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Atos Cap. 7

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Capítulo 7

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Atos

Versão: AS21
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Diego Vieira Dias em 06/01/2026

14. ​A Defesa de Estêvão: Quando a Religião se Torna Resistência ao Espírito Santo (Atos 6:8 – 8:1)

A Narrativa Histórica: A Dualidade entre Aliança e Rebelião

Ao receber a palavra para sua defesa, Estêvão não responde diretamente às acusações de blasfêmia com negativas simples. Em vez disso, ele inicia uma magistral retrospectiva histórica, dirigindo-se aos acusadores como "irmãos e pais". Essa abordagem demonstra não apenas seu profundo conhecimento da Torá, mas também estabelece uma base comum: todos ali compartilham a mesma herança e a mesma aliança.

No entanto, a narrativa de Estêvão carrega um subtexto teológico perigoso para o Sinédrio. Ele constrói a história de Israel evidenciando um padrão cíclico de comportamento: a iniciativa graciosa de Deus em levantar libertadores e a resposta consistente do povo em rejeitá-los.

A Aliança com Abraão e a Providência sobre José

O discurso começa com Abraão, o pai da fé. Estêvão destaca que o "Deus da glória" apareceu a Abraão ainda na Mesopotâmia, fora da Terra Prometida, sublinhando que a presença de Deus não está confinada a um território geográfico específico. A promessa da terra e a aliança da circuncisão foram dadas antes que houvesse templo ou lei codificada.

A narrativa avança para os doze patriarcas, filhos de Jacó. Aqui, Estêvão introduz o primeiro grande exemplo de rejeição a um escolhido de Deus: José.

"Os patriarcas, invejosos de José, venderam-no para o Egito; mas Deus estava com ele e o livrou de todas as suas aflições..." (Atos 7:9-10)

O ponto central de Estêvão é a ironia divina: os irmãos rejeitaram José, vendendo-o como escravo, mas foi justamente através de José — aquele que eles desprezaram — que Deus proveu sustento e salvação para a família durante a fome. Aquele que foi resistido tornou-se a pedra angular da sobrevivência do povo.

Moisés: O Libertador Rejeitado

A maior parte da argumentação de Estêvão concentra-se na figura de Moisés. A escolha é estratégica, visto que ele fora acusado de blasfemar contra Moisés. Estêvão descreve o nascimento de Moisés em um tempo de opressão, sua educação na sabedoria egípcia e, crucialmente, sua primeira tentativa de defender seus irmãos hebreus.

Quando Moisés tentou intervir em uma briga entre dois israelitas, sua liderança foi questionada imediatamente:

"Mas o que agredia o seu próximo o repeliu, dizendo: Quem te constituiu autoridade e juiz sobre nós?" (Atos 7:27)

Estêvão enfatiza que Moisés foi rejeitado por seu próprio povo antes de fugir para Midiã. Quarenta anos depois, no episódio da sarça ardente, Deus envia esse mesmo homem de volta ao Egito. A retórica de Estêvão torna-se afiada:

  • O homem que o povo rejeitou ("Quem te constituiu chefe?"), Deus enviou como chefe e libertador.
  • Moisés operou prodígios e sinais, guiando o povo pelo deserto.
  • Moisés prometeu que Deus levantaria outro profeta semelhante a ele (uma alusão clara a Cristo).

A Inclinação à Idolatria

Apesar da libertação, a "Igreja no deserto" (a congregação de Israel) não permaneceu fiel. Estêvão recorda que, em seus corações, eles "voltaram para o Egito". A rejeição à liderança visível de Moisés (quando este estava no Monte Sinai) resultou na fabricação do Bezerro de Ouro.

