Efésios Cap. 2
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A Abolição das Ordenanças e a Verdadeira Lei de Cristo
A teologia paulina alcança seu ponto culminante quanto à relação com a lei em textos que tratam explicitamente da validade das normas antigas para o povo da Nova Aliança. Se Romanos e 2 Coríntios estabelecem a morte para a lei e a superioridade do Espírito, as cartas aos Efésios, Colossenses e 1 Coríntios detalham como essa descontinuidade se aplica na prática.
O Fim da Lei como Código de Regras
Em Efésios 2:15, encontramos uma declaração definitiva sobre o status legal da Lei Mosaica:
"[Cristo] aboliu, na sua carne, a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse em si mesmo um novo homem, fazendo a paz." (Efésios 2:15)
A palavra grega utilizada para "aboliu" é katargeo, que significa tornar ineficaz, invalidar ou retirar a força. O que foi invalidado? A "lei dos mandamentos na forma de ordenanças" (dogma). Este termo refere-se a decretos, regras formalizadas e prescrições legais.
Cristo não aboliu a moralidade ou a verdade de Deus, mas invalidou a Lei Mosaica como um sistema normativo de decretos. Ela deixou de ser o documento regulador (vade mecum) da vida do povo de Deus. O muro de separação que a lei erguia entre judeus e gentios foi derrubado, não pela universalização da Lei de Moisés, mas pela sua abolição como código de ordenanças, criando um novo povo em Cristo.
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As Três Dimensões da Graça Divina: Comum, Salvadora e Justificadora
A teologia cristã frequentemente busca categorizar a operação da graça para facilitar a compreensão da sua vastidão. Influenciados por pensadores como John Wesley, que distinguia a graça em preveniente, justificadora e santificadora, podemos observar no texto bíblico três dimensões fundamentais de como Deus alcança o ser humano: a Graça Comum, a Graça Salvadora e a Graça Justificadora.
1. A Graça Comum
Esta é a manifestação mais abrangente da bondade de Deus, estendida a toda a humanidade, independentemente de credo ou comportamento moral. É o favor divino que sustenta a existência do universo e a vida biológica. O apóstolo Paulo discursa sobre isso em Atenas:
"Nem é servido por mãos humanas, como se precisasse de alguma coisa, pois ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais." (Atos 17:25)
A Graça Comum é a razão pela qual o sol nasce sobre justos e injustos. É ela que explica livramentos inexplicáveis em acidentes, a saúde cotidiana e a provisão básica, mesmo para aqueles que nunca entraram em um templo ou que vivem em iniquidade. É o primeiro estágio do amor de Deus, comunicando-se através da criação e da preservação da vida, sinalizando que há um Criador cuidando da criatura.
2. A Graça Salvadora
Se a Graça Comum sustenta a vida física, a Graça Salvadora visa a redenção da alma. Embora disponível a todos, ela requer uma resposta individual. A carta a Tito descreve sua manifestação:
"Porque a graça de Deus se manifestou trazendo salvação a todos." (Tito 2:11)
Há uma distinção crucial aqui: a graça se manifestou a todos, mas sua eficácia salvífica opera naqueles que a recebem. Conforme João 1:11-12, a filiação divina é concedida "a todos quantos o receberam". Esta graça opera em conjunto com o Espírito Santo, que convence o homem "do pecado, da justiça e do juízo" (João 16:8). É o momento em que o indivíduo deixa de ser apenas uma criatura sustentada pela Graça Comum e passa a crer em Cristo, aceitando a oferta de salvação.
3. A Graça Justificadora
Este é o aspecto jurídico e transformador da graça. A justificação não é apenas um perdão sentimental; é um ato legal divino.
"Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus." (Romanos 3:24)
A justificação pode ser entendida como o ato de declarar justo aquele que é culpado. Diferente da inocência (que implica não ter cometido o crime), a justificação reconhece a culpa do réu, mas altera o seu status diante do Juiz devido ao pagamento efetuado por um substituto.
