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A Angústia do Cárcere: Quando as Circunstâncias Geram Dúvidas sobre Deus

O relato bíblico situado em Lucas, capítulo 7, versículos 18 ao 35, nos apresenta um momento de profunda vulnerabilidade humana protagonizado por uma das figuras mais emblemáticas das Escrituras: João Batista. O cenário é sombrio; João encontra-se encarcerado por ordem de Herodes Antipas. A razão de sua prisão, detalhada anteriormente no capítulo 3 de Lucas, foi a denúncia profética contra o casamento ilícito do tetrarca com Herodias, esposa de seu próprio irmão.

Neste contexto de privação de liberdade e iminência da morte, surge uma dúvida inquietante na mente daquele que preparou o caminho. Ao ouvir relatos sobre os feitos de Jesus — a cura de paralíticos, a purificação de leprosos e até a ressurreição do filho da viúva de Naim — João envia dois de seus discípulos com uma pergunta direta e carregada de significado:

"És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro?" (Lc. 7:19)

Esta interrogação revela um conflito interno que ecoa através dos séculos. João Batista conhecia as profecias. Ele sabia que Isaías havia falado sobre a "voz que clama no deserto" para endireitar os caminhos do Senhor. Contudo, a realidade que ele experimentava no cárcere parecia contradizer a expectativa messiânica de um reino de força, justiça imediata e libertação política.

É provável que João, assim como muitos judeus de sua época, esperasse que a chegada do Messias implicasse no fim imediato do domínio romano e na derrubada de governantes corruptos como Herodes. Se o Rei havia chegado, por que o precursor continuava preso? Se o Reino estava presente, por que a injustiça prevalecia sobre o profeta de Deus?

Essa dúvida não era exclusiva de João; ela permeava a mente dos religiosos e do povo em geral. Até mesmo os discípulos mais próximos de Jesus, em momentos cruciais, demonstraram incerteza. Filipe, por exemplo, já próximo ao fim do ministério de Cristo, pediu: "Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta" (Jo. 14:8), evidenciando que, mesmo caminhando lado a lado com a Verdade, a compreensão plena ainda lhes escapava.

A angústia de João no cárcere espelha as crises de fé que ocorrem quando a realidade da vida não se alinha com a nossa teologia ou expectativas. Muitas vezes, espera-se que a intervenção divina se manifeste através de uma demonstração de poder bélico ou político — um "pé na porta" da história que resolva as aflições humanas instantaneamente. No entanto, o Reino que Jesus estava inaugurando operava sob uma lógica diferente, uma que não necessariamente derruba os impérios terrenos de imediato, mas que transforma a realidade de maneira muito mais profunda e paradoxal.

A dúvida de João, portanto, não diminui sua grandeza, mas humaniza sua missão. Ela nos mostra que, diante do silêncio de Deus em meio ao sofrimento, é natural questionar se as promessas são reais ou se "devemos esperar outro". A resposta de Jesus a essa angústia, contudo, não seria uma libertação física das grades de Herodes, mas uma revelação sobre a verdadeira natureza de Seu ministério.


A Resposta de Jesus: Sinais que Apontam para um Reino de Restauração

Diante da indagação dos discípulos de João, Jesus não oferece uma defesa teórica de sua identidade messiânica, nem apresenta um manifesto político contra Roma. A resposta de Cristo é pragmática e fundamentada na ação. O texto relata que, "naquela mesma hora", Jesus curou muitas pessoas de doenças, sofrimentos e espíritos malignos.

Ao instruir os mensageiros sobre o que dizer a João, Jesus utiliza uma linguagem profundamente enraizada nas Escrituras, evocando profecias que o próprio João Batista conhecia bem. Ele diz:

"Voltem e anunciem a João o que vocês viram e ouviram: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e aos pobres está sendo pregado o evangelho." (Lc. 7:22)

Esta declaração não é aleatória; ela é uma citação direta e uma paráfrase das promessas de restauração encontradas no livro de Isaías. O profeta havia anunciado séculos antes como seria a manifestação do Reino de Deus:

"Então se abriram os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos; os coxos saltarão como cervos, e a língua dos mudos cantará; pois águas arrebentarão no deserto e ribeiros no ermo." (Is. 35:5-6)

"O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar boas-novas aos pobres, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados..." (Is. 61:1)

Há uma ironia dolorosa e profunda aqui: a profecia de Isaías 61 fala em "libertação aos cativos", mas João continuava preso. Isso sugere que a libertação trazida pelo Messias transcendia as grades físicas. Os milagres operados por Jesus funcionavam como sinais.

É fundamental compreender o conceito de "sinal". Quando viajamos e avistamos uma placa indicando "Campos do Jordão" ou "Aparecida", não paramos o carro embaixo da placa e acampamos ali. A placa não é a cidade; ela apenas aponta para o destino. Da mesma forma, os milagres de Jesus não eram um fim em si mesmos. Ele não veio a este mundo com o objetivo primário de erradicar todas as doenças físicas ou resolver a mortalidade biológica imediata — afinal, Lázaro e o filho da viúva de Naim, embora ressuscitados, morreram novamente mais tarde.

