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1. O Contexto de Lucas e a Carta ao "Caro Amigo" Teófilo

Para compreender a profundidade dos ensinamentos de Jesus registrados no Evangelho de Lucas, é fundamental primeiramente entender a natureza da obra e o propósito de seu autor. Lucas, diferentemente de outros evangelistas, não foi uma testemunha ocular imediata dos fatos que narra. Ele se apresenta como um médico e um historiador criterioso, alguém que se dedicou a investigar minuciosamente os acontecimentos desde a sua origem.

A introdução do seu Evangelho revela que o texto é, na verdade, uma carta endereçada a alguém chamado Teófilo. O nome "Teófilo", de origem grega, significa "amigo de Deus" (Theos = Deus; Philos = Amigo). Há um debate teológico histórico sobre se Teófilo era um indivíduo real — possivelmente uma autoridade romana ou um patrono que financiou a pesquisa de Lucas, dado o tratamento respeitoso "excelentíssimo" — ou se o termo era uma figura de linguagem para se dirigir a qualquer leitor que buscasse uma amizade genuína com o Criador.

Independentemente da identidade física do destinatário original, a mensagem transcende o tempo: trata-se de um compêndio ordenado para dar certeza e fundamento à fé daqueles que desejam seguir a Cristo. Lucas escreve para solidificar o conhecimento, transformando informações esparsas em uma narrativa coesa e fundamentada.

"Muitos já se dedicaram a elaborar um relato dos fatos que se cumpriram entre nós... eu mesmo investiguei tudo cuidadosamente, desde o começo, e decidi escrever-te um relato ordenado, ó excelentíssimo Teófilo, para que tenhas a certeza das coisas que te foram ensinadas." (Lucas 1:1-4)

Dentro deste relato ordenado, chegamos ao capítulo 6, onde Jesus profere um discurso que estabelece as bases éticas e práticas do Reino de Deus. Este sermão culmina em uma confrontação direta e desconcertante, que serve como o eixo central para toda a reflexão sobre a vida cristã autêntica versus a religiosidade superficial.

Jesus, após instruir sobre o amor aos inimigos, o julgamento e a bondade, lança uma pergunta retórica que expõe a incoerência humana:

"Por que vocês me chamam ‘Senhor, Senhor’ e não fazem o que eu digo?" (Lucas 6:46)

Esta interrogação não é apenas uma repreensão; é um diagnóstico da condição humana. Jesus aponta para uma desconexão perigosa entre o discurso e a prática, entre a confissão de fé e a obediência real. Chamar Jesus de "Senhor" (Kyrios) implica reconhecer sua autoridade suprema, sua soberania e o direito de governar sobre a vida daquele que fala. No entanto, quando essa confissão verbal não é acompanhada pela submissão prática às suas instruções, cria-se uma dicotomia existencial.

O texto de Lucas nos convida, portanto, a sair da superficialidade de uma fé nominal. Ele sugere que a verdadeira amizade com Deus — a condição de ser um "Teófilo" — não se sustenta apenas em rituais ou vocabulário religioso, mas na integração total entre o que se crê e como se vive. A pergunta do verso 46 ecoa como um convite ao autoexame: a nossa "construção" espiritual está baseada na realidade da obediência ou na ilusão da aparência?

Ao preparar o terreno com essa pergunta, Jesus introduz as parábolas subsequentes sobre a árvore e seus frutos, e sobre os dois construtores, ilustrando que a natureza interna inevitavelmente se manifestará externamente, e que a estabilidade de uma vida depende não do que é visto na superfície, mas do que foi cavado na profundidade.


2. A Árvore e o Fruto: A Primazia da Essência sobre a Aparência

Dando continuidade ao seu ensino, Jesus utiliza ilustrações extraídas da natureza para explicar uma verdade espiritual inegociável: a conduta externa é um reflexo direto da constituição interna. Antes de abordar a construção da casa, Ele discorre sobre a botânica da alma humana, estabelecendo que a qualidade do produto final (o fruto) depende exclusivamente da natureza da fonte (a árvore).

A lógica apresentada é irrefutável em sua simplicidade: não existe incongruência na criação natural. Uma árvore não sofre de crise de identidade; ela produz exatamente aquilo que a sua essência determina.