"Fizeram um bezerro naqueles dias, ofereceram sacrifício ao ídolo e se alegravam com a obra das suas mãos. Mas Deus se afastou e os entregou ao culto do exército do céu..." (Atos 7:41-42)

Estêvão conecta esse evento antigo ao exílio na Babilônia, citando os profetas para demonstrar que a idolatria — seja a Moloque ou a outros deuses estelares — foi a causa do juízo divino.
O argumento implícito é devastador: historicamente, os verdadeiros "blasfemadores" contra Moisés e contra Deus não foram os profetas perseguidos, mas os próprios antepassados dos que agora julgavam Estêvão. Havia duas linhagens claras na história de Israel: a linhagem da providência divina (Abraão, José, Moisés) e a linhagem da rebelião (os patriarcas invejosos, os hebreus que rejeitaram Moisés, os adoradores do bezerro). Estêvão estava preparando o terreno para identificar em qual dessas linhagens o Sinédrio se encontrava.

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1 Então o sumo sacerdote perguntou: Isso tudo é verdade?

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2 Estêvão respondeu: Irmãos e pais, ouvi. O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão, quando ele estava na Mesopotâmia, antes de habitar em Harã, 3 e disse-lhe: Sai da tua terra, e do meio dos teus parentes, e vai para a terra que eu te mostrarei.

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4 Então ele saiu da terra dos caldeus e foi habitar em Harã. Depois que seu pai morreu, Deus o trouxe dali para esta terra em que agora habitais.

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5 E aqui não lhe deu herança, nem sequer o espaço de um pé. Mas prometeu que lhe daria a terra como posse e, depois dele, à sua descendência, quando ele ainda não tinha nenhum filho.

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6 Pois Deus afirmou que a descendência dele seria peregrina em terra alheia e que a escravizariam e maltratariam por quatrocentos anos.

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7 Mas eu punirei a nação que os tiver escravizado, disse Deus; depois disso, eles sairão e me cultuarão neste lugar.

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8 E deu-lhe a aliança da circuncisão; assim, Abraão gerou Isaque e o circuncidou ao oitavo dia; e Isaque gerou Jacó, e Jacó gerou os doze patriarcas.

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9 Os patriarcas, movidos por inveja, venderam José para o Egito. Mas Deus estava com ele, 10 livrou-o de todas as tribulações e deu-lhe graça e sabedoria perante o faraó, rei do Egito, que o constituiu governador sobre o Egito e sobre toda a sua corte.

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11 Houve, então, fome e grande tribulação em todo o Egito e em Canaã; e nossos pais não achavam alimento.

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12 Mas, tendo ouvido que no Egito havia trigo, Jacó enviou nossos pais parapela primeira vez.

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13 E, na segunda vez, José se revelou a seus irmãos, e a sua família foi conhecida pelo faraó.

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14 Então José mandou chamar seu pai Jacó e todos os seus parentes, setenta e cinco pessoas.

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15 E Jacó desceu ao Egito, onde morreu, ele e nossos pais.

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16 E foram transportados para Siquém e colocados na sepultura que Abraão havia comprado, por certo preço em prata, dos filhos de Hamor, em Siquém.

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17 Enquanto se aproximava o tempo da promessa que Deus fizera a Abraão, o povo crescia e se multiplicava no Egito.

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18 Até que se levantou ali outro rei, que não conhecia José.

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19 Usando de astúcia contra o nosso povo, maltratou nossos pais, levando-os a abandonar seus filhos, para que não vivessem.

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20 Naquela época, nasceu Moisés, que era belo aos olhos de Deus, e foi criado durante três meses na casa de seu pai.

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21 Depois de ser abandonado, a filha do faraó o recolheu e o criou como seu filho.

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22 Assim, Moisés foi instruído em toda a sabedoria dos egípcios e era poderoso em palavras e obras.

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23 Quando completou quarenta anos, desejou visitar seus irmãos, os israelitas.

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24 E vendo um deles sofrer injustamente, defendeu-o e vingou o oprimido, matando o egípcio.

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25 Ele pensava que seus irmãos entenderiam que por meio dele Deus lhes daria a liberdade; mas eles não entenderam.

