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Monergismo versus Sinergismo: As Raízes Históricas da Soteriologia

O estudo da Soteriologia — a doutrina da salvação — frequentemente conduz estudantes e teólogos a um dos debates mais antigos e profundos da história da igreja cristã: a tensão entre a soberania divina e a responsabilidade humana. Antes mesmo de adentrarmos nas famosas distinções entre calvinismo e arminianismo, é fundamental compreender as categorias teológicas primárias que sustentam essas visões: o Monergismo e o Sinergismo.

Esses conceitos não surgiram no vácuo, mas são o desenvolvimento de discussões que remontam aos primeiros séculos do cristianismo, especificamente ao embate entre Agostinho de Hipona e Pelágio. Agostinho defendia que o pecado de Adão e Eva (o pecado original) comprometeu toda a raça humana, tornando a humanidade depravada e incapaz de buscar a Deus por iniciativa própria. Para ele, a salvação era necessária única e exclusivamente pela graça divina. Em contrapartida, Pelágio acreditava que o pecado adâmico não afetava a natureza humana intrínseca, argumentando que todos nascem com a capacidade voluntária de não praticar o mal e buscar a própria salvação. Historicamente, a igreja consolidou a visão agostiniana de que a salvação é, de fato, um dom gratuito de Deus, rejeitando o pelagianismo puro.

Deste fundamento histórico, derivam-se as duas perspectivas centrais sobre a mecânica da salvação:

A Perspectiva Monergista

O termo Monergismo (do grego mono, "um", e ergon, "trabalho") ensina que Deus é o único agente ativo na salvação. Nesta visão, a regeneração humana é uma obra exclusiva do Espírito Santo, sem qualquer cooperação meritória do homem. O ser humano, em seu estado natural de pecado, é visto como espiritualmente morto e totalmente passivo no processo inicial de sua salvação.

Para ilustrar este conceito, utiliza-se frequentemente a analogia de um salvamento aquático:

O ser humano é comparado a alguém que está se afogando, incapaz de nadar e já sem forças. A salvação, neste cenário, é a obra de um salva-vidas que entra no mar e retira a pessoa da água para mantê-la viva. O salva-vidas realiza todo o trabalho sozinho; a vítima é totalmente vulnerável e passiva no ato do resgate.

Portanto, o monergismo enfatiza que somente Deus opera a salvação, garantindo que toda a glória pertença a Ele.

A Perspectiva Sinergista

Por outro lado, o Sinergismo (do grego syn, "junto", e ergon, "trabalho") propõe que o homem coopera, de alguma forma, na sua própria salvação. Embora a salvação seja fruto da graça e da ação principal de Deus, o sinergismo argumenta que o ser humano precisa responder ou corresponder a essa graça.

Nesta visão, ações como crer e arrepender-se dos pecados são vistas como respostas humanas necessárias que habilitam a apropriação da salvação oferecida por Deus. Não se trata de mérito humano para a salvação, mas de uma cooperação necessária para que a graça se torne eficaz na vida do indivíduo.

Este debate entre a ação exclusiva de Deus e a cooperação humana permeia toda a história eclesiástica e serve como a base teórica para a discussão posterior que dominaria o protestantismo: o confronto entre as ideias associadas a João Calvino (monergistas) e Jacó Armínio (sinergistas).


O Legado de João Calvino e as Divergências com Lutero

Embora o termo "calvinismo" seja frequentemente usado como sinônimo para a doutrina da predestinação, o legado de João Calvino é vasto e se insere no contexto mais amplo da Reforma Protestante do século XVI. Calvino, um teólogo francês, compartilhou muitas das bases teológicas de Martinho Lutero, o reformador alemão, mas também estabeleceu distinções cruciais que moldariam diferentes denominações protestantes ao longo dos séculos.

