Lucas 24: A Ressurreição de Jesus: O Evento que Despedaça Paradigmas
"36 Falavam eles ainda estas coisas quando Jesus apareceu no meio deles e lhes disse: — Que a paz esteja com vocês! 37 Eles, porém, ficaram assustados e com medo, pensando que estavam vendo um espírito. 38 Mas ele lhes disse: — Por que vocês estão assustados? E por que surgem dúvidas no coração de vocês? 39 Vejam as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo. Toquem em mim e vejam que é verdade, porque um espírito não tem carne nem ossos, como vocês estão vendo que eu tenho. 40 Dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. 41 E, por não acreditarem eles ainda, por causa da alegria, e como estavam admirados, Jesus lhes disse: — Vocês têm aqui alguma coisa para comer? 42 Então lhe apresentaram um pedaço de peixe assado, 43 e ele comeu na presença deles. 44 A seguir, Jesus lhes disse: — São estas as palavras que eu lhes falei, estando ainda com vocês: era necessário que se cumprisse tudo o que está escrito a respeito de mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. 45 Então lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras. 46 E disse-lhes: — Assim está escrito que o Cristo tinha de sofrer, ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia, 47 e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando em Jerusalém. 48 Vocês são testemunhas destas coisas. 49 Eis que envio sobre vocês a promessa de meu Pai; permaneçam, pois, na cidade, até que vocês sejam revestidos do poder que vem do alto." - Lucas 24:36-49 (NAA)
A Cena no Cenáculo: "Paz Seja Convosco"
Enquanto os discípulos ainda conversavam sobre os acontecimentos daquele dia extraordinário, o próprio Jesus apareceu no meio deles e disse: "Paz seja convosco." A reação não foi de alívio, mas de pavor — eles ficaram assustados e amedrontados, pensando que viam um fantasma.
Diante do medo estampado nos rostos dos discípulos, Jesus lhes fez uma pergunta direta: por que estavam perturbados e por que dúvidas surgiam em seus corações? Em seguida, ofereceu a eles a prova mais concreta possível de sua identidade:
"Olhem para as minhas mãos e para os meus pés. Sou eu mesmo! Toquem-me e vejam; um fantasma não tem carne nem ossos, como vocês estão vendo que eu tenho."
Ao dizer isso, mostrou-lhes as mãos e os pés. Mesmo assim, os discípulos ainda não conseguiam crer — não por incredulidade hostil, mas por um misto de alegria e espanto tão intenso que parecia bom demais para ser verdade. Foi nesse instante que Jesus pediu algo simples e cotidiano: algo para comer. Receberam-lhe um pedaço de peixe assado, e ele o comeu diante de todos.
Depois desse gesto físico e concreto, Jesus voltou-se para o significado teológico do que estava acontecendo. Lembrou aos discípulos que tudo aquilo já havia sido anunciado enquanto ainda estava com eles: era necessário que se cumprisse tudo o que a seu respeito estava escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então, abriu-lhes o entendimento para que compreendessem as Escrituras.
O ensino que se seguiu foi claro: o Messias haveria de sofrer e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, e em seu nome seria pregado o arrependimento para o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Os discípulos ali presentes eram, portanto, testemunhas oculares dessas coisas — e receberiam a promessa do Pai, o poder do alto, mas deveriam permanecer na cidade até serem revestidos dessa força.
Essa é a cena que abre a reflexão: um encontro noturno, físico, tátil e teológico, que lança as bases para tudo o que viria a seguir na compreensão cristã da ressurreição.
Lucas 24 no Conjunto dos Relatos Evangélicos
Lucas 24 ocupa um lugar particular entre os quatro relatos bíblicos da ressurreição — Mateus, Marcos, Lucas e João —, cada um narrando, à sua maneira, os acontecimentos daquele dia decisivo. Ainda que todos tratem do mesmo evento central, o relato de Lucas se destaca pela riqueza de detalhes que abrange praticamente todo o arco daquele domingo de Páscoa.
O capítulo começa com os versículos iniciais — não incluídos na passagem lida diretamente, mas essenciais para o contexto — que descrevem a manhã: as mulheres se dirigindo ao túmulo e encontrando-o vazio. Em seguida, a parte central do capítulo relata o que se passou durante o dia, quando Jesus caminha ao lado de dois discípulos rumo a Emaús, uma história amplamente conhecida entre os cristãos.
