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Atos Cap. 7

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Capítulo 7

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Atos

Versão: Nova Tradução na Linguagem de Hoje
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Diego Vieira Dias em 06/01/2026

14. ​A Defesa de Estêvão: Quando a Religião se Torna Resistência ao Espírito Santo (Atos 6:8 – 8:1)

A Narrativa Histórica: A Dualidade entre Aliança e Rebelião

Ao receber a palavra para sua defesa, Estêvão não responde diretamente às acusações de blasfêmia com negativas simples. Em vez disso, ele inicia uma magistral retrospectiva histórica, dirigindo-se aos acusadores como "irmãos e pais". Essa abordagem demonstra não apenas seu profundo conhecimento da Torá, mas também estabelece uma base comum: todos ali compartilham a mesma herança e a mesma aliança.

No entanto, a narrativa de Estêvão carrega um subtexto teológico perigoso para o Sinédrio. Ele constrói a história de Israel evidenciando um padrão cíclico de comportamento: a iniciativa graciosa de Deus em levantar libertadores e a resposta consistente do povo em rejeitá-los.

A Aliança com Abraão e a Providência sobre José

O discurso começa com Abraão, o pai da fé. Estêvão destaca que o "Deus da glória" apareceu a Abraão ainda na Mesopotâmia, fora da Terra Prometida, sublinhando que a presença de Deus não está confinada a um território geográfico específico. A promessa da terra e a aliança da circuncisão foram dadas antes que houvesse templo ou lei codificada.

A narrativa avança para os doze patriarcas, filhos de Jacó. Aqui, Estêvão introduz o primeiro grande exemplo de rejeição a um escolhido de Deus: José.

"Os patriarcas, invejosos de José, venderam-no para o Egito; mas Deus estava com ele e o livrou de todas as suas aflições..." (Atos 7:9-10)

O ponto central de Estêvão é a ironia divina: os irmãos rejeitaram José, vendendo-o como escravo, mas foi justamente através de José — aquele que eles desprezaram — que Deus proveu sustento e salvação para a família durante a fome. Aquele que foi resistido tornou-se a pedra angular da sobrevivência do povo.

Moisés: O Libertador Rejeitado

A maior parte da argumentação de Estêvão concentra-se na figura de Moisés. A escolha é estratégica, visto que ele fora acusado de blasfemar contra Moisés. Estêvão descreve o nascimento de Moisés em um tempo de opressão, sua educação na sabedoria egípcia e, crucialmente, sua primeira tentativa de defender seus irmãos hebreus.

Quando Moisés tentou intervir em uma briga entre dois israelitas, sua liderança foi questionada imediatamente:

"Mas o que agredia o seu próximo o repeliu, dizendo: Quem te constituiu autoridade e juiz sobre nós?" (Atos 7:27)

Estêvão enfatiza que Moisés foi rejeitado por seu próprio povo antes de fugir para Midiã. Quarenta anos depois, no episódio da sarça ardente, Deus envia esse mesmo homem de volta ao Egito. A retórica de Estêvão torna-se afiada:

  • O homem que o povo rejeitou ("Quem te constituiu chefe?"), Deus enviou como chefe e libertador.
  • Moisés operou prodígios e sinais, guiando o povo pelo deserto.
  • Moisés prometeu que Deus levantaria outro profeta semelhante a ele (uma alusão clara a Cristo).

A Inclinação à Idolatria

Apesar da libertação, a "Igreja no deserto" (a congregação de Israel) não permaneceu fiel. Estêvão recorda que, em seus corações, eles "voltaram para o Egito". A rejeição à liderança visível de Moisés (quando este estava no Monte Sinai) resultou na fabricação do Bezerro de Ouro.