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26 No dia seguinte, aproximou-se de alguns deles quando brigavam, e quis pacificá-los, dizendo: Homens, sois irmãos; por que maltratais um ao outro?

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27 Mas o que feria o seu próximo o empurrou, dizendo: Quem te nomeou líder e juiz sobre nós?

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28 Por acaso queres matar-me, como ontem mataste o egípcio?

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29 Diante dessa palavra, Moisés fugiu e tornou-se peregrino na terra de Midiã, onde gerou dois filhos.

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30 Passados mais quarenta anos, apareceu-lhe um anjo no deserto do monte Sinai, numa chama de fogo em uma sarça.

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31 Vendo isso, Moisés admirou-se com a visão e, aproximando-se para observar, ouviu a voz do Senhor: 32 Eu sou o Deus de teus pais, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. Moisés ficou trêmulo e não ousou olhar.

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33 Então o Senhor lhe disse: Tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa.

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34 Vi com atenção a aflição do meu povo no Egito, ouvi os seus gemidos e desci para livrá-lo. Agora, pois, vem, e eu te enviarei ao Egito.

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35 A este Moisés a quem eles rejeitaram, dizendo: Quem te nomeou líder e juiz?, Deus enviou como líder e libertador, pela mão do anjo que lhe aparecera na sarça.

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36 Foi este que os conduziu para fora, realizando feitos extraordinários e sinais na terra do Egito, no mar Vermelho e no deserto por quarenta anos.

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37 Este é o Moisés que disse aos israelitas: Deus vos levantará dentre vossos irmãos um profeta como eu.

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38 Este é o que esteve na congregação no deserto, com o anjo que lhe falava no monte Sinai, e com nossos pais, e que recebeu palavras vivas para transmiti-las a vós.

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39 Foi a ele que os nossos pais não quiseram obedecer, pelo contrário, rejeitaram-no e, na verdade, desejaram voltar para o Egito, 40 pedindo a Arão: Faze-nos deuses que possam ir à nossa frente, porque não sabemos o que aconteceu a esse Moisés que nos tirou da terra do Egito.

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41 Naqueles dias, eles fizeram um bezerro, ofereceram sacrifício ao ídolo e o festejaram como obra das suas mãos.

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42 Mas Deus se afastou deles e os entregou ao culto dos astros do céu, como está escrito no livro dos profetas: Foi a mim que oferecestes sacrifícios e ofertas por quarenta anos no deserto, ó casa de Israel?

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43 Antes, carregastes o tabernáculo de Moloque e a estrela do deus Renfã, figuras que fizestes para adorá-las. Assim, eu vos exilarei para além da Babilônia.

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44 O tabernáculo do testemunho estava entre os nossos pais no deserto, como ordenara aquele que disse a Moisés que o fizesse segundo o modelo que tinha visto.

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45 Tendo-o recebido, nossos pais o levaram sob a direção de Josué, quando tomaram posse da terra das nações que Deus expulsou da presença dos nossos pais, até os dias de Davi.

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46 Este recebeu o favor da parte de Deus e pediu que lhe fosse concedido edificar uma habitação para o Deus de Jacó.

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47 Entretanto, foi Salomão quem lhe construiu uma casa.

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48 Mas o Altíssimo não habita em templos feitos por mãos humanas, como diz o profeta: 49 O céu é meu trono, e a terra, o estrado dos meus pés. Que casa me edificareis, diz o Senhor, ou qual o lugar do meu repouso?
Versículo 48
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Diego Vieira Dias em 15/01/2026

Do Tabernáculo ao Templo: A Compreensão da Presença Divina

Um dos pontos centrais da acusação contra Estêvão era a suposta blasfêmia contra o "Lugar Santo", o Templo de Jerusalém. Para os judeus da época, o Templo não era apenas um centro de culto, mas o símbolo máximo da identidade nacional e a garantia da presença de Deus entre eles. Em sua defesa, Estêvão desconstrói essa teologia geográfica, demonstrando que a presença divina nunca esteve limitada a uma estrutura física imutável.