"Nenhuma árvore boa dá fruto ruim, tampouco árvore ruim dá fruto bom. Toda árvore é conhecida pelo seu próprio fruto. Não se colhem figos de espinheiros, nem uvas de ervas daninhas." (Lucas 6:43-44)

Neste trecho, estabelece-se o princípio da congruência. Muitas vezes, no contexto religioso e social, observa-se uma tentativa exaustiva de modificar o comportamento externo sem que haja uma transformação da natureza interna. É o esforço de tentar colher figos — um fruto doce, nutritivo e valioso — a partir de um espinheiro, cuja natureza é ferir e sufocar.

Jesus ensina que o problema humano não é meramente comportamental, mas ontológico (relativo ao ser). Se o fruto é ruim, o defeito não está na estação ou no clima, mas na árvore em si. Portanto, a ética cristã não se resume a um conjunto de regras para "aparar as arestas" de uma árvore má, mas propõe uma mudança de natureza, pois somente uma árvore boa pode, naturalmente e sem esforço fingido, produzir bons frutos.

A metáfora se estende então para o ser humano, localizando o centro de comando das ações no "coração" — termo que, na antropologia bíblica, designa o centro do intelecto, da vontade e das emoções.

"O homem bom tira coisas boas do bom tesouro que está em seu coração, e o homem mau tira coisas más do mal que está em seu coração, porque a sua boca fala do que está cheio o coração." (Lucas 6:45)

Aqui reside uma advertência severa contra a hipocrisia. Pode-se manter uma aparência de piedade, utilizar um vocabulário religioso e frequentar ambientes sagrados, mas a realidade do "tesouro" armazenado no coração eventualmente virá à tona. A fala é o vazamento do conteúdo interno. Se o coração estiver cheio de amargura, inveja ou malícia, não importa o quão polida seja a máscara social; em momentos de pressão — quando a árvore é sacudida — o que cairá dela será a sua verdadeira essência.

Portanto, a busca pela coerência cristã não começa de fora para dentro (mudando hábitos para parecer bom), mas de dentro para fora (sendo transformado para agir corretamente). A essência precede a existência; o ser precede o fazer. Tentar inverter essa ordem resulta em uma vida de performance exaustiva e insustentável.


3. A Sociedade da Performance: O Perigo de Viver de Rótulos

A advertência de Jesus sobre a árvore e seus frutos ganha uma relevância assustadora quando transportada para o século XXI, a era da hiperconectividade. Vivemos no que o filósofo Byung-Chul Han denomina "sociedade do cansaço" ou "sociedade da performance", onde o valor de um indivíduo é frequentemente medido pela sua capacidade de projeção externa, e não pela sua consistência interna.

As redes sociais potencializaram a desconexão entre quem somos (o coração) e o que mostramos (o fruto aparente). Criou-se uma cultura de "vitrine", onde a curadoria da imagem é mais importante que a realidade da vida. É o fenômeno do catfish espiritual e emocional: perfis que prometem uma realidade estética, feliz e bem-sucedida, mas que, no contato real (o offline), revelam um vazio existencial ou uma personalidade completamente distinta.

"Vivemos em uma geração que se alimenta de rótulos, mas morre de desnutrição por falta de conteúdo."

Esta dinâmica gera uma armadilha perigosa. Quando a validação vem dos likes, dos comentários e da aprovação pública, o indivíduo começa a trabalhar exaustivamente na manutenção da "fachada" da casa, enquanto as fundações apodrecem. Transportando para a metáfora bíblica, é como pintar frutos de plástico e pendurá-los em uma árvore seca. De longe, parece um pomar fértil; de perto, não alimenta, não nutre e não tem vida.

O perigo de viver de rótulos é que o rótulo não suporta a pressão da realidade. Podemos rotular um frasco de veneno como "remédio", mas isso não altera a química do líquido. Da mesma forma, podemos nos autodenominar cristãos, honestos ou bondosos nas biografias das redes sociais, mas os rótulos caem quando a vida nos aperta.

A inconsistência entre o personagem público e a pessoa privada é uma das maiores causas de ansiedade e depressão na atualidade. O esforço cognitivo e emocional para sustentar uma mentira — ou uma meia-verdade — é drenante. Jesus propõe o oposto: a liberdade da transparência. Uma vida onde o que se vê por fora é exatamente a transbordância do que existe por dentro. Não há necessidade de filtros quando a essência é genuína.