Os milagres sinalizavam a natureza do Seu Reino:

  • Cegos vendo: No Reino de Deus, as pessoas enxergam a verdade e a realidade espiritual.
  • Surdos ouvindo: No Reino, a humanidade volta a ouvir a voz do Criador.
  • Coxos andando: No Reino, há liberdade de movimento e ação, sem paralisia existencial.
  • Pobres recebendo o evangelho: No Reino, não há escassez da graça, e a dignidade é restaurada.

Portanto, Jesus estava dizendo a João: "Os sinais do Reino estão aqui. O Reino chegou, ainda que não da forma fulminante que você esperava." A restauração estava acontecendo de dentro para fora, transformando a condição humana e apontando para uma realidade eterna onde não haverá mais dor, nem choro, nem morte.


O Grande Paradoxo: O Perigo de Tropeçar na Bondade e na Graça

Após apontar os sinais de seu ministério, Jesus profere uma bem-aventurança que carrega um aviso solene e, à primeira vista, estranho:

"Bem-aventurado é aquele que não achar em mim motivo de tropeço." (Lc. 7:23)

A palavra "tropeço" aqui remete ao termo grego skandalon, a "pedra de tropeço" ou a armadilha que faz alguém cair. Este é um dos paradoxos centrais do Evangelho: como o Messias, a fonte de toda a vida e salvação, pode se tornar um obstáculo que derruba as pessoas?

A resposta reside na natureza das expectativas humanas. Isaías já havia profetizado que o Senhor seria, simultaneamente, um santuário e uma rocha de ofensa:

"Ele será um santuário para vocês, mas será pedra de tropeço e rocha de ofensa às duas casas de Israel... Muitos deles tropeçarão, cairão, serão despedaçados, enlaçados e presos." (Is. 8:14-15)

Existe uma distinção crucial a ser feita sobre o ato de "tropeçar". Na caminhada cristã, é comum que o indivíduo tropece em suas próprias fraquezas, tentações e pecados. Quando alguém reconhece seu erro, sente remorso e busca perdão, esse "tropeço" na própria carne, embora doloroso, revela uma consciência viva e sensível à santidade. É um indicativo de que a pessoa ainda luta pelo bem, apesar de sua natureza falha. Paulo descreve essa luta interna em Romanos 7, onde o bem que deseja fazer não consegue realizar.

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O perigo real e fatal surge quando o indivíduo não tropeça mais em seus pecados, mas começa a tropeçar na bondade do Reino. Isso ocorre quando a graça, a misericórdia e o amor irrestrito de Jesus se tornam ofensivos à lógica humana.

Muitos tropeçam em Jesus porque Ele não atende aos critérios de justiça retributiva e vingança imediata que o coração humano frequentemente deseja. O Reino de Deus propõe o perdão aos inimigos, a oração pelos que nos perseguem e a graça estendida aos indignos. Para uma mente formatada pela lógica do "olho por olho" ou pela busca de poder, essa mensagem é escandalosa.

Quando a mensagem de paz, tolerância e amor ao próximo causa irritação ou rejeição, significa que a pessoa tropeçou na "Pedra Angular". O Reino de Deus, ao invés de ser um refúgio, torna-se um problema para quem deseja um deus moldado à sua própria imagem — um deus que valide seus preconceitos e destrua seus opositores políticos ou ideológicos.

A advertência de Cristo é clara: felizes são aqueles que conseguem olhar para a simplicidade do Evangelho — que cura, restaura e acolhe — e não se sentem ofendidos por ela. A verdadeira tragédia não é o pecador que cai tentando acertar, mas o religioso ou o moralista que cai por rejeitar a misericórdia excessiva de Deus.


Expectativas Frustradas: O Messias Político versus O Príncipe da Paz

Uma das razões centrais para o "tropeço" mencionado por Jesus reside na dissonância entre a agenda divina e a agenda política humana. No contexto do primeiro século, a Palestina estava sob o jugo de Roma. Havia uma expectativa fervorosa, alimentada tanto pelos zelotes quanto pela população comum, de que o Messias surgiria como um libertador militar. Esperava-se um rei que expulsasse os governadores romanos, destituísse os tetrarcas corruptos como Herodes e restabelecesse a soberania nacional de Israel com "mão de ferro".

É plausível imaginar que, no isolamento de sua cela, João Batista nutrisse esperanças semelhantes. Se o Cordeiro de Deus havia chegado, o passo lógico seguinte, na mente judaica da época, seria o julgamento das nações e a instauração visível do trono de Davi em Jerusalém. A lógica era simples: se Ele tem o poder, por que não derruba os tiranos agora?

