Ele deseja restaurar o relacionamento.
Deus precisava de uma solução que atendesse simultaneamente a essas duas demandas. Ele precisava de um meio para punir o pecado (satisfazendo a Justiça) sem destruir o pecador (satisfazendo o Amor). Não bastava apenas perdoar sem critério; era necessário um ato judicial e sacrificial que equilibrasse a balança divina.
Foi exatamente essa necessidade que abriu caminho para as doutrinas centrais da soteriologia: a Expiação e a Redenção. Deus proveu um meio onde a culpa pudesse ser tratada de forma justa, permitindo que Seu amor alcançasse o homem caído sem comprometer Sua santidade.
Entendendo a Expiação e a Propiciação
Para resolver o dilema entre Sua justiça e Seu amor, Deus instituiu o conceito de expiação. O termo "expiação" traduz a palavra hebraica Kafar, que significa literalmente cobrir.
A ideia por trás desse conceito não é esconder o erro no sentido de "varrer a sujeira para debaixo do tapete", mas sim cobrir a falha de tal maneira que ela deixe de ser o foco da atenção daquele que foi ofendido.
Para ilustrar, imagine uma parede com um buraco visível. Consertar a parede exigiria tempo, material e trabalho. No entanto, se você coloca um quadro sobre aquele buraco, você cobriu a falha. O quadro não apenas oculta o defeito, mas atrai o olhar para algo novo e belo. O erro não está mais em evidência; o que se vê agora é a cobertura.
O Sangue como Cobertura
No Antigo Testamento, o principal meio de expiação era o derramamento de sangue. A lógica espiritual é severa: o salário do pecado é a morte. Para que o ser humano pecador não morresse imediatamente, Deus permitiu que um animal inocente morresse em seu lugar. O sangue desse animal servia como "cobertura" (Kafar) para o pecado do homem.
Vemos a primeira aplicação disso logo no Éden. Após pecarem, Adão e Eva tentaram fazer sua própria cobertura cosendo folhas de figueira.
"Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais." Gênesis 3:7
As folhas de figueira, contudo, eram insuficientes. Elas representam a tentativa humana de remediar o pecado com recursos próprios e frágeis — como tentar "tapar o sol com a peneira". Para prover uma cobertura eficaz, Deus teve que intervir com a morte de um animal:
"E fez o Senhor Deus a Adão e à sua mulher túnicas de peles, e os vestiu." Gênesis 3:21
Ali ocorreu a primeira expiação. Um animal morreu para que a vergonha do homem fosse coberta. Embora a expiação no Antigo Testamento não resolvesse o problema do pecado de forma definitiva (o pecado ainda estava lá), ela desviava a ira divina, transferindo a sentença de morte para o substituto. Por isso a Escritura declara:
"Sem derramamento de sangue não há remissão." Hebreus 9:22
O ápice desse ritual ocorria no Yom Kippur (Dia da Expiação), onde diversos sacrifícios eram realizados para cobrir os pecados da nação de Israel, incluindo o bode expiatório e o bode emissário, simbolizando a remoção da culpa.
A Propiciação no Novo Testamento
Enquanto o Antigo Testamento foca na expiação (cobrir), o Novo Testamento introduz e aprofunda o conceito através da Propiciação.
"E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo." 1 João 2:2
Propiciação significa "tornar propício" ou "tornar favorável". Envolve apaziguar a ira de alguém ofendido. O pecado criou uma inimizade entre o homem e Deus; nós nos tornamos, por natureza, "inimigos de Deus".
A obra de Cristo na cruz foi um ato propiciatório. Jesus não apenas cobriu o nosso pecado, mas satisfez plenamente a justiça divina, aplacando a ira de Deus. Ele transformou uma relação de hostilidade em uma relação de favor e amizade.
Quando o publicano orou no templo dizendo: "Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador" (Lucas 18:13), o termo original carrega o sentido de "Sê propício a mim". Ele pedia para que Deus, através de um sacrifício, se tornasse favorável a ele.
Portanto, Jesus Cristo realizou a obra completa: Seu sangue serviu como a expiação perfeita que cobre nossas falhas e como a propiciação que restaura nossa comunhão e amizade com o Criador.
A Doutrina da Redenção e a Figura do Parente Remidor
Além da expiação e da propiciação, outro conceito fundamental para compreender a obra de Cristo é a Redenção. Se a expiação lida com a cobertura do pecado e a propiciação com a ira divina, a redenção trata de uma transação comercial e jurídica: o pagamento de uma dívida para libertar um cativo.
No contexto bíblico, a redenção está intimamente ligada às leis de propriedade e escravidão do antigo Israel. Se um israelita contraísse uma dívida impagável, ele poderia vender suas terras ou até a si mesmo como escravo para quitá-la. Contudo, a Lei de Deus visava impedir que uma família perdesse sua herança perpetuamente ou permanecesse na escravidão para sempre. Havia duas formas de recuperar a liberdade e os bens: aguardar o Ano do Jubileu (que ocorria a cada 50 anos) ou ser resgatado por um Parente Remidor.
O Parente Remidor (Goel)
Em hebraico, esse parente é chamado de Goel. A lei estipulava que, se uma pessoa empobrecida vendesse sua propriedade, um parente próximo tinha o direito e o dever moral de pagar a dívida e resgatar a terra para a família.
A exigência de que o redentor fosse um parente (da mesma família/tribo) existia para preservar a herança. A Terra Prometida foi distribuída por Deus entre as tribos e clãs, e o desejo divino era que essa herança não se perdesse.
Um exemplo clássico dessa dinâmica encontra-se no livro de Rute. Noemi, uma viúva israelita, volta de Moabe empobrecida e sem herdeiros, acompanhada de sua nora Rute, também viúva. Elas não tinham meios de recuperar as terras de sua família. É nesse cenário que entra Boaz.