Neste cenário, a pergunta "Por que me chamam 'Senhor, Senhor' e não fazem o que eu digo?" soa como um chamado para abandonarmos a performance e abraçarmos a autenticidade. É um convite para desligar os holofotes do palco e acender a luz da sala de manutenção da alma.

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4. A Parábola dos Dois Construtores: A Necessidade de Cavar Fundo

Para concluir seu raciocínio, Jesus apresenta uma das parábolas mais conhecidas e visualmente poderosas do Novo Testamento: a dos dois construtores. Contudo, a versão de Lucas traz detalhes técnicos de construção que enriquecem a compreensão da metáfora, diferenciando-se ligeiramente da narrativa de Mateus.

Jesus estabelece um paralelo entre dois tipos de ouvintes. Ambos têm acesso à mesma mensagem ("ouve as minhas palavras"), mas o desfecho de suas vidas é diametricamente oposto devido a um único fator: a prática.

"Todo aquele que vem a mim, e ouve as minhas palavras, e as pratica, eu vos mostrarei a quem é semelhante: É semelhante ao homem que, edificando uma casa, cavou, abriu profunda vala e lançou os alicerces sobre a rocha; e, vindo a enchente, bateu com ímpeto a corrente naquela casa, e não a pôde abalar, porque estava fundada sobre a rocha." (Lucas 6:47-48)

O ponto crucial na narrativa de Lucas é a ação descrita como "cavou e abriu profunda vala". A estabilidade não é um acidente, nem apenas uma questão de localização geográfica; é resultado de um trabalho árduo, intencional e, muitas vezes, invisível.

Construir sobre a superfície (a terra) é rápido, barato e visivelmente gratificante a curto prazo. O construtor imprudente vê a estrutura subir rapidamente. No contexto espiritual e moral, isso representa a religiosidade de aparência: rituais, discursos bonitos e adesão social, que não exigem o sacrifício do "eu" nem o confronto com as próprias fraquezas.

Por outro lado, o construtor prudente gasta tempo e energia cavando. "Cavar" na vida espiritual significa remover a terra fofa das nossas opiniões, do nosso orgulho e das tradições humanas até encontrar a base sólida, que é a verdade de Cristo. É um processo de subtração antes de ser de adição. Ninguém vê o alicerce enquanto ele está sendo construído; é um trabalho solitário e sem aplausos, mas é o que define a sobrevivência da estrutura.

A parábola também ensina sobre a inevitabilidade das crises. Jesus não diz "se" a enchente vier, mas "quando" ela vier.

"Mas o que ouve e não pratica é semelhante ao homem que edificou uma casa sobre a terra, sem alicerces, na qual bateu com ímpeto a corrente, e logo caiu; e foi grande a ruína daquela casa." (Lucas 6:49)

A tempestade, o rio e a correnteza atingem ambas as casas com a mesma violência. A vida não poupa o prudente das dificuldades apenas porque ele é prudente. A diferença não está na ausência de problemas, mas na capacidade de resistência. A casa sem alicerce — a vida baseada apenas em teoria religiosa sem prática de obediência — colapsa sob pressão. A "grande ruína" mencionada por Jesus é o colapso existencial de quem construiu uma identidade em cima de aparências, incapaz de suportar as tragédias, tentações e provações da realidade.

Portanto, "cavar fundo" é a metáfora definitiva para a integridade. É o convite para que a vida oculta com Deus seja mais profunda do que a vida pública diante dos homens.


5. Religião Infantil versus Evangelho Transformador

Uma das consequências mais nocivas de uma espiritualidade focada apenas na aparência é a infantilização do indivíduo. A religiosidade humana tende a reduzir a complexidade da vida a uma lista binária de permissões e proibições: "pode" ou "não pode", "é pecado" ou "não é pecado". Essa mentalidade revela um estágio de imaturidade espiritual comparável ao de uma criança que necessita constantemente da tutela dos pais para saber se pode colocar o dedo na tomada ou comer doce antes do almoço.

O Evangelho, em contraste, não é um convite à dependência de regras externas, mas um chamado ao amadurecimento e à transformação da natureza. A lei tem a função de conter os impulsos de quem ainda não foi transformado. Ela serve como uma jaula para a "fera" interior. Enquanto o ser humano mantém sua velha natureza, ele precisa de leis rígidas, ameaças de punição e promessas de recompensa para se comportar de maneira civilizada.