Pontos de Convergência com a Reforma Luterana

Inicialmente, é importante destacar que Calvino e Lutero caminhavam juntos nos pilares fundamentais da Reforma. Ambos defendiam vigorosamente:

  • A Justificação pela Fé: A crença de que o homem é justificado somente pela fé em Cristo, e não por obras.
  • A Supremacia das Escrituras: A Bíblia como a única regra infalível de fé e prática (Sola Scriptura).
  • O Sacerdócio Universal: A abolição da figura do sacerdote como mediador indispensável, defendendo que todo crente tem acesso direto a Deus.

As Divergências Teológicas e Eclesiásticas

Apesar das semelhanças, Calvino desenvolveu pensamentos distintos que separaram a tradição Reformada (Calvinista) da Luterana. As principais diferenças residem em três áreas:

  1. A Santa Ceia: Lutero acreditava na consubstanciação, defendendo que o corpo e o sangue de Cristo estavam fisicamente presentes "com, em e sob" o pão e o vinho. Calvino, por outro lado, rejeitava a presença física literal, argumentando que Cristo se faz presente na Ceia de maneira espiritual.
  2. O Governo da Igreja: Enquanto a tradição luterana manteve um sistema episcopal (hierárquico, muitas vezes com um líder supremo ou bispo), Calvino defendeu o sistema presbiteriano. Neste modelo, a igreja não é governada por uma única pessoa, mas por um conselho de presbíteros e pastores. É um sistema representativo e republicano de liderança eclesiástica.
  3. Relação Igreja e Estado: Lutero buscou apoio político nos príncipes alemães para a Reforma. Calvino sustentava que a Igreja deveria estar acima do governo secular, influenciando o Estado para que este legislasse de acordo com as premissas do Evangelho, aproximando-se de uma visão teocrática.

A Ênfase na Soberania Divina e as Divisões Internas

A bandeira teológica que tornou Calvino mais famoso foi, indubitavelmente, a doutrina da predestinação baseada na soberania de Deus. O ponto central é que, sendo Deus soberano, Ele determina o destino da humanidade — quem será salvo e quem não será — de maneira arbitrária (no sentido de vontade independente) e justa, segundo Seus próprios critérios ocultos.

Após a morte de Calvino, seus seguidores debateram intensamente a ordem lógica dos decretos de Deus, gerando duas correntes principais dentro do próprio calvinismo:

  • Infralapsarianismo: Acredita que Deus escolheu os eleitos depois de prever a queda de Adão. Ou seja, Deus permitiu a queda e, diante de uma humanidade já condenada, escolheu salvar alguns.
  • Supralapsarianismo: Ensina que a eleição ocorreu antes mesmo da criação e da queda. Deus primeiro decretou quem salvaria e quem condenaria, e depois decretou a criação e a queda como meios para realizar esse fim.

O Sínodo de Dort

É vital notar que os famosos "Cinco Pontos do Calvinismo" não foram escritos diretamente por João Calvino em uma lista resumida. Eles foram formulados posteriormente, no Sínodo de Dort (1618-1619), na Holanda. Este sínodo foi uma resposta direta aos seguidores de Jacó Armínio (os Remonstrantes), que questionavam a teologia reformada tradicional. Foi nesse contexto de debate que a teologia calvinista foi sistematizada nos pontos que estudaremos a seguir.


Os Cinco Pontos do Calvinismo (TULIP): Soberania e Eleição Incondicional

Como vimos anteriormente, os chamados "Cinco Pontos do Calvinismo" foram sistematizados no Sínodo de Dort em resposta aos questionamentos arminianos. Frequentemente lembrados pelo acrônimo em inglês TULIP (Total Depravity, Unconditional Election, Limited Atonement, Irresistible Grace, Perseverance of the Saints), esses princípios resumem a soteriologia reformada, enfatizando a soberania absoluta de Deus na salvação.

Abaixo, detalhamos cada um desses pontos conforme a perspectiva calvinista clássica:

1. Depravação Total (Total Depravity)

O ponto de partida é a condição humana pós-queda. Para os calvinistas, o pecado de Adão corrompeu a natureza humana de forma tão profunda que não restou "bem algum" capaz de conectar o homem a Deus. O ser humano está espiritualmente morto e, portanto, é totalmente incapaz de buscar a Deus ou exercer fé por conta própria.

"Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há quem entenda; não há quem busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só." (Romanos 3:10-12)

"Ele vos vivificou, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados." (Efésios 2:1)

2. Eleição Incondicional (Unconditional Election)

Se o homem é incapaz de buscar a Deus, a iniciativa da salvação deve partir inteiramente do Criador. A doutrina da Eleição Incondicional ensina que, antes da fundação do mundo, Deus escolheu soberanamente um grupo específico de pessoas para serem salvas.

Esta escolha não foi baseada em qualquer mérito humano ou na previsão de que essas pessoas teriam fé (pré-ciência de ações), mas sim fundamentada unicamente na vontade soberana e no "beneplácito" de Deus.

Os calvinistas respondem à acusação de injustiça divina argumentando que, como toda a humanidade já estava condenada pelo pecado, Deus seria justo se deixasse todos perecerem. Ao escolher salvar alguns, Ele exerce misericórdia, sem cometer injustiça contra os demais.

"Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade." (Efésios 1:4-5)

"Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer." (Romanos 9:18)

3. Expiação Limitada (Limited Atonement)

Este é frequentemente o ponto mais controverso. A lógica calvinista dita que, se Deus escolheu apenas um grupo para salvar (os eleitos), então a morte de Cristo na cruz teve um propósito específico: garantir a redenção desse grupo.

Assim, Jesus não teria morrido para salvar a humanidade inteira indiscriminadamente (o que implicaria, na visão deles, uma falha caso alguém por quem Cristo morreu fosse para o inferno), mas morreu eficazmente pelas Suas "ovelhas".

"Eu sou o bom pastor; o bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas." (João 10:11)

"E dará à luz um filho e chamarás o seu nome JESUS; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados." (Mateus 1:21)

4. Graça Irresistível (Irresistible Grace)

Uma vez que Deus elegeu alguém e Cristo morreu por essa pessoa, o Espírito Santo aplica essa salvação de maneira eficaz. A Graça Irresistível ensina que, quando Deus chama um eleito para a salvação, essa pessoa não pode resistir a esse chamado.

Diferente da oferta externa do Evangelho (que muitos rejeitam), o chamado interno do Espírito vence a resistência do coração humano, regenerando a vontade do pecador para que ele creia voluntariamente. Não se trata de Deus arrastar alguém contra a sua vontade, mas de Deus mudar o coração para que a pessoa queira vir a Ele.

"Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora." (João 6:37)

Os calvinistas citam o exemplo de Lídia em Atos, onde é dito que o Senhor "abriu o coração" dela para crer.

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5. Perseverança dos Santos (Perseverance of the Saints)

Por fim, a segurança da salvação. O calvinismo defende que aqueles que foram verdadeiramente eleitos, chamados e justificados jamais perderão a salvação. Eles perseverarão na fé até o fim.

O lema "uma vez salvo, salvo para sempre" se aplica aqui, com a ressalva de que a "salvação" referida é a verdadeira regeneração. Se alguém professa a fé e depois a abandona definitivamente, a interpretação calvinista é que tal pessoa nunca foi verdadeiramente salva ou regenerada (1 João 2:19).

"E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão." (João 10:28)

Representantes Notáveis: A tradição calvinista é sustentada por nomes históricos e contemporâneos como Jonathan Edwards, Charles Spurgeon, George Whitefield, e, mais recentemente, John Piper, Tim Keller e, no Brasil, Augustus Nicodemos e Hernandes Dias Lopes.


A Perspectiva de Jacó Armínio e os Cinco Pontos do Arminianismo

Enquanto o calvinismo se consolidava, surgiu uma voz dissidente dentro da própria igreja reformada holandesa: Jacó Armínio (Jacobus Arminius). Curiosamente, Armínio foi aluno de teólogos calvinistas e iniciou sua carreira defendendo essas doutrinas. No entanto, ao se debruçar sobre as Escrituras para debater contra opositores, ele acabou convencido de que certos pontos do calvinismo rígido estavam equivocados.