"Fizeram um bezerro naqueles dias, ofereceram sacrifício ao ídolo e se alegravam com a obra das suas mãos. Mas Deus se afastou e os entregou ao culto do exército do céu..." (Atos 7:41-42)

Estêvão conecta esse evento antigo ao exílio na Babilônia, citando os profetas para demonstrar que a idolatria — seja a Moloque ou a outros deuses estelares — foi a causa do juízo divino.
O argumento implícito é devastador: historicamente, os verdadeiros "blasfemadores" contra Moisés e contra Deus não foram os profetas perseguidos, mas os próprios antepassados dos que agora julgavam Estêvão. Havia duas linhagens claras na história de Israel: a linhagem da providência divina (Abraão, José, Moisés) e a linhagem da rebelião (os patriarcas invejosos, os hebreus que rejeitaram Moisés, os adoradores do bezerro). Estêvão estava preparando o terreno para identificar em qual dessas linhagens o Sinédrio se encontrava.

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1 O Grande Sacerdote perguntou a Estêvão: — O que essas pessoas estão dizendo é verdade?

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2 Estêvão respondeu: — Irmãos e pais, escutem! O glorioso Deus apareceu ao nosso antepassado Abraão quando este morava na região da Mesopotâmia, antes de ir morar na cidade de Harã.

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3 E Deus lhe disse: “Saia da sua terra e do meio dos seus parentes e vá para uma terra que eu lhe mostrarei.”

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4 Então ele saiu da Caldeia e foi morar em Harã. Depois que o pai dele morreu, Deus trouxe Abraão para esta terra onde vocês agora estão morando.

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5 Ele não deu a Abraão nem mesmo um palmo desta terra, mas prometeu que ia lhe dar toda esta terra e que depois ela seria dos seus descendentes. Quando Deus fez essa promessa, Abraão ainda não tinha filhos.

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6 Ele disse a Abraão: “Os seus descendentes vão viver como estrangeiros em outra terra. Ali eles serão escravos e serão maltratados durante quatrocentos anos.”

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7 — E Deus disse ainda: “Eu castigarei a nação que os escravizar. Depois disso eles voltarão daquela terra e me adorarão neste lugar.”

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8 Deus deu a Abraão a cerimônia da circuncisão como prova da aliança que fez com ele. Por isso Abraão circuncidou o seu filho Isaque uma semana depois do seu nascimento. Isaque circuncidou o seu filho Jacó, e Jacó fez o mesmo com os seus doze filhos, os patriarcas.

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9 Estêvão continuou: — Os irmãos de José tinham inveja dele e o venderam para ser escravo no Egito. Mas Deus estava com ele 10 e o livrou de todas as suas aflições. Quando José apareceu diante de Faraó, rei do Egito, Deus lhe deu sabedoria e modos agradáveis. E Faraó o nomeou governador do Egito e do palácio do rei.

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11 Depois houve falta de alimentos e muito sofrimento no Egito e em Canaã, e os nossos antepassados não tinham mais o que comer.

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12 Mais tarde, Jacó ouviu dizer que no Egito havia trigo e mandou pela primeira vez os nossos antepassados até lá.

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13 Na segunda vez José contou aos seus irmãos quem ele era, e Faraó ficou sabendo da família de José.

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14 Então José mandou buscar o seu pai Jacó e todos os seus parentes, a fim de irem para o Egito; eram setenta e cinco pessoas ao todo.

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15 Jacó foi para o Egito, e ali ele e os nossos antepassados ficaram morando até o dia da morte deles.

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16 Depois os corpos deles foram trazidos para Siquém e postos no túmulo que Abraão tinha comprado dos descendentes de Hamor por um certo preço.

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17Quando estava chegando o tempo de Deus cumprir o juramento que havia feito a Abraão, o nosso povo tinha aumentado muito no Egito.

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18 Então um rei que não sabia nada a respeito de José começou a governar o Egito.

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19 Esse rei enganou e maltratou os nossos antepassados, a ponto de obrigá-los a abandonar as suas próprias criancinhas para que elas morressem.

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20 Nesse tempo nasceu Moisés, que era uma linda criança, e durante três meses os seus pais cuidaram dele em casa.

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21 Mas, quando tiveram de abandoná-lo, a filha do rei o adotou e criou como seu próprio filho.

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22 E assim ele foi instruído em toda a ciência dos egípcios e se tornou um homem que falava e agia com autoridade.

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23 Estêvão disse ainda: — Quando Moisésestava com quarenta anos, resolveu ir ver a sua gente, os israelitas.