"A religião te infantiliza, dizendo o que você pode ou não fazer. O Evangelho te amadurece, transformando quem você é, para que você não precise mais perguntar o que pode, pois a sua própria natureza já rejeita o que é mal."

A diferença fundamental reside na natureza. Podemos usar a analogia de dois animais: um porco e uma ovelha. Se lavarmos um porco, colocarmos um laço em seu pescoço e o soltarmos, a sua primeira inclinação será procurar a lama. Não porque ele seja "mau", mas porque é da sua natureza; ele se sente confortável na sujeira. A lei pode tentar impedir o porco de ir à lama construindo cercas, mas não pode tirar o desejo pela lama de dentro dele.

Por outro lado, uma ovelha não possui apetite pela lama. Se ela cair em um buraco sujo, ela grita, sofre e busca sair, pois aquilo é estranho à sua natureza. O Evangelho não se trata de lavar o porco (melhorar a aparência), mas de transformar a natureza do ser (metanoia).

Quando ocorre essa transformação interna — o que a teologia chama de "novo nascimento" — a obediência deixa de ser um fardo imposto por medo e passa a ser uma resposta natural de amor e identidade. Aquele que "cava fundo" e constrói sobre a rocha não evita o mal apenas porque é proibido, mas porque o mal lhe causa repulsa. Ele não pergunta "até onde posso ir sem pecar?", mas sim "o que edifica e reflete o caráter de Cristo?".

Enquanto a religiosidade se contenta em limpar o exterior do copo, o Evangelho limpa o interior, sabendo que o exterior será uma consequência natural dessa pureza. Deixar de ser um "menino" na fé significa assumir a responsabilidade de carregar a própria cruz, guiado não por uma tábua de leis frias, mas pelo Espírito que habita em um coração transformado.


6. Conclusão: O Verdadeiro Heroísmo de Dominar a Si Mesmo

A jornada proposta pelo Evangelho de Lucas, partindo da análise do coração até a construção de alicerces sólidos, culmina em um conceito de força que contraria o senso comum. Em um mundo que aplaude a conquista externa — seja de territórios, de status financeiro ou de influência digital —, a sabedoria bíblica aponta para uma vitória muito mais árdua e significativa: a conquista de si mesmo.

Salomão, em sua sabedoria, registrou um provérbio que sintetiza essa verdade e dialoga perfeitamente com o ensino de Jesus sobre a árvore e seus frutos:

"Melhor é o homem paciente do que o guerreiro, mais vale controlar o seu espírito do que conquistar uma cidade." (Provérbios 16:32)

Este versículo redefine o heroísmo. É relativamente mais fácil liderar um exército contra um inimigo visível ou construir um império externo do que subjugar os próprios impulsos, domar a língua e governar as emoções. O verdadeiro "guerreiro" não é aquele que impõe sua vontade aos outros, mas aquele que submete sua própria vontade aos princípios de Deus.

A "cidade" mencionada no provérbio pode ser comparada à nossa reputação pública, à nossa carreira ou à imagem que construímos para a sociedade (a casa sobre a areia). De nada adianta conquistar essa cidade se o governante interior (o espírito) for um tirano descontrolado, fraco e escravo de paixões momentâneas. Uma cidade conquistada por um homem que não domina a si mesmo está fadada à ruína, assim como a casa sem alicerces diante da tempestade.

Portanto, a mensagem final para todo "Teófilo" — para todo amigo de Deus — é um convite à integridade. Construir sobre a rocha exige a coragem de olhar para dentro, de cavar fundo removendo o entulho da hipocrisia e de permitir que a essência seja transformada. Não se trata de uma religiosidade de vitrine, onde se busca a aprovação humana através de uma performance impecável, mas de uma vida enraizada na verdade.

Que a nossa confissão de "Senhor, Senhor" não seja apenas um eco vazio em nossos lábios, mas a trilha sonora de uma vida que pratica o que ouve. Afinal, a árvore é conhecida pelo fruto, e a estabilidade da casa é provada não nos dias de sol, mas na inevitável tempestade. A verdadeira vitória é chegar ao fim dela permanecendo de pé, não pela força da aparência, mas pela solidez da essência.


18 - O Problema não é o pecado que cometemos - Zé Bruno - Meu Caro Amigo. https://www.youtube.com/watch?v=DS9v5rahgGk

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há 2 dias
Matéria: Bíblia
Artigo

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