Efésios Cap. 1
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As Obras Distintivas do Pai, do Filho e do Espírito Santo
Embora as obras da Trindade sejam indivisíveis — onde um atua, todos atuam (princípio das obras ad extra) —, as Escrituras atribuem certas operações de maneira mais proeminente a uma pessoa específica. Essa apropriação nos ajuda a entender a beleza da harmonia divina, onde cada pessoa contribui de forma única para o grande propósito de Deus, tanto na criação quanto na redenção.
Deus Pai: A Fonte e o Planejador
A característica distintiva da primeira pessoa é a Paternidade. Ele é a fonte e origem de tudo o que existe.
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Paternidade Eterna: Ele é eternamente o Pai do Filho. Esse relacionamento não teve início no tempo; Jesus sempre foi o "unigênito" (monogenes), gerado eternamente pelo Pai antes da fundação do mundo.
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Paternidade Redentora: No Novo Testamento, essa paternidade torna-se pessoal para os crentes. Por meio da obra de Cristo, somos adotados na família divina.
"Pois vocês não receberam um espírito que os escravize para novamente temer, mas receberam o Espírito que os adota como filhos, por meio do qual clamamos: 'Aba, Pai'." Romanos 8:15
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A Obra do Planejamento: Na economia da salvação, o Pai é o Arquiteto. É Ele quem elege, predestina e traça o plano da redenção antes da criação do mundo Efésios 1:3-6. Ele é aquele que envia o Filho e o Espírito.
Deus Filho: O Mediador e Executor
A característica distintiva da segunda pessoa é a Filiação. Ele é o Filho eterno, gerado pelo Pai, e também o Filho encarnado na história.
- Mediação: Jesus é o agente por meio de quem todas as coisas foram criadas e por meio de quem são sustentadas.
- Execução da Redenção: Coube ao Filho a tarefa de entrar na história humana, assumir a natureza humana e realizar a obra salvífica. Foi o Filho quem morreu na cruz, não o Pai ou o Espírito. Ele comprou a Igreja com Seu sangue, ressuscitou e agora governa como Rei e Cabeça da Igreja.
"Deus o Pai [...] nos escolheu nele antes da criação do mundo." Efésios 1:4
(Enquanto o Pai escolhe, o Filho concretiza a escolha através de sua obra expiatória).
Deus Espírito Santo: O Aplicador e Consumador
A característica distintiva da terceira pessoa é a Processão. Ele procede eternamente do Pai e do Filho. Sua atuação é frequentemente descrita como o ponto de contato direto entre Deus e a criação.
- Gerador e Mantenedor da Vida: Desde Gênesis, onde o Espírito "pairava sobre as águas", até o Salmo 104, vemos o Espírito gerando e sustentando a vida biológica.
- Capacitação (Graça Comum): É o Espírito quem distribui talentos e habilidades aos seres humanos, sejam eles crentes ou não. A habilidade artística de Bezalel para construir o Tabernáculo, por exemplo, é atribuída ao preenchimento do Espírito Êxodo 35:30-33. Abraham Kuyper destaca que todo talento humano, da arte à ciência de governar, procede do Espírito.
- Aplicação da Redenção: Na salvação, o Espírito Santo aplica a obra de Cristo ao coração dos eleitos. É Ele quem convence do pecado, gera o novo nascimento (regeneração), habita no crente e realiza a santificação progressiva, moldando-nos à imagem de Cristo.
Em resumo, a teologia clássica sintetiza essa dinâmica da seguinte forma: O Pai planeja a redenção, o Filho realiza a redenção, e o Espírito Santo aplica a redenção.
5. A Glorificação: A Transformação Final e a Vitória Sobre a Morte
O quinto e último benefício da salvação, que coroa toda a obra redentora, é a Glorificação. Este é o clímax da experiência cristã, o momento em que a salvação se consuma não apenas no espírito ou na alma, mas também na estrutura física do crente.
A glorificação é o cumprimento final do propósito divino, conforme descrito na "cadeia de ouro" da redenção apresentada pelo apóstolo Paulo:
"E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou." (Romanos 8:30)
Observe que, embora a glorificação seja um evento futuro na linha do tempo humana, Paulo utiliza o tempo verbal no passado ("glorificou"), indicando a certeza absoluta desse evento na mente de Deus. Para o Criador, a glorificação dos seus eleitos é um fato tão certo quanto a justificação que já ocorreu.
A Transformação do Corpo
Atualmente, o ser humano habita em um corpo descrito biblicamente como "corpo de humilhação" ou "abatido". É uma estrutura biológica limitada, sujeita a doenças, ao envelhecimento e, principalmente, contaminada pelos efeitos do pecado. Mesmo com o espírito regenerado, o cristão ainda geme sob o peso de um corpo mortal.