A passagem lida no início desta reflexão, no entanto, refere-se ao que aconteceu à noite. O texto de Lucas não especifica o horário com essa palavra, mas o Evangelho de João, ao narrar o mesmo episódio — Jesus surgindo por trás de portas fechadas e dizendo "Paz seja convosco" —, esclarece que se tratava de noite. Trata-se, portanto, do que poderia ser descrito como o "culto das cinco horas" daquele primeiro Domingo de Páscoa: o encontro vespertino, o terceiro grande momento daquele dia extraordinário.
Compreendida essa moldura temporal — manhã, tarde e noite —, torna-se possível extrair da passagem da noite três ensinamentos centrais sobre a ressurreição de Jesus, que estruturam o restante da reflexão.
A Ressurreição como Evento Histórico que Despedaça Paradigmas
O primeiro ensinamento extraído da passagem é direto: a ressurreição é um evento histórico que despedaça paradigmas.
Existe uma corrente de interpretação — bastante difundida — segundo a qual os relatos sobre a ressurreição de Jesus não deveriam ser lidos como história, mas como alegoria. Nessa leitura, as narrativas funcionariam como uma forma simbólica de expressar que, por mais escura que seja a noite, sempre há um amanhecer; por piores que sejam as circunstâncias, sempre é possível viver em esperança. Um exemplo ilustrativo dessa abordagem é o título de uma pregação conhecida: "Emaús nunca aconteceu. Emaús sempre acontece." A frase resume bem a lógica: o episódio da estrada de Emaús — quando Jesus aparece aos discípulos ainda mais cedo naquele mesmo capítulo — talvez nunca tenha ocorrido literalmente, mas a experiência de "viver em esperança" seria algo que se repete constantemente na vida das pessoas. Nessa visão, os relatos não teriam sido escritos para serem tomados ao pé da letra, mas para simbolizar como se deve viver.
Contra essa leitura, no entanto, levanta-se uma pergunta simples: se a intenção fosse apenas simbólica, por que Lucas registraria um detalhe tão concreto e aparentemente banal quanto Jesus perguntando se havia algo para comer, recebendo um pedaço de peixe assado e o comendo diante de todos? Que "lição de vida" um episódio desses poderia representar? A ideia de que o texto ensinaria, por exemplo, a evitar alimentos gordurosos é evidentemente absurda. O detalhe não simboliza nada — ele funciona como evidência.
A explicação mais coerente é que Jesus não estava respondendo à fome, mas a uma dúvida concreta dos discípulos. O versículo 41 registra que eles não conseguiam crer no que viam. E é justamente diante dessa incredulidade que Jesus oferece uma prova física: pede o peixe precisamente para demonstrar que não era um símbolo, uma alucinação ou um fantasma.
Muitos estudiosos de literatura apontam que esses relatos carregam todas as marcas de uma história oral baseada em testemunho ocular. Um dos argumentos mais contundentes nesse sentido é o fato de que, em todos os relatos da ressurreição, as mulheres aparecem como as primeiras testemunhas — as primeiras a chegar à cena, as primeiras a ver o túmulo vazio. Isso é particularmente significativo porque, na sociedade da época, o status social das mulheres era baixo a ponto de seu testemunho não ser aceito em tribunais. Se alguém estivesse inventando uma história para convencer os leitores daquele tempo, jamais colocaria mulheres como as primeiras testemunhas oculares, pois isso geraria desconfiança imediata entre os leitores antigos. A única explicação plausível para a presença delas na narrativa é que, de fato, estiveram lá.
Diante desses e de outros elementos, a conclusão é clara: esses são relatos históricos que afirmam, sem meios-termos, que Jesus Cristo foi ressuscitado dos mortos em tempo, espaço e história real.
E se essa afirmação for verdadeira, as implicações são profundas. Um fato histórico — por mais inconveniente e difícil de descartar que seja — tem o poder de ferir paradigmas inteiros. Um paradigma é a estrutura de pensamento com a qual alguém interpreta a vida; quando um fato contradiz esse paradigma, é preciso decidir o que fazer com ele.
Alguns exemplos de paradigmas que a ressurreição desafia diretamente:
- "Esta vida é tudo o que existe; quando morremos, acabou." A ressurreição contradiz frontalmente essa visão, afirmando que há algo além da sepultura.
- "Deus, se existir, é distante e remoto — algo que não precisa ser levado muito a sério." Se Jesus ressuscitou, ele não é uma força remota; ele vem ao encontro das pessoas, e é preciso lidar com ele diretamente.