Suas ideias foram sistematizadas postumamente por seus seguidores no documento conhecido como Remonstrance (Remonstrância) de 1610. Abaixo, exploramos os cinco pontos do Arminianismo, que funcionam como um contraponto direto aos cinco pontos calvinistas.

1. Graça Preveniente (Prevenient Grace)

O arminianismo concorda com a depravação humana: o homem é pecador e não pode salvar-se sozinho. Contudo, discorda que Deus deixe a humanidade nesse estado de total incapacidade passiva.

A doutrina da Graça Preveniente ensina que Deus libera uma graça que "vem antes" (precede) da salvação, restaurando no homem pecador a capacidade de responder ao chamado de Deus. É como se o "salva-vidas" não apenas tirasse a pessoa da água à força, mas a colocasse em uma posição segura onde ela recupera a consciência e pode escolher segurar a mão do resgatador.

"E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim." (João 12:32)

"Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam." (Atos 17:30)

2. Eleição Condicional (Conditional Election)

Diferente da escolha arbitrária baseada apenas na soberania (calvinismo), o arminianismo defende que a eleição de Deus é baseada na Sua pré-ciência.

Deus, sendo onisciente, sabe desde a eternidade quem irá crer e quem rejeitará o Evangelho. Assim, Ele elege para a salvação aqueles que Ele previu que aceitariam a Cristo livremente através da fé. A condição para a eleição é a fé em Jesus.

"Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo..." (1 Pedro 1:2)

"Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho..." (Romanos 8:29)

3. Expiação Universal (Unlimited Atonement)

Em oposição direta à expiação limitada, Armínio defendia que o sacrifício de Jesus na cruz foi suficiente e intencional para toda a humanidade, e não apenas para os eleitos.

Embora o sacrifício seja suficiente para todos, ele só é eficiente (só salva de fato) aqueles que creem. A morte de Cristo abriu a porta da salvação para o mundo inteiro, tornando a redenção acessível a qualquer um que se arrependa.

"E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo." (1 João 2:2)

"O qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade." (1 Timóteo 2:4)

4. Graça Resistível (Resistible Grace)

Enquanto o calvinista crê que o chamado de Deus é irresistível para os eleitos, o arminiano sustenta que Deus, em Sua soberania, decidiu não violar o livre-arbítrio humano. Portanto, o Espírito Santo convence e chama, mas o ser humano pode, obstinadamente, resistir a esse chamado e rejeitar a salvação.

"Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim vós sois como vossos pais." (Atos 7:51)

"Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!" (Mateus 23:37)

5. Possibilidade de Perda da Salvação (Falling from Grace)

Este é o ponto de maior divergência prática. O arminianismo clássico ensina que é possível que um crente verdadeiro, que já experimentou a regeneração, se desvie da fé, deixe de perseverar e, consequentemente, perca a salvação. A segurança da salvação está condicionada à permanência em Cristo.

"Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se fizeram participantes do Espírito Santo... E recaíram, sejam outra vez renovados para arrependimento..." (Hebreus 6:4-6)

"Porque melhor lhes fora não terem conhecido o caminho da justiça, do que, conhecendo-o, desviarem-se do santo mandamento que lhes fora dado." (2 Pedro 2:21)

Representantes Notáveis: Historicamente, John Wesley (fundador do Metodismo) foi o grande propagador da teologia arminiana. No cenário contemporâneo, destacam-se o teólogo Roger Olson e a grande maioria das denominações pentecostais, como as Assembleias de Deus.


Dilemas Teológicos e Aplicação Prática: Predestinação, Oração e Evangelismo

O debate entre calvinismo e arminianismo não é apenas uma discussão acadêmica abstrata; ele levanta questões profundas que afetam a vida devocional, a oração e a evangelização. Ao analisarmos textos difíceis e situações do cotidiano, percebemos como cada teologia tenta resolver o mistério da vontade divina.