A glorificação resolverá este conflito através de uma transformação sobrenatural. Quando Cristo se manifestar, seja na ressurreição dos mortos ou no arrebatamento dos vivos, este corpo corruptível será transformado.
"Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas." (Filipenses 3:21)
"Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos." (1 João 3:2)
Ter um corpo glorificado significa possuir uma natureza física semelhante à de Jesus após a ressurreição: uma existência imortal, incorruptível e perfeitamente adaptada para a eternidade.
A Vitória Definitiva Sobre a Morte
A glorificação marca a vitória final sobre o último inimigo: a morte. Conforme detalhado em 1 Coríntios 15, o corpo "animal" (natural) é semeado na morte, mas ressuscita como corpo espiritual.
"Mas, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então cumprir-se-á a palavra que está escrita: Tragada foi a morte na vitória." (1 Coríntios 15:54)
Neste estágio, não haverá mais processo de santificação, pois a perfeição terá sido alcançada. O pecado, a dor, a morte e a tentação serão coisas do passado.
Conclusão: A Verdadeira Natureza das Bênçãos Espirituais
Ao analisarmos os cinco grandes benefícios da salvação — Justificação, Regeneração, Adoção, Santificação e Glorificação — percebemos a profundidade do plano divino.
Em tempos onde muitas vertentes teológicas enfatizam desproporcionalmente a prosperidade material, a saúde física imediata ou o sucesso financeiro, o estudo da Soteriologia nos realinha com o verdadeiro propósito do Evangelho. As maiores dádivas de Deus não são temporais ou terrenas, mas sim "bênçãos espirituais nos lugares celestiais" (Efésios 1:3).
A salvação oferece o que o dinheiro não pode comprar: a paz de não ter condenação (Justificação), uma nova vida interior (Regeneração), uma família eterna e uma herança garantida (Adoção), um caráter moldado à imagem de Cristo (Santificação) e um futuro de glória imortal (Glorificação).
Os Cinco Pontos do Calvinismo (TULIP): Soberania e Eleição Incondicional
Como vimos anteriormente, os chamados "Cinco Pontos do Calvinismo" foram sistematizados no Sínodo de Dort em resposta aos questionamentos arminianos. Frequentemente lembrados pelo acrônimo em inglês TULIP (Total Depravity, Unconditional Election, Limited Atonement, Irresistible Grace, Perseverance of the Saints), esses princípios resumem a soteriologia reformada, enfatizando a soberania absoluta de Deus na salvação.
Abaixo, detalhamos cada um desses pontos conforme a perspectiva calvinista clássica:
1. Depravação Total (Total Depravity)
O ponto de partida é a condição humana pós-queda. Para os calvinistas, o pecado de Adão corrompeu a natureza humana de forma tão profunda que não restou "bem algum" capaz de conectar o homem a Deus. O ser humano está espiritualmente morto e, portanto, é totalmente incapaz de buscar a Deus ou exercer fé por conta própria.
"Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há quem entenda; não há quem busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só." (Romanos 3:10-12)
"Ele vos vivificou, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados." (Efésios 2:1)
2. Eleição Incondicional (Unconditional Election)
Se o homem é incapaz de buscar a Deus, a iniciativa da salvação deve partir inteiramente do Criador. A doutrina da Eleição Incondicional ensina que, antes da fundação do mundo, Deus escolheu soberanamente um grupo específico de pessoas para serem salvas.
Esta escolha não foi baseada em qualquer mérito humano ou na previsão de que essas pessoas teriam fé (pré-ciência de ações), mas sim fundamentada unicamente na vontade soberana e no "beneplácito" de Deus.
Os calvinistas respondem à acusação de injustiça divina argumentando que, como toda a humanidade já estava condenada pelo pecado, Deus seria justo se deixasse todos perecerem. Ao escolher salvar alguns, Ele exerce misericórdia, sem cometer injustiça contra os demais.
"Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade." (Efésios 1:4-5)
"Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer." (Romanos 9:18)
3. Expiação Limitada (Limited Atonement)
Este é frequentemente o ponto mais controverso. A lógica calvinista dita que, se Deus escolheu apenas um grupo para salvar (os eleitos), então a morte de Cristo na cruz teve um propósito específico: garantir a redenção desse grupo.
Assim, Jesus não teria morrido para salvar a humanidade inteira indiscriminadamente (o que implicaria, na visão deles, uma falha caso alguém por quem Cristo morreu fosse para o inferno), mas morreu eficazmente pelas Suas "ovelhas".
"Eu sou o bom pastor; o bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas." (João 10:11)
"E dará à luz um filho e chamarás o seu nome JESUS; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados." (Mateus 1:21)
4. Graça Irresistível (Irresistible Grace)
Uma vez que Deus elegeu alguém e Cristo morreu por essa pessoa, o Espírito Santo aplica essa salvação de maneira eficaz. A Graça Irresistível ensina que, quando Deus chama um eleito para a salvação, essa pessoa não pode resistir a esse chamado.