Pela Graça Justificadora, o status do ser humano muda radicalmente. Ele deixa de ser "estrangeiro e peregrino" para se tornar "concidadão dos santos e membro da família de Deus" (Efésios 2:19). Aquele que foi alcançado por esta graça não é alguém que nunca falhou, mas é um "pecador justificado". As dívidas passadas são canceladas, e uma nova identidade é estabelecida. Onde abundou o pecado, a graça superabundou, não para dar liberdade para pecar, mas para dar poder para viver uma nova vida.
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3. Os 5 Grandes Benefícios Espirituais da Salvação: Da Justificação à Glorificação (Rm. 8:30; Ef. 1:3)
2. A Regeneração: O Significado de Nascer de Novo e a Simbologia do Batismo
Enquanto a justificação trata da posição legal do indivíduo diante de Deus (livre de condenação), o segundo benefício da salvação, a Regeneração, lida com a natureza e a vida interior do ser humano. A justificação, por si só, não garante a transformação moral imediata do caráter; é necessário que ocorra um "novo nascimento" para que virtudes espirituais possam ser desenvolvidas.
A necessidade da regeneração decorre da condição decaída da humanidade. Desde o pecado original, a consequência primária para o ser humano foi a morte espiritual. Conforme descrito em Romanos 5:12, a morte passou a todos os homens por meio do pecado. Portanto, natural e espiritualmente, a humanidade encontra-se morta em seus delitos.
A regeneração é, portanto, o ato de Deus vivificar aquele que estava morto, concedendo-lhe uma nova vida. Esta é a aplicação prática da ressurreição de Cristo na vida do crente: Ele morreu para garantir o perdão, mas ressuscitou para garantir a nossa justificação e vivificação.
O Conceito de "Nascer de Cima" (Anōthen)
O episódio central para a compreensão deste tema é o diálogo entre Jesus e Nicodemos, registrado no Evangelho de João, capítulo 3. Nicodemos, um fariseu e príncipe dos judeus, reconhece Jesus como um mestre vindo de Deus. A resposta de Jesus, contudo, vai direto ao ponto central da existência humana:
Para compreender a profundidade desta afirmação, é essencial analisar o termo grego utilizado pelo apóstolo João: anōthen. Segundo os léxicos gregos, esta palavra possui um significado que vai além de simplesmente "de novo" ou "novamente"; ela significa literalmente "de cima", "de um lugar mais alto", ou "de Deus".
Portanto, a regeneração não é uma reencarnação, nem apenas uma segunda oportunidade de viver a mesma vida, mas sim a aquisição de uma nova fonte de vida. Enquanto o nascimento biológico provém dos pais terrenos, o novo nascimento provém de Deus. Aquele que é regenerado passa a ter uma origem celestial. Isso explica a ênfase das Escrituras em afirmar que "aquele que é nascido de Deus não vive na prática (continua) do pecado" (1 João 3:9), pois agora possui uma nova natureza que não se entrega à corrupção do mundo.
A Universalidade da Ignorância Espiritual
O Evangelho de João constrói uma narrativa interessante ao contrastar Nicodemos (capítulo 3) com a Mulher Samaritana (capítulo 4). As diferenças são gritantes:
Apesar das disparidades sociais e morais, ambos compartilham uma característica comum: a ignorância espiritual. Nicodemos questiona como um homem velho pode voltar ao ventre materno; a Samaritana questiona como Jesus tiraria água viva sem ter um balde. O ensino bíblico aqui é claro: seja rico ou pobre, religioso ou imoral, todo ser humano sem Cristo é espiritualmente morto e necessita nascer de cima.
A Simbologia do Batismo e o Mar Vermelho
A regeneração e a nova vida são frequentemente associadas ao batismo. Em Marcos 16:16, a fé e o batismo aparecem interligados na promessa de salvação. Para entender a função simbólica do batismo na regeneração, o apóstolo Paulo utiliza a tipologia da travessia do Mar Vermelho em 1 Coríntios 10:2, afirmando que "todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar".
