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1. Introdução: O Contexto da Carta aos Romanos e a Justificação pela Fé

Para compreender profundamente a mensagem de esperança e fé contida no capítulo 4 de Romanos, é essencial, primeiramente, situarmo-nos no grande argumento teológico que o Apóstolo Paulo desenvolve nesta epístola. A carta aos Romanos não foi escrita ao acaso; ela possui um propósito missionário e apologético claro.

Paulo tinha o desejo de levar o Evangelho até a Espanha, uma região onde Cristo ainda não havia sido anunciado. Para realizar tal empreitada, ele necessitava de uma base de apoio espiritual, moral e financeiro. A igreja de Roma, geograficamente estratégica, era a parceira ideal. No entanto, Paulo nunca havia estado lá como apóstolo, e sua reputação o precedia de forma controversa. Havia rumores de que ele seria um judeu renegado, que pregava contra a Lei de Moisés e as tradições judaicas.

Portanto, a carta serve como uma apresentação formal do Evangelho que Paulo pregava, esclarecendo sua teologia à luz das questões polêmicas da época.

A Universalidade da Culpa e a Solução em Cristo

A estrutura inicial da carta estabelece a base para a discussão sobre a fé:

  • A Condenação dos Gentios (Capítulo 1): Paulo demonstra que mesmo aqueles que nunca ouviram falar da Lei de Moisés (os pagãos) são culpáveis diante de Deus. Eles rejeitaram a revelação divina manifesta na natureza e na consciência, optando pela idolatria.
  • A Condenação dos Judeus (Capítulo 2): O apóstolo argumenta que os judeus, detentores da Lei, dos sacrifícios e das promessas, também estão sob condenação. Possuir a Lei não significava obediência automática; portanto, diante de Deus, não havia justos, nem sequer um.
  • A Justificação pela Fé (Capítulo 3): Paulo apresenta Jesus Cristo como a solução divina. A justificação — o ato de ser declarado justo diante de Deus — não ocorre por mérito moral ou pelas obras da Lei, mas mediante a fé no sacrifício completo de Cristo.

Abraão: O Exemplo Supremo da Justificação

No capítulo 4, Paulo ilustra essa doutrina utilizando a figura de Abraão. A escolha é intencional e estratégica: Abraão é o patriarca da nação judaica, considerado o "pai da fé". A crença comum entre os judeus era que Abraão havia sido justificado pela sua exatidão em cumprir a lei e por sua moralidade.

Paulo, contudo, desconstrói essa visão. Ele ensina que Abraão foi justificado antes da circuncisão e da Lei, exclusivamente pela fé nas promessas de Deus.

"Pelo que isso lhe foi também imputado para justiça." (Rm. 4:22)

Essa distinção é crucial, pois estabelece que as promessas feitas a Abraão — de que ele seria herdeiro do mundo — não se restringem à sua descendência biológica (o povo judeu). Elas se estendem à sua descendência espiritual: todo aquele que crê como Abraão creu. Assim, ele se torna o pai de muitas nações, o pai de todos nós que compartilhamos dessa mesma fé, independentemente de nossa origem étnica.

É neste cenário que adentramos o texto de Romanos 4:17-25, onde o apóstolo detalha a natureza dessa fé extraordinária, uma fé que subsiste mesmo diante da impossibilidade.


2. O Deus de Abraão: Aquele que Vivifica os Mortos e Chama à Existência

A solidez da fé de Abraão não residia em sua própria força de vontade ou em um otimismo infundado, mas sim no objeto de sua fé: o próprio Deus. No versículo 17 de Romanos 4, Paulo redireciona o foco de Abraão para o caráter divino, descrevendo o Senhor com duas características fundamentais que sustentaram a crença do patriarca.

"(Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí.), perante aquele no qual creu, o Deus que vivifica os mortos e chama as coisas que não existem como se já existissem." (Rm. 4:17)

O Poder da Ressurreição

A primeira característica destacada é que Deus vivifica os mortos. É notável observar que, nas Escrituras, não há registro de ressurreição de mortos antes da época de Abraão. Ainda assim, a confiança do patriarca na capacidade de Deus reverter a morte era absoluta.