Ele recorda o "Tabernáculo do Testemunho", a tenda sagrada que acompanhou o povo durante a peregrinação no deserto. Este santuário móvel foi construído "segundo o modelo" que Deus revelara a Moisés, simbolizando um Deus que caminha com Seu povo, dinâmico e presente nas adversidades. O Tabernáculo entrou na Terra Prometida sob a liderança de Josué e permaneceu como o centro de adoração até os dias de Davi.

Davi, o homem segundo o coração de Deus, desejou ardentemente edificar uma casa permanente para o Senhor. No entanto, a construção coube a seu filho, Salomão. Foi neste ponto que a história de Israel sofreu uma inflexão teológica perigosa: a transição de um Deus que se move com o povo (Tabernáculo) para a crença em um Deus contido em uma edificação estática (Templo).
Estêvão desfere então o golpe fatal na idolatria institucionalizada de seus ouvintes, citando os próprios profetas para corrigir a visão distorcida que tinham sobre a habitação divina:

"Entretanto, o Altíssimo não habita em casas feitas por mãos humanas; como diz o profeta: O céu é o meu trono, e a terra o estrado dos meus pés. Que casa me edificareis? diz o Senhor; ou qual é o lugar do meu repouso? Não fez, porventura, a minha mão todas estas coisas?" (Atos 7:48-50)

Ao invocar essa passagem (Isaías 66:1-2), Estêvão argumenta que Deus é o Criador do universo e não pode ser domesticado ou confinado por paredes de pedra. Ao absolutizar o Templo, os líderes religiosos haviam reduzido o Deus de Israel ao nível das divindades pagãs do Antigo Oriente Próximo, que eram "presas" em seus santuários locais.

A ironia da defesa de Estêvão é cortante: ao tentarem proteger o Templo físico, os líderes estavam, na verdade, limitando a glória de Deus. Eles acusavam Estêvão de blasfêmia, mas eram eles que possuíam uma visão apequenada do Todo-Poderoso. Deus não dependia daquele edifício para existir ou agir; Ele é o Senhor dos Céus e da Terra.

Essa compreensão preparava o caminho para a revelação de que o verdadeiro "Templo" passaria a ser, em Cristo e posteriormente na Igreja, o próprio ser humano habitado pelo Espírito, e não mais uma construção de alvenaria.

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50 Não foi a minha mão que fez todas essas coisas?

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51 Homens teimosos e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo. Como fizeram os vossos pais, assim também fazeis.
Versículo 51
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Diego Vieira Dias em 15/01/2026

O Confronto Final e o Martírio: A Religião que Desemboca no Ódio

Após estabelecer a base histórica e teológica, o discurso de Estêvão sofre uma mudança abrupta e dramática. Ele deixa de ser o réu que explica a história de Israel para assumir a posição de um profeta que denuncia o pecado presente. A narrativa, que até então era uma recitação de fatos aceitos, transforma-se em uma acusação frontal contra a liderança religiosa de Jerusalém.

Estêvão utiliza uma linguagem que ecoa os antigos profetas, chamando seus acusadores de "homens de dura cerviz" (teimosos) e "incircuncisos de coração e de ouvidos". A acusação central é devastadora: assim como seus antepassados resistiram a José e a Moisés, o Sinédrio agora resistia ativamente ao Espírito Santo.

"Vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim como fizeram vossos pais, também vós o fazeis. Qual dos profetas vossos pais não perseguiram? Eles mataram os que anteriormente anunciavam a vinda do Justo, do qual vós agora vos tornastes traidores e assassinos; vós que recebestes a lei por ministério de anjos, e não a guardastes." (Atos 7:51-53)

A ironia atinge seu ápice: os guardiões da Lei tornaram-se os transgressores da Lei; os que aguardavam o Messias tornaram-se seus assassinos. Estêvão conecta a linhagem da rebelião histórica diretamente àqueles homens, identificando-os não como herdeiros da promessa, mas como herdeiros da resistência a Deus.