A geografia bíblica do Êxodo revela um detalhe crucial: Israel, ao chegar em Etã, já estava na entrada do deserto e poderia ter seguido viagem. No entanto, Deus ordenou que voltassem e acampassem diante do mar (Êxodo 14). O propósito divino era estratégico. Se o povo entrasse diretamente no deserto, o exército de Faraó poderia persegui-los e alcançá-los.
Ao fazer o povo atravessar o mar, Deus colocou uma barreira intransponível entre Israel e o Egito. O mar que se abriu para o povo de Deus se fechou sobre os egípcios. Assim, a travessia serviu para aniquilar o perseguidor e impedir o retorno à escravidão.
Espiritualmente, o batismo cumpre esse papel. Quando cremos, somos libertos, mas o "mundo" (tipificado pelo Egito e Faraó) tenta nos perseguir. O batismo representa o rompimento definitivo com o velho homem e com o sistema mundano.
Assim como o Mar Vermelho separou Israel do Egito, o batismo marca a separação do crente em relação ao mundo, inaugurando uma nova realidade de vida.
Água e Espírito: Os Meios da Regeneração
Jesus afirmou ser necessário nascer "da água e do Espírito" (João 3:5). Teologicamente, estes elementos representam:
A regeneração é, portanto, o milagre interior onde a Palavra de Deus e o Espírito Santo produzem uma nova criatura, apta a viver uma vida que agrada ao Criador.
4. Soteriologia em Foco: O Grande Debate entre Calvinismo e Arminianismo e a Doutrina da Salvação (Rm. 9; Ef. 1; Jo. 10)
Os Cinco Pontos do Calvinismo (TULIP): Soberania e Eleição Incondicional
Como vimos anteriormente, os chamados "Cinco Pontos do Calvinismo" foram sistematizados no Sínodo de Dort em resposta aos questionamentos arminianos. Frequentemente lembrados pelo acrônimo em inglês TULIP (Total Depravity, Unconditional Election, Limited Atonement, Irresistible Grace, Perseverance of the Saints), esses princípios resumem a soteriologia reformada, enfatizando a soberania absoluta de Deus na salvação.
Abaixo, detalhamos cada um desses pontos conforme a perspectiva calvinista clássica:
1. Depravação Total (Total Depravity)
O ponto de partida é a condição humana pós-queda. Para os calvinistas, o pecado de Adão corrompeu a natureza humana de forma tão profunda que não restou "bem algum" capaz de conectar o homem a Deus. O ser humano está espiritualmente morto e, portanto, é totalmente incapaz de buscar a Deus ou exercer fé por conta própria.
2. Eleição Incondicional (Unconditional Election)
Se o homem é incapaz de buscar a Deus, a iniciativa da salvação deve partir inteiramente do Criador. A doutrina da Eleição Incondicional ensina que, antes da fundação do mundo, Deus escolheu soberanamente um grupo específico de pessoas para serem salvas.
Esta escolha não foi baseada em qualquer mérito humano ou na previsão de que essas pessoas teriam fé (pré-ciência de ações), mas sim fundamentada unicamente na vontade soberana e no "beneplácito" de Deus.
Os calvinistas respondem à acusação de injustiça divina argumentando que, como toda a humanidade já estava condenada pelo pecado, Deus seria justo se deixasse todos perecerem. Ao escolher salvar alguns, Ele exerce misericórdia, sem cometer injustiça contra os demais.
3. Expiação Limitada (Limited Atonement)
Este é frequentemente o ponto mais controverso. A lógica calvinista dita que, se Deus escolheu apenas um grupo para salvar (os eleitos), então a morte de Cristo na cruz teve um propósito específico: garantir a redenção desse grupo.
Assim, Jesus não teria morrido para salvar a humanidade inteira indiscriminadamente (o que implicaria, na visão deles, uma falha caso alguém por quem Cristo morreu fosse para o inferno), mas morreu eficazmente pelas Suas "ovelhas".