O Enigma de Romanos 9: Jacó e Esaú

Um dos campos de batalha mais intensos deste debate é o capítulo 9 de Romanos, onde Paulo escreve: "Amei a Jacó, e aborreci a Esaú".

  • A Visão Calvinista: Interpreta este texto como uma prova cabal da eleição individual soberana. Deus, em Sua liberdade, escolheu amar (salvar) Jacó e aborrecer (deixar em condenação) Esaú, sem que nenhum deles tivesse feito bem ou mal.
  • A Visão Arminiana: Argumenta que o texto não trata de salvação individual eterna (céu ou inferno), mas de eleição para um propósito histórico. Deus escolheu a linhagem de Jacó para formar a nação de Israel e trazer o Messias. "Aborrecer" Esaú seria uma expressão idiomática para uma "escolha secundária" ou não-escolha para a aliança messiânica. O argumento é reforçado pelo fato de que muitos descendentes de Jacó (israelitas) se perderam, provando que a eleição nacional não garantia salvação pessoal.

"Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal... foi-lhe dito a ela: O maior servirá o menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e aborreci a Esaú." (Romanos 9:11-13)

A transcrição destaca que nem sempre "eleição" na Bíblia é para salvação. Judas foi eleito para o apostolado (João 6:70), mas não foi salvo. Jeremias foi eleito profeta desde o ventre. Assim, a escolha soberana muitas vezes refere-se a missões e vocações específicas.

Se tudo já está definido, por que orar e evangelizar?

Uma dúvida comum surge: "Se Deus já escolheu quem vai para o céu (Calvinismo) ou se Deus já sabe quem vai crer (Arminianismo), por que eu preciso orar ou pregar?"

A resposta cristã, em ambas as vertentes, é que não possuímos o "Livro da Vida". Não cabe ao ser humano tentar fazer o papel de Deus e julgar quem é salvo ou não. A responsabilidade humana é clara:

  1. O Dever da Obediência: A ordem de Jesus é "ide e pregai". A nossa obediência em evangelizar gera recompensa para nós, independentemente se o ouvinte aceitará ou não.
  2. O Poder da Intercessão: O exemplo prático de orar por um familiar "perdido" (como no caso citado de um dependente químico) ilustra que não devemos desistir. A oração pode clamar pela misericórdia de Deus, inclusive pedindo que Deus use circunstâncias difíceis (disciplina) para levar a pessoa ao arrependimento, como na oração de Habacuque: "Na ira, lembra-te da misericórdia" (Hc 3:2).
  3. O Limite da Insistência: Baseado em Mateus 10:14 ("sacudi o pó dos vossos pés"), entende-se que há um momento em que, se a rejeição ao Evangelho for total e hostil, o cristão pode redirecionar seus esforços para outros que precisam ouvir, sem carregar a culpa daquela rejeição.

Conclusão: O Solo Comum da Graça

Apesar de séculos de debate, calvinistas e arminianos concordam nos fundamentos essenciais que definem o cristianismo ortodoxo. Ambos rejeitam heresias extremas:

  • O calvinista sério rejeita a ideia de que, por ser eleito, pode viver no pecado (antinomismo).
  • O arminiano sério rejeita a ideia de que é salvo pelo mérito de sua própria escolha ou obras (pelagianismo).

No fim, ambos concordam que:

  • A salvação é pela graça, mediante a fé.
  • Só Jesus Cristo salva.
  • O arrependimento é necessário.
  • A Igreja tem a missão urgente de pregar o Evangelho a toda criatura.

O debate, embora útil para aguçar o entendimento bíblico, não deve obscurecer a verdade maior de que a salvação é um presente imerecido de um Deus que é, acima de tudo, Santo e Amoroso.


Iury Rangel. Sistemática: Soteriologia - Aual 4 (27/2/25). https://youtu.be/5lz92tXp71E?si=sM-ZgzAuHcIiZdXB

Avatar de diego
há 2 horas
Matéria: Bíblia
Artigo

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