A Visão da Glória e a Fúria Religiosa

A reação do conselho foi visceral. O texto descreve que eles "rangiam os dentes" de raiva, uma expressão de ódio incontrolável. Em contraste absoluto com essa fúria terrena, Estêvão é arrebatado em uma experiência espiritual sublime. Cheio do Espírito Santo, ele fita os olhos no céu e vê a glória de Deus e Jesus.

Um detalhe teológico crucial nesta visão é a posição de Cristo. Estêvão declara:

"Eis que vejo os céus abertos, e o Filho do homem, que está em pé à mão direita de Deus." (Atos 7:56)

Para o Sinédrio, ouvir que o homem que eles haviam condenado e entregue aos romanos para ser crucificado estava agora na posição de honra e autoridade divina foi insuportável. Gritando e tapando os ouvidos — um gesto ritual para não ouvir blasfêmias — eles abandonaram qualquer pretensão de processo legal. O julgamento dissolveu-se em um linchamento.

O Apedrejamento e a Oração Final

Estêvão foi arrastado para fora da cidade e apedrejado. A execução não seguiu o protocolo romano formal, mas assemelhou-se a um ato de fúria coletiva sancionado pela omissão das autoridades e inflamado pelo zelo religioso. Neste cenário de brutalidade, a "religião" — entendida aqui como o sistema de ritos vazio de Deus — revela sua face mais sombria: quando confrontada com a Verdade que não pode refutar, ela recorre à eliminação do mensageiro.

Mesmo sob a chuva de pedras, Estêvão reflete perfeitamente o caráter de seu Mestre. Suas últimas palavras são ecos diretos de Cristo na cruz: a entrega de seu espírito a Jesus e, de joelhos, um clamor por misericórdia para com seus algozes:

"Senhor, não lhes imputes este pecado." (Atos 7:60)

A cena encerra-se com uma nota sombria e profética. As testemunhas, para terem liberdade de movimento ao lançar as pedras, depositaram suas capas aos pés de um jovem chamado Saulo. Aquele que consentia na morte de Estêvão e observava a execução representava a continuidade daquela perseguição, sem saber que ele mesmo, no futuro, seria transformado por aquele mesmo Jesus que Estêvão via nos céus.

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Diego Vieira Dias em 24/01/2026

4. Soteriologia em Foco: O Grande Debate entre Calvinismo e Arminianismo e a Doutrina da Salvação (Rm. 9; Ef. 1; Jo. 10)

A Perspectiva de Jacó Armínio e os Cinco Pontos do Arminianismo

Enquanto o calvinismo se consolidava, surgiu uma voz dissidente dentro da própria igreja reformada holandesa: Jacó Armínio (Jacobus Arminius). Curiosamente, Armínio foi aluno de teólogos calvinistas e iniciou sua carreira defendendo essas doutrinas. No entanto, ao se debruçar sobre as Escrituras para debater contra opositores, ele acabou convencido de que certos pontos do calvinismo rígido estavam equivocados.

Suas ideias foram sistematizadas postumamente por seus seguidores no documento conhecido como Remonstrance (Remonstrância) de 1610. Abaixo, exploramos os cinco pontos do Arminianismo, que funcionam como um contraponto direto aos cinco pontos calvinistas.

1. Graça Preveniente (Prevenient Grace)

O arminianismo concorda com a depravação humana: o homem é pecador e não pode salvar-se sozinho. Contudo, discorda que Deus deixe a humanidade nesse estado de total incapacidade passiva.