4. Graça Irresistível (Irresistible Grace)
Uma vez que Deus elegeu alguém e Cristo morreu por essa pessoa, o Espírito Santo aplica essa salvação de maneira eficaz. A Graça Irresistível ensina que, quando Deus chama um eleito para a salvação, essa pessoa não pode resistir a esse chamado.
Diferente da oferta externa do Evangelho (que muitos rejeitam), o chamado interno do Espírito vence a resistência do coração humano, regenerando a vontade do pecador para que ele creia voluntariamente. Não se trata de Deus arrastar alguém contra a sua vontade, mas de Deus mudar o coração para que a pessoa queira vir a Ele.
Os calvinistas citam o exemplo de Lídia em Atos, onde é dito que o Senhor "abriu o coração" dela para crer.
5. Perseverança dos Santos (Perseverance of the Saints)
Por fim, a segurança da salvação. O calvinismo defende que aqueles que foram verdadeiramente eleitos, chamados e justificados jamais perderão a salvação. Eles perseverarão na fé até o fim.
O lema "uma vez salvo, salvo para sempre" se aplica aqui, com a ressalva de que a "salvação" referida é a verdadeira regeneração. Se alguém professa a fé e depois a abandona definitivamente, a interpretação calvinista é que tal pessoa nunca foi verdadeiramente salva ou regenerada (1 João 2:19).
Representantes Notáveis:
A tradição calvinista é sustentada por nomes históricos e contemporâneos como Jonathan Edwards, Charles Spurgeon, George Whitefield, e, mais recentemente, John Piper, Tim Keller e, no Brasil, Augustus Nicodemos e Hernandes Dias Lopes.
4. Da Morte para a Vida: A Voz que Ressuscita e a Autoridade do Juízo Final (João 5:25-29)
O Poder da Voz de Cristo no "Agora": A Ressurreição Espiritual
Ao prosseguir em Seu discurso, Jesus introduz uma distinção temporal crucial que define a natureza da Sua obra salvífica no presente. Ele afirma solenemente a chegada de um tempo novo, marcado pela intervenção direta de Deus na história humana.
A expressão "vem a hora, e já chegou" indica uma realidade escatológica inaugurada. Diferente da ressurreição física que ocorrerá no fim dos tempos, a ressurreição descrita neste versículo é um evento imediato e espiritual. Os "mortos" mencionados aqui não são aqueles que jazem em sepulcros físicos, mas sim a vasta multidão de seres humanos que, embora biologicamente vivos, estão espiritualmente mortos em seus delitos e pecados.
Esta condição de morte espiritual é absoluta. O apóstolo Paulo, em sua carta aos Efésios, corrobora este ensino ao descrever o estado natural do homem antes da conversão:
Neste contexto, o milagre da salvação é equiparado a uma ressurreição. A conversão não é o resultado de uma reforma moral, de uma educação superior ou de um esforço religioso humano; é a infusão de vida onde antes havia apenas morte. O instrumento para essa operação milagrosa é a "voz do Filho de Deus".
O ato de "ouvir" a voz do Filho, conforme descrito no texto, transcende a mera percepção auditiva das ondas sonoras. Trata-se de um chamado eficaz e criativo. Da mesma forma que Deus disse "Haja luz" na criação e a luz passou a existir, Cristo fala aos corações mortos espiritualmente e eles despertam para a vida. É uma voz que carrega em si o poder de gerar a realidade que ordena. Aqueles que "ouvem" — no sentido bíblico de compreender e acolher a mensagem do Evangelho — recebem instantaneamente a vida eterna.
A fonte desse poder vivificante reside na natureza do próprio Cristo. Jesus explica a origem da Sua autoridade e capacidade de dar vida:
Esta declaração aponta para a "asseidade" de Deus — a qualidade de ter vida em Si mesmo, não derivada e independente. O Pai concedeu ao Filho, em Sua encarnação e missão messiânica, a prerrogativa de possuir e distribuir essa vida autônoma. Portanto, a voz de Jesus não é apenas um convite; é o veículo da própria vida divina, capaz de transformar a existência humana "agora", no tempo presente, transportando o indivíduo de um estado de condenação para um estado de justificação e vida.