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24 Ali viu um egípcio maltratando um homem do seu povo. Então defendeu o israelita e o vingou, matando o egípcio.

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25 Moisés pensava que os israelitas entenderiam que Deus ia libertá-los por meio dele, mas eles não entenderam.

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26 No dia seguinte Moisés viu dois israelitas brigando. E, tentando apartar a briga, disse: “Homens, escutem! Vocês são irmãos; por que estão brigando?”

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27Mas aquele que estava maltratando o outro empurrou Moisés para um lado e disse: “Quem pôs você como nosso chefe ou nosso juiz?

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28 Você está querendo me matar como matou o egípcio ontem?”

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29 Quando Moisés ouviu isso, fugiu do Egito e foi morar na terra de Midiã, e ali nasceram dois filhos dele.

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30Quarenta anos mais tarde, quando Moisés estava no deserto, perto do monte Sinai, um anjo apareceu a ele, no meio do fogo de um espinheiro que estava queimando.

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31 Moisés ficou admirado com o que estava vendo e chegou perto para ver melhor. Então ouviu a voz do Senhor, que disse: 32 “Eu sou o Deus dos seus antepassados, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó.” Moisés tremia de medo e não tinha coragem de olhar.

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33 Então o Senhor disse: “Tire as sandálias, pois o lugar onde você está é um lugar sagrado.

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34 Eu tenho visto como o meu povo está sendo maltratado no Egito; tenho ouvido os gemidos deles e desci para libertá-los. Agora vou mandar você para o Egito.”

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35 E Estêvão continuou: — Esse mesmo Moisés foi rejeitado pelo povo de Israel. Eles lhe perguntaram: “Quem pôs você como nosso chefe ou nosso juiz?” Deus enviou esse Moisés como líder e libertador, com a ajuda do anjo que apareceu no espinheiro.

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36 Foi ele quem tirou os israelitas do Egito, fazendo milagres e maravilhas naquela terra, e também no mar Vermelho, e no deserto, durante quarenta anos.

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37 Foi esse mesmo Moisés quem disse aos israelitas: “Do meio de vocês Deus escolherá e enviará para vocês um profeta, assim como ele me enviou.”

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38 Foi Moisés quem esteve com os israelitas reunidos no deserto; ele estevecom os nossos antepassados e com o anjo que falou com ele no monte Sinai. E foi Moisés quem recebeu e nos entregou as mensagens vivas de Deus.

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39 — Os nossos antepassados não quiseram obedecer a Moisés, mas o rejeitaram e queriam voltar para o Egito.

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40 Eles disseram a Arão: “Faça para nós deuses que irão à nossa frente. Não sabemos o que aconteceu com Moisés, aquele homem que nos tirou do Egito.”

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41 Então fizeram uma imagem em forma de bezerro e mataram animais para oferecer a ela como sacrifício. Depois deram uma festa em honra da imagem que eles mesmos tinham feito.

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42 Mas Deus se afastou deles e deixou que adorassem as estrelas do céu, como está escrito no Livro dos Profetas : “Ó povo de Israel, não foi para mim que vocês mataram e ofereceram animais em sacrifício durante quarenta anos no deserto.

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43 Vocês carregaram a barraca do deus Moloque e também a imagem da estrela de Raifã , o deus de vocês. Esses eram ídolos que vocês tinham feito para adorar. Por isso vou mandar vocês para além da Babilônia.”

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44 — No deserto, os nossos antepassados tinham consigo a Tenda da Presença de Deus. Essa Tenda foi feita como Deus tinha mandado Moisés fazer, de acordo com o modelo que Deus lhe havia mostrado.

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45 Eles tinham recebido a Tenda dos seus antepassados e a levaram quando foram com Josué e conquistaram as terras das nações que Deus expulsou de diante deles. A Tenda ficoucom eles até o tempo de Davi.

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46 Davi recebeu a aprovação de Deus e pediu licença para construir uma casa para o Deus de Jacó.

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47 Mas foi Salomão quem construiu a casa de Deus.