Diferente da oferta externa do Evangelho (que muitos rejeitam), o chamado interno do Espírito vence a resistência do coração humano, regenerando a vontade do pecador para que ele creia voluntariamente. Não se trata de Deus arrastar alguém contra a sua vontade, mas de Deus mudar o coração para que a pessoa queira vir a Ele.
"Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora." (João 6:37)
Os calvinistas citam o exemplo de Lídia em Atos, onde é dito que o Senhor "abriu o coração" dela para crer.
5. Perseverança dos Santos (Perseverance of the Saints)
Por fim, a segurança da salvação. O calvinismo defende que aqueles que foram verdadeiramente eleitos, chamados e justificados jamais perderão a salvação. Eles perseverarão na fé até o fim.
O lema "uma vez salvo, salvo para sempre" se aplica aqui, com a ressalva de que a "salvação" referida é a verdadeira regeneração. Se alguém professa a fé e depois a abandona definitivamente, a interpretação calvinista é que tal pessoa nunca foi verdadeiramente salva ou regenerada (1 João 2:19).
"E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão." (João 10:28)
Representantes Notáveis:
A tradição calvinista é sustentada por nomes históricos e contemporâneos como Jonathan Edwards, Charles Spurgeon, George Whitefield, e, mais recentemente, John Piper, Tim Keller e, no Brasil, Augustus Nicodemos e Hernandes Dias Lopes.
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A Natureza e o Propósito dos Decretos de Deus
A teologia cristã clássica, ao abordar a soberania divina, fundamenta-se no conceito dos "Decretos de Deus". Para compreender a governança do universo e a história da redenção, é imprescindível entender que nada ocorre por acaso ou por improvisação divina. O termo teológico "decreto" refere-se ao plano eterno, imutável e sábio de Deus, pelo qual Ele, para a Sua própria glória, preordenou tudo o que acontece.
Ao contrário da perspectiva humana, onde planos são feitos e frequentemente alterados conforme as circunstâncias mudam, o decreto divino é estabelecido na eternidade passada. Deus não reage aos eventos da história; Ele é o autor da história. Antes que houvesse tempo, matéria ou seres criados, Deus já havia determinado o curso de todas as coisas. Isso implica que o conhecimento de Deus não é meramente uma "previsão" do que aconteceria se certas condições fossem atendidas (ciência média), mas sim um conhecimento fundamentado naquilo que Ele mesmo determinou que existiria.
"Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade: que eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho subsistirá, e farei toda a minha vontade." (Isaías 46:9-10)
Características dos Decretos Divinos
A natureza desses decretos revela atributos essenciais do próprio Criador. Eles são descritos como:
- Eternos: Deus não cria novos planos à medida que o tempo avança. Seus decretos não são decisões tomadas no tempo, mas antes da fundação do mundo.
- Imutáveis: Como Deus é perfeito em sabedoria e conhecimento, não há necessidade de alterar Seus planos. Nada pode frustrar a vontade decretiva de Deus, nem surpreendê-Lo.
- Sábios e Santos: Embora nem sempre compreendamos as razões por trás dos eventos históricos ou pessoais, a teologia afirma que o decreto é guiado pela infinita sabedoria e santidade de Deus. Não há capricho ou arbitrariedade; há um propósito santo em cada determinação.
- Livres: Deus não foi coagido por nenhuma força externa a decretar o que decretou. Sua determinação nasce puramente do conselho da Sua própria vontade.
O Propósito Final: A Glória de Deus
A pergunta natural que surge é: "Qual é o objetivo final de tudo isso?". A resposta bíblica consistente é que o fim último de todos os decretos de Deus é a manifestação da Sua própria glória. A criação do universo, a providência sobre a história humana e a redenção de um povo escolhido convergem para este ponto central.
"Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade; Com o fim de sermos para louvor da sua glória, nós os que primeiro esperamos em Cristo." (Efésios 1:11-12)
Entender o propósito doxológico (voltado para a glória) dos decretos muda a perspectiva sobre a existência. O universo não é centrado no homem (antropocêntrico), mas centrado em Deus (teocêntrico). A criação existe para espelhar os atributos divinos, e a história é o palco onde a justiça, a misericórdia, o poder e a graça de Deus são exibidos.
Portanto, ao estudar os decretos, não estamos lidando com um fatalismo frio ou cego, como o destino na mitologia grega, mas com o plano pessoal e amoroso de um Pai que governa todas as coisas com sabedoria perfeita. Este fundamento é vital para que possamos avançar para questões mais complexas, como a abrangência desse controle sobre as nações e os detalhes da vida cotidiana.
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