Boaz assumiu o papel de parente remidor. Ele pagou o preço para resgatar as terras de Noemi e, cumprindo também a Lei do Levirato, casou-se com Rute para suscitar descendência ao falecido marido dela. Boaz salvou aquela família da extinção e da miséria, preservando a linhagem que, futuramente, levaria ao Rei Davi e ao próprio Jesus.
Jesus: O Nosso Redentor
Como essa tipologia se aplica à salvação? A humanidade, por causa do pecado, tornou-se "escrava" e contraiu uma dívida impagável diante de Deus, perdendo sua herança espiritual.
Para nos redimir, Jesus precisava cumprir os requisitos do Goel:
-
Ser Parente: Para pagar a dívida da humanidade, o Redentor tinha que ser humano. Por isso a Encarnação é vital.
"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória..." João 1:14 Ao se tornar homem, Jesus se fez nosso "parente", qualificando-se legalmente para pagar nossa dívida.
-
Ter Posses para Pagar: O preço do resgate não foi pago com bens materiais, pois a dívida era espiritual e de vida. O preço exigido era a morte (sangue).
O apóstolo Pedro descreve essa transação de forma magnífica, contrastando o dinheiro terreno com o preço divino:
"Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais, mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado." 1 Pedro 1:18-19
Jesus Cristo pagou a nossa alforria. Ele entregou Sua própria vida na cruz como moeda de troca. Nós éramos escravos do pecado, mas o nosso "Parente Remidor" desceu do céu, vestiu-se de nossa humanidade e pagou o preço integral pela nossa liberdade.
A Resposta Humana: A Importância da Fé e do Arrependimento
Se a expiação e a redenção constituem a parte divina na equação da salvação, a resposta humana se manifesta através de duas ações inegociáveis: a fé e o arrependimento. Jesus Cristo sintetizou essa exigência no início de seu ministério:
"O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos, e crede no evangelho." Marcos 1:15
Para compreender a profundidade teológica dessas duas demandas, precisamos retornar ao Gênesis e analisar a natureza da queda. A salvação é, em muitos aspectos, a reversão do processo que levou o homem ao pecado.
A Fé como Antídoto para a Dúvida
O primeiro passo para a queda de Eva não foi o ato de comer o fruto, mas a dúvida. Quando Deus instruiu Adão, Ele foi enfático: "no dia em que dela comeres, certamente morrerás" Gênesis 2:17. No hebraico, a ênfase é dada pela repetição do verbo (mot tamut), indicando uma certeza absoluta.
No entanto, ao dialogar com a serpente, a resposta de Eva revela uma sutileza perigosa. Ela diz: "Deus disse: Não comereis dele, nem nele tocareis, para que não morrais" Gênesis 3:3. Eva omitiu a palavra "certamente". Na mente dela, a certeza da sentença divina já havia se diluído. A serpente, percebendo essa brecha de incerteza, lançou o ataque final: "Certamente não morrereis".
Se o pecado entrou no mundo através da dúvida sobre a Palavra de Deus, a salvação deve entrar através da Certeza, ou seja, da Fé.
"Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem." Hebreus 11:1
Crer no Evangelho é restaurar o "certamente" que foi perdido no Éden. É ter a convicção inabalável de que o que Deus diz é a verdade absoluta.
O Arrependimento e a Árvore do Conhecimento
O segundo passo para a salvação é o arrependimento. Diferente do remorso (que é apenas um pesar emocional), o arrependimento bíblico é uma mudança de mentalidade (do grego metanoia).
Para entender isso, analisemos o significado da "Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal". Comer desse fruto representava o desejo do homem de decidir por conta própria o que é certo e errado, independentemente de Deus. Até aquele momento, o conceito de Bem e Mal pertencia a Deus; se Deus dizia que algo era bom, o homem concordava. Ao comer o fruto, o homem declarou independência, invertendo os valores: o que era puro (como a nudez) passou a ser visto com malícia.
A história popularizou a ideia de que o fruto era uma maçã, devido a um jogo de palavras na tradução latina (Vulgata), onde malum significa tanto "mal" quanto "macieira". Contudo, a essência do pecado não estava na fruta em si, mas na rebelião da autonomia moral.
O arrependimento reverte essa autonomia. É a decisão de parar de definir o bem e o mal segundo a própria vontade e voltar a submeter-se aos valores de Deus. Paulo descreve esse processo como a renovação do entendimento:
"E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus." Romanos 12:2
O termo "experimentar" aqui significa "testar" ou "examinar". A mente renovada pelo arrependimento para de seguir os impulsos da carne (que ama o pecado) e passa a testar todas as coisas sob a ótica divina, buscando o que é agradável a Ele.
A Transformação do Destino
Existe uma cadeia lógica no comportamento humano:
- Pensamento gera Vontade.
- Vontade leva ao Ato.
- Ato cria Hábito.
- Hábito forma Caráter.
- Caráter define Destino.
Jesus veio para mudar o nosso destino ("para que não pereça, mas tenha a vida eterna"). No entanto, para mudar o destino, Deus precisa trabalhar na raiz: o pensamento. É por isso que Isaías 55 conclama o ímpio a deixar os seus pensamentos e se voltar para o Senhor.
A salvação, portanto, completa seu ciclo quando o ser humano, movido pela graça, abandona a dúvida e a autonomia moral (fé e arrependimento) e aceita a obra perfeita de expiação e redenção realizada por Cristo.
Iury Rangel. Sistemática: Soteriologia - Aula 2 (13/02/25). https://www.youtube.com/watch?v=PjpOacLDPqU