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48Porém o Altíssimo não mora em casas construídas por seres humanos. Como disse o profeta: 49 “O céu é o meu trono, diz o Senhor, e a terra é o estrado onde descanso os meus pés. Que tipo de casa vocês poderiam construir para mim? Como conseguiriam construir um lugar onde eu pudesse morar?
Versículo 48
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Diego Vieira Dias em 15/01/2026

Do Tabernáculo ao Templo: A Compreensão da Presença Divina

Um dos pontos centrais da acusação contra Estêvão era a suposta blasfêmia contra o "Lugar Santo", o Templo de Jerusalém. Para os judeus da época, o Templo não era apenas um centro de culto, mas o símbolo máximo da identidade nacional e a garantia da presença de Deus entre eles. Em sua defesa, Estêvão desconstrói essa teologia geográfica, demonstrando que a presença divina nunca esteve limitada a uma estrutura física imutável.

Ele recorda o "Tabernáculo do Testemunho", a tenda sagrada que acompanhou o povo durante a peregrinação no deserto. Este santuário móvel foi construído "segundo o modelo" que Deus revelara a Moisés, simbolizando um Deus que caminha com Seu povo, dinâmico e presente nas adversidades. O Tabernáculo entrou na Terra Prometida sob a liderança de Josué e permaneceu como o centro de adoração até os dias de Davi.

Davi, o homem segundo o coração de Deus, desejou ardentemente edificar uma casa permanente para o Senhor. No entanto, a construção coube a seu filho, Salomão. Foi neste ponto que a história de Israel sofreu uma inflexão teológica perigosa: a transição de um Deus que se move com o povo (Tabernáculo) para a crença em um Deus contido em uma edificação estática (Templo).
Estêvão desfere então o golpe fatal na idolatria institucionalizada de seus ouvintes, citando os próprios profetas para corrigir a visão distorcida que tinham sobre a habitação divina:

"Entretanto, o Altíssimo não habita em casas feitas por mãos humanas; como diz o profeta: O céu é o meu trono, e a terra o estrado dos meus pés. Que casa me edificareis? diz o Senhor; ou qual é o lugar do meu repouso? Não fez, porventura, a minha mão todas estas coisas?" (Atos 7:48-50)

Ao invocar essa passagem (Isaías 66:1-2), Estêvão argumenta que Deus é o Criador do universo e não pode ser domesticado ou confinado por paredes de pedra. Ao absolutizar o Templo, os líderes religiosos haviam reduzido o Deus de Israel ao nível das divindades pagãs do Antigo Oriente Próximo, que eram "presas" em seus santuários locais.

A ironia da defesa de Estêvão é cortante: ao tentarem proteger o Templo físico, os líderes estavam, na verdade, limitando a glória de Deus. Eles acusavam Estêvão de blasfêmia, mas eram eles que possuíam uma visão apequenada do Todo-Poderoso. Deus não dependia daquele edifício para existir ou agir; Ele é o Senhor dos Céus e da Terra.

Essa compreensão preparava o caminho para a revelação de que o verdadeiro "Templo" passaria a ser, em Cristo e posteriormente na Igreja, o próprio ser humano habitado pelo Espírito, e não mais uma construção de alvenaria.

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50 Por acaso não fui eu quem fez todas as coisas?”

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51 E Estêvão terminou, dizendo: — Como vocês são teimosos! Como são duros de coração e surdos para ouvir a mensagem de Deus! Vocês sempre têm rejeitado o Espírito Santo, como os seus antepassados rejeitaram.
Versículo 51
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Diego Vieira Dias em 15/01/2026

O Confronto Final e o Martírio: A Religião que Desemboca no Ódio

Após estabelecer a base histórica e teológica, o discurso de Estêvão sofre uma mudança abrupta e dramática. Ele deixa de ser o réu que explica a história de Israel para assumir a posição de um profeta que denuncia o pecado presente. A narrativa, que até então era uma recitação de fatos aceitos, transforma-se em uma acusação frontal contra a liderança religiosa de Jerusalém.

Estêvão utiliza uma linguagem que ecoa os antigos profetas, chamando seus acusadores de "homens de dura cerviz" (teimosos) e "incircuncisos de coração e de ouvidos". A acusação central é devastadora: assim como seus antepassados resistiram a José e a Moisés, o Sinédrio agora resistia ativamente ao Espírito Santo.

"Vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim como fizeram vossos pais, também vós o fazeis. Qual dos profetas vossos pais não perseguiram? Eles mataram os que anteriormente anunciavam a vinda do Justo, do qual vós agora vos tornastes traidores e assassinos; vós que recebestes a lei por ministério de anjos, e não a guardastes." (Atos 7:51-53)

A ironia atinge seu ápice: os guardiões da Lei tornaram-se os transgressores da Lei; os que aguardavam o Messias tornaram-se seus assassinos. Estêvão conecta a linhagem da rebelião histórica diretamente àqueles homens, identificando-os não como herdeiros da promessa, mas como herdeiros da resistência a Deus.

A Visão da Glória e a Fúria Religiosa

A reação do conselho foi visceral. O texto descreve que eles "rangiam os dentes" de raiva, uma expressão de ódio incontrolável. Em contraste absoluto com essa fúria terrena, Estêvão é arrebatado em uma experiência espiritual sublime. Cheio do Espírito Santo, ele fita os olhos no céu e vê a glória de Deus e Jesus.

Um detalhe teológico crucial nesta visão é a posição de Cristo. Estêvão declara:

"Eis que vejo os céus abertos, e o Filho do homem, que está em pé à mão direita de Deus." (Atos 7:56)

Para o Sinédrio, ouvir que o homem que eles haviam condenado e entregue aos romanos para ser crucificado estava agora na posição de honra e autoridade divina foi insuportável. Gritando e tapando os ouvidos — um gesto ritual para não ouvir blasfêmias — eles abandonaram qualquer pretensão de processo legal. O julgamento dissolveu-se em um linchamento.

O Apedrejamento e a Oração Final

Estêvão foi arrastado para fora da cidade e apedrejado. A execução não seguiu o protocolo romano formal, mas assemelhou-se a um ato de fúria coletiva sancionado pela omissão das autoridades e inflamado pelo zelo religioso. Neste cenário de brutalidade, a "religião" — entendida aqui como o sistema de ritos vazio de Deus — revela sua face mais sombria: quando confrontada com a Verdade que não pode refutar, ela recorre à eliminação do mensageiro.

Mesmo sob a chuva de pedras, Estêvão reflete perfeitamente o caráter de seu Mestre. Suas últimas palavras são ecos diretos de Cristo na cruz: a entrega de seu espírito a Jesus e, de joelhos, um clamor por misericórdia para com seus algozes:

"Senhor, não lhes imputes este pecado." (Atos 7:60)

A cena encerra-se com uma nota sombria e profética. As testemunhas, para terem liberdade de movimento ao lançar as pedras, depositaram suas capas aos pés de um jovem chamado Saulo. Aquele que consentia na morte de Estêvão e observava a execução representava a continuidade daquela perseguição, sem saber que ele mesmo, no futuro, seria transformado por aquele mesmo Jesus que Estêvão via nos céus.

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Diego Vieira Dias em 24/01/2026

4. Soteriologia em Foco: O Grande Debate entre Calvinismo e Arminianismo e a Doutrina da Salvação (Rm. 9; Ef. 1; Jo. 10)

A Perspectiva de Jacó Armínio e os Cinco Pontos do Arminianismo

Enquanto o calvinismo se consolidava, surgiu uma voz dissidente dentro da própria igreja reformada holandesa: Jacó Armínio (Jacobus Arminius). Curiosamente, Armínio foi aluno de teólogos calvinistas e iniciou sua carreira defendendo essas doutrinas. No entanto, ao se debruçar sobre as Escrituras para debater contra opositores, ele acabou convencido de que certos pontos do calvinismo rígido estavam equivocados.

Suas ideias foram sistematizadas postumamente por seus seguidores no documento conhecido como Remonstrance (Remonstrância) de 1610. Abaixo, exploramos os cinco pontos do Arminianismo, que funcionam como um contraponto direto aos cinco pontos calvinistas.

1. Graça Preveniente (Prevenient Grace)

O arminianismo concorda com a depravação humana: o homem é pecador e não pode salvar-se sozinho. Contudo, discorda que Deus deixe a humanidade nesse estado de total incapacidade passiva.