Essa mentalidade persistiu até os últimos momentos de Jesus na terra. Mesmo após a ressurreição, conforme registrado no livro de Atos, os discípulos ainda perguntavam:

"Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel?" (Atos 1:6)

A resposta de Jesus sempre frustrou esse anseio por domínio territorial imediato. Ele deixa claro que o Seu Reino não opera mediante a imposição de força ou coerção política. Enquanto os homens esperavam um movimento que mudasse a sociedade de fora para dentro — através de decretos, guerras e revoluções —, Jesus inaugurou um movimento de dentro para fora.

O Reino de Deus, de fato, possui profundas implicações sociais, econômicas e políticas. Quando um indivíduo é transformado pelo Evangelho, ele passa a repartir o pão, a buscar a justiça e a amar o próximo, o que inevitavelmente impacta a economia e a sociedade ao seu redor. No entanto, isso não acontece através de um sistema imposto "goela abaixo". O Reino não é estabelecido pela espada de César, mas pela cruz de Cristo.

Aqui reside um contraste fundamental sobre a figura do "herói". A cultura humana tende a exaltar heróis que eliminam seus inimigos, que resolvem problemas através da força bruta e que subjugam os opositores. O herói do Reino, contudo, não é aquele que mata para estabelecer a paz, mas aquele que morre para reconciliar os inimigos.

"O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui." (Jo. 18:36)

Jesus frustra a expectativa de um "messias político" porque Ele não veio para reformar o Império Romano, mas para redimir a humanidade da escravidão do pecado — uma tirania muito mais letal do que a de qualquer imperador terreno. Aceitar essa proposta exige abandonar a idolatria pelo poder temporal e abraçar o caminho do serviço e do sacrifício.


A Geração Insatisfeita e a Justificação da Sabedoria

Após a partida dos mensageiros de João, Jesus volta-se para a multidão e profere um discurso revelador sobre a natureza humana e a percepção espiritual daquela geração — uma análise que permanece assustadoramente atual. Ele começa questionando as motivações que levaram o povo ao deserto:

"Que saístes a ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? [...] Um homem vestido de roupas finas? [...] Sim, eu vos digo, e muito mais do que profeta." (Lc. 7:24-26)

Jesus contrapõe a firmeza de João Batista à instabilidade de um "caniço" (uma espécie de vara de bambu) que balança conforme a direção do vento. O caniço representa a inconstância de caráter e a fragilidade de convicções, uma característica comum àqueles que são levados por qualquer "vento de doutrina" ou moda teológica. João, ao contrário, não estava nos palácios vestindo sedas, nem buscando agradar aos poderosos; ele era a voz áspera e necessária da verdade.

Neste ponto, Jesus estabelece um marco divisório na história da salvação. Ele afirma que "entre os nascidos de mulher, ninguém é maior do que João", mas acrescenta um conceito revolucionário: "o menor no reino de Deus é maior do que ele" (Lc. 7:28). Isso sinaliza que o Reino inaugura uma nova realidade de acesso e intimidade com Deus, superior até mesmo à dos maiores profetas da Antiga Aliança.

No entanto, a resposta daquela geração — tanto ao profeta quanto ao Messias — foi marcada pela insatisfação crônica e pela crítica destrutiva. Jesus compara os homens daquela época a crianças mimadas sentadas na praça, brincando de jogos que ninguém quer jogar:

"São semelhantes a meninos que, sentados na praça, gritam uns para os outros: Nós vos tocamos flauta, e não dançastes; entoamos lamentações, e não chorastes." (Lc. 7:32)

A analogia é brilhante e expõe a hipocrisia religiosa. Quando João Batista veio com uma mensagem de ascetismo, jejum e severidade (o lamento), disseram: "Ele tem demônio". Quando Jesus veio celebrando a vida, comendo e bebendo com pecadores (a flauta), disseram: "Eis aí um glutão e bebedor de vinho".

A conclusão é inevitável: o problema não estava no método — fosse a austeridade de João ou a graça festiva de Jesus —, mas na dureza do coração dos ouvintes. Aquela geração não queria Deus; queria um deus que dançasse conforme a música deles. Eles rejeitavam o Reino, independentemente da forma como ele fosse apresentado, porque, no fundo, desejavam manter o controle.

Jesus encerra com uma sentença de esperança para aqueles que, apesar da confusão religiosa ao redor, conseguem discernir a verdade:

"Mas a sabedoria é justificada por todos os seus filhos." (Lc. 7:35)

Os "filhos da sabedoria" são aqueles que não tropeçam. São os que reconhecem Deus tanto na repreensão do profeta quanto na misericórdia do Messias. São aqueles que, em vez de tentarem moldar o divino às suas expectativas políticas ou pessoais, rendem-se à lógica desconcertante, porém salvadora, do Reino de Deus. Estes compreendem que o Messias não veio para cumprir caprichos humanos, mas para, através de caminhos muitas vezes inesperados, nos conduzir à verdadeira Vida.


A casa da rocha. 21 - O Reino que faz tropeçar - Zé Bruno - Meu Caro Amigo. https://www.youtube.com/live/igCdyEpAooc

Avatar de diego
há 2 dias
Matéria: Bíblia
Artigo

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