A doutrina da Graça Preveniente ensina que Deus libera uma graça que "vem antes" (precede) da salvação, restaurando no homem pecador a capacidade de responder ao chamado de Deus. É como se o "salva-vidas" não apenas tirasse a pessoa da água à força, mas a colocasse em uma posição segura onde ela recupera a consciência e pode escolher segurar a mão do resgatador.

"E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim." (João 12:32)

"Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam." (Atos 17:30)

2. Eleição Condicional (Conditional Election)

Diferente da escolha arbitrária baseada apenas na soberania (calvinismo), o arminianismo defende que a eleição de Deus é baseada na Sua pré-ciência.

Deus, sendo onisciente, sabe desde a eternidade quem irá crer e quem rejeitará o Evangelho. Assim, Ele elege para a salvação aqueles que Ele previu que aceitariam a Cristo livremente através da fé. A condição para a eleição é a fé em Jesus.

"Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo..." (1 Pedro 1:2)

"Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho..." (Romanos 8:29)

3. Expiação Universal (Unlimited Atonement)

Em oposição direta à expiação limitada, Armínio defendia que o sacrifício de Jesus na cruz foi suficiente e intencional para toda a humanidade, e não apenas para os eleitos.

Embora o sacrifício seja suficiente para todos, ele só é eficiente (só salva de fato) aqueles que creem. A morte de Cristo abriu a porta da salvação para o mundo inteiro, tornando a redenção acessível a qualquer um que se arrependa.

"E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo." (1 João 2:2)

"O qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade." (1 Timóteo 2:4)

4. Graça Resistível (Resistible Grace)

Enquanto o calvinista crê que o chamado de Deus é irresistível para os eleitos, o arminiano sustenta que Deus, em Sua soberania, decidiu não violar o livre-arbítrio humano. Portanto, o Espírito Santo convence e chama, mas o ser humano pode, obstinadamente, resistir a esse chamado e rejeitar a salvação.

"Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim vós sois como vossos pais." (Atos 7:51)

"Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!" (Mateus 23:37)

5. Possibilidade de Perda da Salvação (Falling from Grace)

Este é o ponto de maior divergência prática. O arminianismo clássico ensina que é possível que um crente verdadeiro, que já experimentou a regeneração, se desvie da fé, deixe de perseverar e, consequentemente, perca a salvação. A segurança da salvação está condicionada à permanência em Cristo.

"Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se fizeram participantes do Espírito Santo... E recaíram, sejam outra vez renovados para arrependimento..." (Hebreus 6:4-6)

"Porque melhor lhes fora não terem conhecido o caminho da justiça, do que, conhecendo-o, desviarem-se do santo mandamento que lhes fora dado." (2 Pedro 2:21)

Representantes Notáveis:
Historicamente, John Wesley (fundador do Metodismo) foi o grande propagador da teologia arminiana. No cenário contemporâneo, destacam-se o teólogo Roger Olson e a grande maioria das denominações pentecostais, como as Assembleias de Deus.

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52 Que profeta vossos pais não perseguiram? Mataram até mesmo os que anteriormente anunciaram a vinda do Justo, do qual agora vos tornastes traidores e homicidas.

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53 Vós, que recebestes a lei por meio de anjos, não a guardastes.

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54 Ouvindo isso, eles se enfureciam no coração e rangiam os dentes contra Estêvão.

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55 Mas Estêvão, cheio do Espírito Santo, com os olhos fixos no céu, viu a glória de Deus, e Jesus em pé à direita de Deus, 56 e disse: Vejo o céu aberto, e o Filho do homem em pé, à direita de Deus.

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57 Então eles gritaram e, tapando os ouvidos, lançaram-se juntos contra ele 58 e, empurrando-o para fora da cidade, o apedrejaram. E as testemunhas puseram as suas roupas aos pés de um jovem chamado Saulo.

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59 E enquanto o apedrejavam, Estêvão orava: Senhor Jesus, recebe o meu espírito.