A doutrina da Graça Preveniente ensina que Deus libera uma graça que "vem antes" (precede) da salvação, restaurando no homem pecador a capacidade de responder ao chamado de Deus. É como se o "salva-vidas" não apenas tirasse a pessoa da água à força, mas a colocasse em uma posição segura onde ela recupera a consciência e pode escolher segurar a mão do resgatador.

"E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim." (João 12:32)

"Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam." (Atos 17:30)

2. Eleição Condicional (Conditional Election)

Diferente da escolha arbitrária baseada apenas na soberania (calvinismo), o arminianismo defende que a eleição de Deus é baseada na Sua pré-ciência.

Deus, sendo onisciente, sabe desde a eternidade quem irá crer e quem rejeitará o Evangelho. Assim, Ele elege para a salvação aqueles que Ele previu que aceitariam a Cristo livremente através da fé. A condição para a eleição é a fé em Jesus.

"Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo..." (1 Pedro 1:2)

"Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho..." (Romanos 8:29)

3. Expiação Universal (Unlimited Atonement)

Em oposição direta à expiação limitada, Armínio defendia que o sacrifício de Jesus na cruz foi suficiente e intencional para toda a humanidade, e não apenas para os eleitos.

Embora o sacrifício seja suficiente para todos, ele só é eficiente (só salva de fato) aqueles que creem. A morte de Cristo abriu a porta da salvação para o mundo inteiro, tornando a redenção acessível a qualquer um que se arrependa.

"E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo." (1 João 2:2)

"O qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade." (1 Timóteo 2:4)

4. Graça Resistível (Resistible Grace)

Enquanto o calvinista crê que o chamado de Deus é irresistível para os eleitos, o arminiano sustenta que Deus, em Sua soberania, decidiu não violar o livre-arbítrio humano. Portanto, o Espírito Santo convence e chama, mas o ser humano pode, obstinadamente, resistir a esse chamado e rejeitar a salvação.

"Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim vós sois como vossos pais." (Atos 7:51)

"Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!" (Mateus 23:37)

5. Possibilidade de Perda da Salvação (Falling from Grace)

Este é o ponto de maior divergência prática. O arminianismo clássico ensina que é possível que um crente verdadeiro, que já experimentou a regeneração, se desvie da fé, deixe de perseverar e, consequentemente, perca a salvação. A segurança da salvação está condicionada à permanência em Cristo.

"Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se fizeram participantes do Espírito Santo... E recaíram, sejam outra vez renovados para arrependimento..." (Hebreus 6:4-6)

"Porque melhor lhes fora não terem conhecido o caminho da justiça, do que, conhecendo-o, desviarem-se do santo mandamento que lhes fora dado." (2 Pedro 2:21)

Representantes Notáveis:
Historicamente, John Wesley (fundador do Metodismo) foi o grande propagador da teologia arminiana. No cenário contemporâneo, destacam-se o teólogo Roger Olson e a grande maioria das denominações pentecostais, como as Assembleias de Deus.

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52 Qual foi o profeta que os antepassados de vocês não perseguiram? Eles mataram os mensageiros de Deus que no passado anunciaram a vinda do Bom Servo. E agora vocês o traíram e o mataram.

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53 Vocês receberam a lei por meio de anjos e não têm obedecido a essa lei.

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54 Quando os membros do Conselho Superior acabaram de ouvir o que Estêvão tinha dito, ficaram furiosos e rangeram os dentes contra ele.

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55 Mas Estêvão, cheio do Espírito Santo, olhou firmemente para o céu e viu a glória de Deus. E viu também Jesus em pé, ao lado direito de Deus.

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56 Então disse: — Olhem! Eu estou vendo o céu aberto e o Filho do Homem em pé, ao lado direito de Deus.

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57 Mas eles taparam os ouvidos e, gritando bem alto, avançaram todos juntos contra Estêvão.

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58 Depois o jogaram para fora da cidade e o apedrejaram. E as testemunhas deixaram um moço chamado Saulo tomando conta das suas capas.