Essa fé foi provada de forma suprema no episódio do sacrifício de Isaque (Gênesis 22). Quando Deus ordenou que Abraão sacrificasse o filho da promessa — de quem deveriam descender muitas nações —, Abraão obedeceu. O autor de Hebreus nos esclarece a lógica por trás dessa obediência: Abraão raciocinou que, se Deus havia prometido uma descendência através de Isaque, e agora pedia sua vida, Deus era poderoso até para ressuscitá-lo dentre os mortos.

Além disso, a "ressurreição" era necessária para o próprio nascimento de Isaque. Paulo utiliza uma linguagem forte ao descrever a condição física do casal:

  • Abraão: Aos 100 anos, seu corpo estava "amortecido". No original grego, o termo remete à ideia de necrose, ou seja, reprodutivamente, ele já estava "com o pé na cova".
  • Sara: Aos 90 anos, além da esterilidade natural de toda a vida, seu ventre também estava amortecido pela idade avançada.

Para que a promessa se cumprisse, seria necessário um milagre equivalente a uma ressurreição: trazer vida a partir de ventres mortos. Abraão creu que o Deus que vivifica os mortos poderia operar vida onde havia apenas esterilidade e morte.

Criação Ex Nihilo: Chamando à Existência

A segunda característica é que Deus chama à existência as coisas que não existem. Aqui, Paulo alude ao poder criador de Deus, conhecido teologicamente como criação ex nihilo (do nada).

Assim como na criação do mundo Deus disse "Haja luz" e a luz passou a existir onde antes havia apenas trevas, Ele tem o poder de, pela Sua palavra, trazer à realidade situações, milagres e vidas que não existem no plano natural. Abraão creu nesse Deus soberano e onipotente, capaz de intervir na história humana e materializar Sua vontade soberana independentemente das circunstâncias preexistentes.

A Centralidade do Sobrenatural no Cristianismo

A partir da fé de Abraão, extraímos uma lição vital para a teologia cristã contemporânea: é impossível ser cristão sem crer no sobrenatural.

Existem filosofias e religiões, como o budismo ou certas correntes orientais, que podem subsistir como sistemas de moralidade ou modos de viver sem a necessidade de intervenção divina miraculosa. No entanto, o cristianismo desmorona sem o milagre. A fé cristã não é apenas um código de ética; ela se baseia no fato histórico e sobrenatural de que Deus ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos.

Se removemos a ressurreição — o ato de Deus vivificar um corpo morto —, a fé cristã perde seu fundamento, sua esperança e sua eficácia. Crer no Deus de Abraão é, necessariamente, crer no Deus do impossível, no Deus que intervém na natureza e que possui poder sobre a vida e a morte.


3. Crendo Contra a Esperança: A Fé Diante das Impossibilidades Humanas

A fé bíblica não opera no vácuo das emoções, nem é uma negação ingênua da realidade. O texto de Romanos 4:18 apresenta um dos paradoxos mais belos da vida cristã, descrevendo a atitude de Abraão diante da promessa divina.

"Abraão, esperando contra a esperança, creu, para vir a ser pai de muitas nações, segundo lhe fora dito: Assim será a tua descendência." (Rm. 4:18)

A expressão "esperando contra a esperança" define a essência da fé salvadora. Ela significa manter a confiança em Deus quando todas as bases para a esperança humana — lógica, biologia, estatística e circunstâncias — desapareceram. Abraão creu em um cenário onde a esperança natural era nula.

O Realismo da Fé

Ao contrário do que alguns podem pensar, a fé de Abraão não era cega para os fatos. O versículo 19 destaca que ele não ignorou a gravidade de sua situação:

"E sem enfraquecer na fé, levou em conta o seu próprio corpo já amortecido, sendo de quase cem anos, e a idade avançada de Sara." (Rm. 4:19)

Paulo enfatiza que Abraão "levou em conta" a realidade. Ele olhou para si mesmo e viu um homem de 100 anos, cujo vigor reprodutivo já havia cessado. O termo original grego traduzido como "amortecido" aproxima-se da ideia de necrose; reprodutivamente, Abraão estava morto. Ele também olhou para Sara, uma mulher de 90 anos, estéril por toda a vida e biologicamente incapaz de conceber.