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60 E, pondo-se de joelhos, clamou em alta voz: Senhor, não lhes atribuas este pecado. Tendo dito isso, adormeceu.
Versículo 60
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Diego Vieira Dias em 15/01/2026

Análise Contemporânea: O Risco de Repetirmos os Erros dos Fariseus

A narrativa do martírio de Estêvão não é apenas um registro histórico sobre o passado de Israel ou o início da Igreja; ela funciona como um espelho perigoso e necessário para a cristandade contemporânea. A lição mais inquietante que extraímos deste episódio é que a religião institucionalizada, mesmo quando utiliza o nome de Deus, o templo de Deus e a Lei de Deus, pode se tornar a maior antagonista do próprio Deus.

A Autossuficiência da Religião

O fenômeno observado no Sinédrio revela uma verdade desconfortável: a religião não precisa, necessariamenteres, de Deus para existir e funcionar. Um sistema composto por ritos, hierarquias, liturgias e códigos morais pode operar perfeitamente no "piloto automático", oferecendo aos seus adeptos uma falsa sensação de redencão e justiça própria, enquanto o Espírito Santo é deixado do lado de fora.

O perigo que corremos hoje é o de sermos "evangélicos da religião do evangelho", mas que resistem ao Cristo do evangelho. É possível construir grandes templos, atrair multidões e defender dogmas com ferocidade, e ainda assim estar posicionado na "linhagem da rebelião", resistindo àquilo que Deus deseja fazer no presente. A religião torna-se um fim em si mesma, substituindo o relacionamento vivo por uma estrutura que satisfaz o ego humano, mas não transforma o coração.

A Hermenêutica da Conveniência

Outro ponto crítico é o uso instrumental das Escrituras. Os fariseus e doutores da lei conheciam o texto sagrado profundamente, mas o utilizavam para cegar a si mesmos e oprimir os outros. Hoje, o risco permanece o mesmo: "sacar" versículos bíblicos fora de contexto para validar preconceitos, justificar a violência verbal ou defender posições políticas e ideológicas.

Muitas vezes, buscamos nas Escrituras personagens como Davi, Salomão ou Josué para justificar nossos comportamentos ou buscar modelos de prosperidade e guerra, esquecendo-nos de que esses homens eram falhos e pecadores. O único padrão perfeito, a única "exegese" completa de Deus e do homem, é Jesus Cristo. Nele vemos o Deus que não conseguimos ver e o Homem que não conseguimos ser. Qualquer leitura bíblica que não nos leve à cruz e à imitação do caráter pacificador e sacrificial de Jesus é, em última análise, uma leitura religiosa, mas não cristã.

De Perseguidos a Perseguidores

A reflexão final que o texto de Atos nos impõe é sobre a nossa postura diante do mundo e do "outro". Estêvão morreu orando por seus assassinos; o sistema religioso matou para silenciar uma voz discordante.
O maior medo da igreja atual não deveria ser a perseguição vinda de fora — de Roma, do Estado ou da cultura secular. O maior medo deve ser o de nos tornarmos os perseguidores. O risco real é que, na tentativa de defender a "sã doutrina" ou a "moral", nos transformemos em um novo Sinédrio: homens teimosos, de corações incircuncisos, que creem estar prestando um culto a Deus enquanto apedrejam aqueles que pensam diferente.

A verdadeira comunidade cristã não é aquela que impõe sua vontade com violência, mas aquela que morre para si mesma. É a comunidade dos "arrependidos", que não barganha com Deus através de jejuns para obter favores (como uma greve de fome espiritual), mas jejua porque tem fome da presença d'Ele.

Para não repetirmos o erro dos que apedrejaram Estêvão, precisamos de uma conversão diária. É necessário abandonar a postura de donos da verdade e assumir a posição de servos que lavam os pés, que perdoam e que, diante da glória de Deus, reconhecem a própria miséria e clamam por graça. Somente assim deixaremos de ser uma religião que desemboca no ódio para sermos, de fato, o corpo vivo de Cristo na Terra.

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