- "Todas as religiões são basicamente iguais, apenas caminhos diferentes para viver melhor." Se Jesus Cristo é o Filho de Deus ressuscitado, ele não é apenas mais um caminho — ele é o caminho pelo qual a salvação vem.
Esse último ponto tem uma consequência particularmente incômoda: é comum que as pessoas expressem desconforto com partes específicas da Bíblia, considerando certos trechos ultrapassados ou "regressivos". Mas, se a ressurreição não é símbolo, e sim fato histórico, os sentimentos pessoais sobre o texto bíblico tornam-se irrelevantes diante da questão central — é preciso lidar com a Bíblia como ela é, precisamente porque aquilo que ela afirma sobre Jesus realmente aconteceu.
Esse é, portanto, o primeiro grande ensinamento da passagem: por isso Jesus insiste, "Sou eu mesmo. Estou realmente aqui. Isto está realmente acontecendo. Não sou um símbolo, não sou uma alucinação. Toquem-me, sintam-me. Sou eu."
Como a Ressurreição Revela o Sentido de Toda a Escritura
Se o primeiro ponto trata da ressurreição como fato histórico, o segundo ensinamento vai além: apenas afirmar que "um homem se levantou da sepultura" — algo inédito antes e depois desse evento — não basta. É preciso entender o que isso significa. É por essa razão, aliás, que sermões costumam ter um "segundo ponto".
No meio da passagem, Jesus começa subitamente a ensinar as Escrituras aos discípulos. Um detalhe chama atenção: ele havia convivido com esses homens por três anos — por que não os ensinou dessa forma antes? O texto registra que ele lembra o que já havia dito enquanto ainda estava com eles: era necessário que se cumprisse tudo o que estava escrito a seu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Essa expressão — Lei, Profetas e Salmos — é uma forma abrangente de se referir a todas as Escrituras hebraicas, aquilo que os cristãos chamam de Antigo Testamento. Jesus afirma que tudo isso é a seu respeito. E então, o texto registra: ele abriu-lhes o entendimento para que compreendessem as Escrituras.
Por que somente agora, depois de ressuscitado, Jesus consegue mostrar aos discípulos o que a Bíblia realmente significa? Por que a ressurreição é a chave para compreender toda a mensagem bíblica?
Uma forma útil de entender essa questão é observar o caso do apóstolo Paulo, originalmente chamado Saulo. Saulo era um líder religioso judeu e teólogo que conhecia as Escrituras a fundo. Como a maioria dos líderes judaicos de sua época, dominava profundamente o texto sagrado — e, justamente por isso, considerava a ideia de que Jesus Cristo fosse o Messias algo absurdo, quase inaceitável.
Essa rejeição fazia sentido dentro de sua lógica teológica. A palavra "Messias" significa "o ungido", "o príncipe ungido" — alguém escolhido, amado por Deus, abençoado e constantemente acompanhado pela presença divina. Ora, Jesus morreu na cruz clamando: "Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?" Tanto romanos quanto judeus entendiam a crucificação como a mais vergonhosa das mortes, reservada aos mais abjetos. Havia inclusive uma passagem de Deuteronômio que declarava maldito todo aquele que fosse pendurado em madeiro.
Para Saulo, portanto, a lógica era simples: o Messias deveria ser alguém com quem Deus estivesse presente, a quem Deus amasse e em quem se agradasse. Mas Jesus, evidentemente, havia sido abandonado por Deus — fora amaldiçoado, morrera num madeiro e ainda clamara perguntando por que havia sido desamparado. Que tipo de Messias seria esse? Que tipo de salvação um Messias assim poderia oferecer? Para Saulo e seus companheiros, a resposta era clara: aquilo não fazia sentido algum.
O ponto de virada veio no livro de Atos, capítulo 9, quando Saulo encontra o Cristo ressuscitado no caminho de Damasco. Ele viu a glória divina, ouviu a voz e perguntou: "Quem és tu, Senhor?" Para seu eterno espanto, ouviu a resposta: "Eu sou Jesus."
Saulo foi então cegado e passou alguns dias em Damasco, imerso em profunda reflexão. Depois de recuperar a visão, tornou-se um pregador cristão e começou a proclamar exatamente aquilo que a passagem de Lucas descreve: que a Lei de Moisés, os Salmos e os Profetas apontavam para Jesus como o Messias.