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A grandeza da fé de Abraão reside justamente nisso: ele encarou a impossibilidade de frente, reconheceu que humanamente não havia saída, e ainda assim decidiu confiar que a promessa de Deus era superior às leis da natureza. Não foi um otimismo tolo, mas uma confiança convicta na onipotência divina.

O Paralelo com a Fé Cristã

Essa dinâmica de "crer contra a esperança" é o fundamento do Cristianismo até os dias de hoje. A fé cristã exige que acreditemos em algo que desafia a lógica humana e científica tanto quanto o nascimento de Isaque: a ressurreição.

A ciência médica e a experiência humana universal nos dizem que a morte é irreversível. Uma vez que a vida cessa, não há retorno natural. No entanto, o cristão baseia toda a sua existência na convicção de que, há dois mil anos, um homem que foi crucificado, morto e sepultado, reviveu ao terceiro dia e vive eternamente.

Assim como Abraão creu que a vida poderia surgir de um ventre amortecido, nós cremos que a vida surgiu de um túmulo selado. Crer na ressurreição é, por definição, esperar contra a esperança natural. Sem essa dimensão sobrenatural, o cristianismo reduzir-se-ia a uma filosofia moral ou tradição cultural, destituída de poder para salvar ou transformar. A fé verdadeira, portanto, não depende do potencial humano, mas se firma inabalavelmente no Deus que transcende o impossível.


4. A Dinâmica da Fé Verdadeira: Fortalecimento em Meio aos Vacilos

A trajetória de Abraão nos ensina que a fé não é um estado estático de perfeição, mas um exercício contínuo de confiança que precisa vencer obstáculos. Nos versículos 20 a 22, Paulo descreve a vitória da fé de Abraão, destacando como ele lidou com a demora e as dificuldades sem perder a esperança.

A Distinção entre Dúvida e Incredulidade

Paulo faz uma afirmação que, à primeira vista, pode parecer contraditória com a narrativa do Antigo Testamento:

"Não duvidou da promessa de Deus por incredulidade, mas foi fortificado na fé, dando glória a Deus." (Rm. 4:20)

Sabemos, pelos relatos de Gênesis, que Abraão teve momentos de vacilo. Houve o episódio em que ele concordou com Sara em ter um filho com a serva Agar (Ismael), tentando "ajudar" Deus a cumprir a promessa por meios humanos. Houve também o momento em que ele riu ao ouvir que seria pai aos 100 anos (Gênesis 17:17) e quando sugeriu que seu mordomo, Eliezer, fosse seu herdeiro.

Como, então, Paulo afirma que ele "não duvidou"? A chave está na qualificação: "por incredulidade".

A incredulidade é o oposto da fé; é a rejeição de Deus e de Suas promessas, um virar as costas para o Criador. A fé verdadeira, por outro lado, pode conviver com questionamentos, angústias e momentos de fraqueza, mas ela nunca abandona a Deus. A fé pode perguntar "como?" e "quando?", pode até argumentar com Deus — como Jó ou os Salmistas fizeram —, mas ela permanece ancorada na certeza de que Deus existe e ouve.

Os vacilos de Abraão foram lapsos de impaciência ou incompreensão sobre o método de Deus, mas não uma rejeição da capacidade ou da verdade de Deus. A incredulidade diz: "Deus não vai fazer". A fé que luta diz: "Eu creio que Deus vai fazer, mas estou tendo dificuldade em entender a demora".

O Segredo do Fortalecimento: Dando Glória a Deus

O texto diz que Abraão "se fortaleceu na fé, dando glória a Deus". Isso revela a mecânica espiritual de sua perseverança. Abraão não se fortaleceu olhando para as circunstâncias, para a esterilidade de Sara ou para sua própria velhice. Pelo contrário, quanto mais ele olhava para os obstáculos naturais, mais motivos tinha para desanimar.