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59 Enquanto eles atiravam as pedras, Estêvão chamava Jesus, dizendo: — Senhor Jesus, recebe o meu espírito!

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60 Depois, ajoelhou-se e gritou com voz bem forte: — Senhor, não condenes esta gente por causa deste pecado! E, depois que disse isso, ele morreu.
Versículo 60
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Diego Vieira Dias em 15/01/2026

Análise Contemporânea: O Risco de Repetirmos os Erros dos Fariseus

A narrativa do martírio de Estêvão não é apenas um registro histórico sobre o passado de Israel ou o início da Igreja; ela funciona como um espelho perigoso e necessário para a cristandade contemporânea. A lição mais inquietante que extraímos deste episódio é que a religião institucionalizada, mesmo quando utiliza o nome de Deus, o templo de Deus e a Lei de Deus, pode se tornar a maior antagonista do próprio Deus.

A Autossuficiência da Religião

O fenômeno observado no Sinédrio revela uma verdade desconfortável: a religião não precisa, necessariamenteres, de Deus para existir e funcionar. Um sistema composto por ritos, hierarquias, liturgias e códigos morais pode operar perfeitamente no "piloto automático", oferecendo aos seus adeptos uma falsa sensação de redencão e justiça própria, enquanto o Espírito Santo é deixado do lado de fora.

O perigo que corremos hoje é o de sermos "evangélicos da religião do evangelho", mas que resistem ao Cristo do evangelho. É possível construir grandes templos, atrair multidões e defender dogmas com ferocidade, e ainda assim estar posicionado na "linhagem da rebelião", resistindo àquilo que Deus deseja fazer no presente. A religião torna-se um fim em si mesma, substituindo o relacionamento vivo por uma estrutura que satisfaz o ego humano, mas não transforma o coração.

A Hermenêutica da Conveniência

Outro ponto crítico é o uso instrumental das Escrituras. Os fariseus e doutores da lei conheciam o texto sagrado profundamente, mas o utilizavam para cegar a si mesmos e oprimir os outros. Hoje, o risco permanece o mesmo: "sacar" versículos bíblicos fora de contexto para validar preconceitos, justificar a violência verbal ou defender posições políticas e ideológicas.

Muitas vezes, buscamos nas Escrituras personagens como Davi, Salomão ou Josué para justificar nossos comportamentos ou buscar modelos de prosperidade e guerra, esquecendo-nos de que esses homens eram falhos e pecadores. O único padrão perfeito, a única "exegese" completa de Deus e do homem, é Jesus Cristo. Nele vemos o Deus que não conseguimos ver e o Homem que não conseguimos ser. Qualquer leitura bíblica que não nos leve à cruz e à imitação do caráter pacificador e sacrificial de Jesus é, em última análise, uma leitura religiosa, mas não cristã.

De Perseguidos a Perseguidores

A reflexão final que o texto de Atos nos impõe é sobre a nossa postura diante do mundo e do "outro". Estêvão morreu orando por seus assassinos; o sistema religioso matou para silenciar uma voz discordante.
O maior medo da igreja atual não deveria ser a perseguição vinda de fora — de Roma, do Estado ou da cultura secular. O maior medo deve ser o de nos tornarmos os perseguidores. O risco real é que, na tentativa de defender a "sã doutrina" ou a "moral", nos transformemos em um novo Sinédrio: homens teimosos, de corações incircuncisos, que creem estar prestando um culto a Deus enquanto apedrejam aqueles que pensam diferente.

A verdadeira comunidade cristã não é aquela que impõe sua vontade com violência, mas aquela que morre para si mesma. É a comunidade dos "arrependidos", que não barganha com Deus através de jejuns para obter favores (como uma greve de fome espiritual), mas jejua porque tem fome da presença d'Ele.

Para não repetirmos o erro dos que apedrejaram Estêvão, precisamos de uma conversão diária. É necessário abandonar a postura de donos da verdade e assumir a posição de servos que lavam os pés, que perdoam e que, diante da glória de Deus, reconhecem a própria miséria e clamam por graça. Somente assim deixaremos de ser uma religião que desemboca no ódio para sermos, de fato, o corpo vivo de Cristo na Terra.

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