O que teria se passado na mente de Saulo durante aqueles dias de escuridão? Embora essa reconstrução envolva certo grau de inferência, ela se apoia amplamente nos próprios escritos posteriores de Paulo, que compõem boa parte do Novo Testamento. É razoável supor que seu raciocínio tenha seguido esta linha: se Jesus foi ressuscitado — e ele mesmo o viu — então Deus estava satisfeito com ele, Deus o havia vindicado, Deus o abençoara. Mas, se isso é verdade, então o clamor de abandono na cruz não podia significar que Jesus estivesse sendo punido por seus próprios pecados. Ele deve ter sido abandonado e amaldiçoado pelos pecados de outra pessoa.
A partir dessa constatação, tudo nas Escrituras hebraicas começa a se reorganizar sob nova luz — um processo que será explorado no próximo tópico, à medida que Paulo revisita Isaías, o sistema sacrificial, os profetas da nova aliança e a promessa a Abraão.
O Messias Fraco para os Fracos: A Chave que Une Toda a Bíblia
Seguindo esse raciocínio, Saulo volta-se para o livro de Isaías. A primeira parte do livro fala de um Messias forte, um rei poderoso. Já a segunda metade descreve um servo sofredor, que vem em fraqueza e morre pelos pecados do povo. À primeira vista, como poderiam essas duas figuras — o rei forte e o servo sofredor — ser uma única pessoa? A resposta que se impõe é Jesus.
Da mesma forma, ao refletir sobre todo o sistema sacrificial — o tabernáculo, o templo, os sacrifícios de touros e bodes —, a pergunta que surge é inevitável: faz sentido que o sangue de animais, de cordeiros abatidos, pudesse de fato expiar o pecado? Como o sangue de bois e cabras poderia realmente resolver essa questão? Fazia muito mais sentido que esses sacrifícios apontassem para outra coisa — para o sacrifício de Jesus.
O raciocínio prossegue com Jeremias e Ezequiel, profetas que anunciam uma nova aliança, na qual Deus enviaria seu Espírito diretamente à vida do povo, conhecendo-os pessoalmente, sem a necessidade aparente de sumos sacerdotes, sacrifícios, templos ou tabernáculos. Como isso seria possível? Novamente, a resposta aponta para Jesus.
Até mesmo a promessa feita a Abraão ganha novo sentido: Deus não prometera apenas fazer dele um povo numeroso, mas, por meio de seus descendentes, abençoar todas as nações da terra. Como isso se cumpriria? Mais uma vez, a resposta é Jesus.
Assim, o que Paulo compreendeu foi que havia esperado um Messias forte para um povo forte — alguém que reuniria um exército, liderando um povo virtuoso e fiel que seria recompensado com a salvação por sua força e retidão. Mas o que a Bíblia realmente ensinava, e o único entendimento capaz de unir coerentemente todas essas partes, era que o Messias seria fraco: viria em fraqueza, iria à cruz, tomaria sobre si o castigo que os pecados do povo mereciam e expiaria o pecado, abrindo caminho para que Deus entrasse diretamente na vida das pessoas. Trata-se, portanto, de um Messias fraco para aqueles que reconhecem sua própria fraqueza — para os que admitem ser pecadores, que reconhecem não serem fortes nem virtuosos por si mesmos, que se sabem falhos moralmente e necessitados de salvação unicamente pela graça.
Paulo não conseguia enxergar isso antes — e, de modo semelhante, qualquer pessoa também tem dificuldade de enxergar essa verdade sozinha. Jesus sabia que ninguém poderia compreender plenamente o conjunto das Escrituras até que ele fosse ressuscitado dos mortos. É a partir desse ponto de vista específico — o da ressurreição — que tudo passa a fazer sentido. Essa é a mensagem central da Bíblia, o evangelho, o núcleo de toda a revelação bíblica. Ao dizer aos discípulos "agora vocês podem ver isso", Jesus resume exatamente essa virada de compreensão.
A Ressurreição como a Mensagem de Esperança Mais Forte do Mundo
A última parte da passagem revela um terceiro ensinamento: além de ser um evento histórico que despedaça paradigmas e a chave para compreender toda a Escritura, a ressurreição é também a mais forte mensagem de esperança que o mundo pode receber.
Trata-se de uma afirmação ousada, mas sustentável. O próprio texto sustenta essa ideia no trecho final, quando Jesus resume a mensagem: o Messias haveria de sofrer e ressuscitar dos mortos, o arrependimento para o perdão dos pecados seria pregado em seu nome, os discípulos eram testemunhas dessas coisas, e seriam enviados ao mundo com essa mensagem. É justamente com essa mensagem que Jesus envia seus discípulos ao mundo — a mais elevada mensagem de esperança possível.