O fortalecimento veio ao desviar o olhar do problema e fixá-lo na natureza de Deus. Dar glória a Deus significa reconhecer Seus atributos: Sua fidelidade, Seu poder de ressuscitar mortos e Sua soberania sobre a criação. Quando os olhos da fé se ajustam ao tamanho do Deus que prometeu, os obstáculos terrenos perdem sua capacidade de intimidar.

Plena Convicção: O Poder de Deus, não o Nosso

Por fim, o versículo 21 define a essência da fé madura:

"Estando plenamente convicto de que ele era poderoso para cumprir o que prometera." (Rm. 4:21)

A fé de Abraão não consistia em ditar regras para Deus, determinando datas ou métodos. Não era um "pensamento positivo" de que tudo daria certo, nem uma exigência arrogante. Sua fé repousava na convicção de que Deus é poderoso.

Abraão não sabia quando o filho viria, nem como Deus reverteria a biologia. Sua confiança estava inteiramente depositada na capacidade de Deus de cumprir Sua palavra, no tempo e modo que Lhe aprouvesse. Essa "plena convicção" foi o que Deus considerou como justiça. A fé honra a Deus porque tira a confiança do braço humano e a coloca inteiramente na fidelidade divina.


5. A Aplicação para Nós: A Justificação e a Ressurreição de Jesus

A história de Abraão não foi preservada nas Escrituras apenas como um registro biográfico de honra ou uma curiosidade histórica. Paulo encerra o capítulo 4 de Romanos fazendo uma aplicação direta e poderosa: o que aconteceu com Abraão é o paradigma para a vida de todo cristão.

"Ora, não só por causa dele está escrito que lhe foi imputado, mas também por nossa causa, a quem será imputado, a nós que cremos naquele que dos mortos ressuscitou a Jesus nosso Senhor." (Rm. 4:23-24)

A Mesma Fé, O Mesmo Deus

O apóstolo estabelece uma continuidade perfeita entre o Antigo e o Novo Testamento. A fé que salva hoje é, em essência, idêntica à fé de Abraão. Ambos os grupos — os crentes da antiga aliança e os cristãos — são chamados a crer no Deus que opera vida a partir da morte.

  • Abraão: Creu que Deus traria vida (Isaque) de seu corpo amortecido e do ventre morto de Sara.
  • Nós: Cremos que Deus trouxe vida (Jesus) ao ressuscitá-Lo dentre os mortos.

A exigência é a mesma: confiar no impossível realizado por Deus. Paulo define o cristão não apenas como alguém que segue os ensinamentos morais de Jesus, mas especificamente como alguém que crê "naquele que ressuscitou a Jesus". A ressurreição é o ponto central. Assim como a promessa a Abraão exigia um milagre biológico, a nossa salvação depende do maior de todos os milagres.

A Obra Completa de Cristo

O texto culmina no versículo 25, que resume o Evangelho em duas ações divinas fundamentais, preparando o terreno para o capítulo 5 de Romanos:

"O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação." (Rm. 4:25)

Aqui, Paulo delineia a dupla eficácia da obra de Cristo:

  1. Entregue por nossas transgressões: A morte de Jesus na cruz não foi um acidente histórico ou uma tragédia política, mas um ato deliberado de Deus Pai. Ele foi entregue para pagar a dívida dos nossos pecados. A cruz satisfaz a justiça divina.
  2. Ressuscitado para nossa justificação: Se Jesus tivesse permanecido morto, sua obra estaria incompleta; seria um mártir, mas não um Salvador. A ressurreição é o selo de aprovação de Deus. Ao ressuscitar Jesus, o Pai declarou publicamente que o sacrifício foi aceito, a dívida foi paga e a justiça foi satisfeita.

Portanto, a nossa justificação — o ato de sermos declarados justos diante de Deus — está intrinsecamente ligada à vida ressurreta de Cristo. Crer nisso é o fundamento inegociável da vida cristã.


Augustus Nicodemus. 22. Abraão esperando contra a esperança (Rm 4.17-25). https://youtu.be/A58wQeVNKXc?si=AruPz1Y753u1V1Mh

Avatar de diego
há 21 horas
Matéria: Bíblia
Artigo

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