A razão para essa afirmação está ligada à própria natureza da esperança, que sempre se relaciona ao futuro. E o que a ressurreição de Jesus Cristo revela sobre o futuro é justamente o que será desenvolvido a seguir: quatro certezas fundamentais que decorrem diretamente do fato de que ele ressuscitou dos mortos.
Quatro Certezas que a Ressurreição Garante sobre o Futuro
A primeira certeza: existe um futuro.
Na época de Jesus, o filósofo grego Epicuro já defendia — assim como muitos hoje defendem — que a morte é o fim absoluto, que não há nada além dela. Um exemplo contemporâneo dessa visão é a declaração de Steve Jobs, pouco antes de morrer, ao afirmar que esperava que algo sobrevivesse, mas que era mais provável que a vida funcionasse como um interruptor de liga e desliga: ao morrer, simplesmente se desliga, e não resta mais nada. Jobs chegou a comentar, entre risos, que talvez fosse por isso que nunca colocara interruptores de liga e desliga nos produtos da Apple — mas concluiu dizendo acreditar que essa era, de fato, a realidade da morte.
Essa é, em essência, a visão predominante hoje: fora da escuridão, da fragilidade e da dificuldade desta vida, não existe futuro algum. A vida seria curta, difícil e, ao final, simplesmente terminaria. Mas se Jesus Cristo ressuscitou dos mortos, existe um futuro. As pessoas não são apenas pó ao vento, nem uma pedra que afunda para sempre. Assim como as testemunhas oculares da ressurreição souberam, naquele tempo, que havia um futuro, também hoje é possível crer nesse mesmo testemunho e ter a mesma certeza.
A segunda certeza: o futuro é pessoal.
Muitas visões de mundo afirmam que, de alguma forma, a pessoa continua existindo após a morte — mas apenas como parte da natureza, do universo, de um todo maior. Uma das versões mais populares e líricas dessa ideia é retratada no filme "O Rei Leão", em que a morte significa tornar-se parte do "ciclo da vida": o corpo se decompõe, fertiliza o solo, alimenta as plantas, que alimentam os animais, que por sua vez alimentam outros seres, e assim por diante. Religiões orientais expressam ideia semelhante ao afirmar que o mundo material é uma ilusão e que a identidade pessoal se dissolve na "grande alma universal" ao morrer. Os antigos filósofos estoicos gregos sustentavam pensamento parecido.
Mas é preciso ser honesto: o desejo mais profundo do coração humano não é simplesmente continuar existindo de forma difusa. O desejo mais profundo é amar e ser amado. E isso só é possível se a existência pessoal for preservada — ninguém pode amar e ser amado como mera "parte do ciclo da vida" ou como fragmento impessoal do universo.
Por essa razão, há algo de desonesto em dizer que não há nada a temer na morte simplesmente porque, de um jeito ou de outro, "tudo continua". Se aquilo que mais se deseja na vida é amar e ser amado, não há consolo genuíno na ideia de que, ao final, tudo o que resta é dissolução impessoal. Isso significa que, ao longo da vida, a morte irá gradualmente levando embora cada pessoa amada — e, por fim, na própria morte, tirará também a capacidade de amar e de ser amado, arrancando tudo o que realmente importa.
É exatamente aqui que a ressurreição de Jesus muda tudo. O que ele diz aos discípulos? "Sou eu mesmo." Não é uma força impessoal, não é uma energia difusa — é a mesma pessoa que os discípulos conheciam antes, agora com um novo corpo. Essa é a resposta que o coração humano realmente precisa; nenhum outro tipo de consolo é capaz de satisfazê-lo.
A terceira certeza: o futuro é certo.
Diversas religiões afirmam que, após a morte, a pessoa mantém sua individualidade em algum tipo de paraíso — desde que tenha vivido de maneira suficientemente boa, obedecendo às regras estabelecidas. O resultado é uma existência marcada pela insegurança e pelo medo constante de não ter feito o suficiente.
A ressurreição, porém, aponta para outra realidade. Quando Jesus Cristo morreu na cruz para pagar pelos pecados, e depois foi ressuscitado, isso significa que a dívida foi paga integralmente. Da mesma forma que uma pena de prisão de cinco anos se encerra quando o tempo é cumprido — não havendo mais nenhuma reivindicação pendente —, quando Jesus foi à cruz e assumiu tudo o que os pecadores mereciam, sua ressurreição é a confirmação de que o pagamento foi aceito. Não resta mais nada a ser pago.
Essa realidade pode ser comparada à experiência de sair de uma loja como um grande atacadista, onde funcionários conferem o recibo de compra na saída como garantia de que nada foi deixado sem pagamento. A ressurreição funciona como um recibo gigantesco, estampado sobre toda a história, atestando que, para aqueles que creem em Jesus Cristo, a dívida está paga integralmente. Não há motivo para dúvida ou insegurança: o futuro não é apenas real e pessoal — ele é certo.
A quarta certeza: o futuro é inimaginavelmente maravilhoso.
Outras religiões prometem um futuro pessoal em algum tipo de paraíso, mas nenhuma outra promete ressurreição. Nenhuma outra tradição religiosa afirma que, para quem crê em Jesus Cristo, a vida futura não será uma existência puramente espiritual em algum plano etéreo — mas sim um novo corpo, físico e concreto. É exatamente isso que Jesus demonstra ao dizer "sou eu mesmo", em carne e ossos, embora com um corpo renovado.
Essa dimensão física do futuro contrasta com a sensação, tão presente na experiência humana, de irrecuperabilidade das perdas da vida — expressa, por exemplo, no célebre poema "O Corvo", de Edgar Allan Poe, escrito após o fim de um relacionamento, com seu refrão insistente: "nunca mais". Há, na vida adulta, uma consciência crescente de que oportunidades perdidas não voltam, que a juventude não retorna, que certos momentos e lugares — como uma casa de férias à beira de um lago, visitada por décadas e hoje desaparecida junto com parte da própria praia — se vão para sempre.
A ressurreição, contudo, contraria essa lógica de perda irrecuperável. A salvação prometida por Jesus não é apenas consolo pelo que se perdeu — é a restauração do que se perdeu. E mais do que isso: não se trata de simplesmente recuperar o corpo antigo, mas de receber o corpo que nunca se teve, a vida que sempre se desejou. Não há mais irrecuperabilidade. Sonhos não realizados — como o desejo de ter se casado e experimentado a plenitude de uma união conjugal, algo que pareça definitivamente perdido — não permanecem perdidos, se a ressurreição de Jesus Cristo for verdadeira. Nada será deixado para trás, porque o futuro prometido é um futuro material, novos céus e nova terra: não apenas a restauração da vida que se teve, mas da vida que sempre se quis e nunca se teve.
O futuro existe. O futuro é pessoal. O futuro é certo. E o futuro é inimaginavelmente maravilhoso. Para quem crê que Jesus ressuscitou dos mortos, essas quatro certezas se tornam fundamento sólido de esperança.
Conclusão: "Jesus Vive, e Assim Também Eu Viverei"
Diante dessas quatro certezas, resta apenas uma resposta possível para quem crê que Jesus ressuscitou: a certeza expressa nas palavras do hino, entoado como fechamento da reflexão:
"Jesus vive, e assim também eu viverei. Morte, onde está o teu aguilhão? O aguilhão da morte se foi para sempre. Aquele que se dignou a morrer por mim vive para vencer as amarras da morte. Jesus vive, e a morte é agora apenas minha entrada na glória. Coragem, então, minha alma, pois há uma coroa de vida diante de ti. Ele me levantará do pó. Jesus é minha esperança e minha confiança. Ele somente é minha alegria, meu prêmio. Jesus vive, e assim também eu viverei."
A conclusão que se impõe é pastoral e prática: se a esperança da ressurreição é real, ela deve marcar permanentemente quem crê — com sua beleza, seu poder, sua alegria — a ponto de capacitar essa pessoa a enfrentar qualquer circunstância da vida, inclusive as perdas, sabendo que não existe, para quem está em Cristo, perda verdadeiramente irrecuperável.
É essa a mensagem central que a passagem de Lucas 24 revela: a ressurreição de Jesus não é um símbolo bonito para inspirar otimismo diante das dificuldades da vida. É um evento histórico real, que se tornou a chave para compreender toda a Escritura e o fundamento da esperança mais sólida que existe — uma esperança pessoal, certa e, ao final, inimaginavelmente maior do que tudo o que já se perdeu.
Gospel In Life. Clothed with Power (Easter) – Timothy Keller [Sermon]. https://www.youtube.com/watch?v=qVMOaaky9Ec.
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