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João 17:6-26: No Mundo, Mas Não do Mundo: A Última Oração de Jesus e a Missão da Igreja (Ap. 21:1-5)

A oração de Jesus a caminho do Getsêmani: o relato exclusivo de João

Há orações que resumem uma vida inteira. Quando alguém percebe que se aproxima o fim de sua jornada, as palavras que dirige a Deus tendem a revelar aquilo que verdadeiramente importa. É nesse ponto de gravidade espiritual que se encontra o texto de João 17: uma oração pronunciada por Jesus a caminho do Getsêmani, poucas horas antes de sua prisão, julgamento e crucificação.

Os evangelhos sinóticos — Mateus, Marcos e Lucas — registram a oração de Jesus já dentro do jardim do Getsêmani, no momento em que os discípulos adormeciam enquanto Ele orava em agonia. A oração de João 17, contudo, parece anteceder aquele instante. João é o único evangelista a relatá-la, e essa exclusividade não é acidental. Há um propósito especial na escolha de preservar justamente estas palavras, pronunciadas na fronteira entre a última ceia e o caminho rumo à cruz.

A narrativa sugere que os discípulos testemunharam essa oração. Ao menos João a presenciou e a registrou. E aqui vale uma observação sobre o método teológico: em muitos pontos, a teologia trabalha com probabilidades. Não temos a data exata, o horário preciso, o momento em que Jesus se levantou da mesa e partiu para o jardim. Diante da ausência de certeza cronológica, é honesto e prudente dizer "provavelmente". E, provavelmente, esta foi uma das últimas vezes — talvez a última — em que Jesus orou perto de seus discípulos e intercedeu por eles dessa maneira.

O texto que abre essa seção da oração se estende do versículo 6 ao 19:

"Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste. Eram teus, tu mos confiaste, e eles têm guardado a tua palavra. [...] Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal. Eles não são do mundo, como também eu não sou do mundo. Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. E a favor deles eu me santifico a mim mesmo, para que eles também sejam santificados na verdade." (João 17:6, 15-19)

O peso dessas palavras está no que elas escolhem pedir. Jesus sabia o que O aguardava. Sabia que, a partir do Getsêmani, seria preso, levado ao Sinédrio, entregue a Pilatos e conduzido à cruz. Diante desse horizonte, o conteúdo de sua oração se torna extraordinariamente revelador. Não há pedidos por si mesmo em termos de conforto ou fuga. Há intercessão. Há cuidado com aqueles que ficariam.

Essa constatação inicial nos conduz a uma pergunta que atravessa todo o restante da meditação sobre este capítulo: o que passava na mente de Jesus para que Ele, tão próximo do próprio sofrimento, dedicasse aquele momento a orar pelos seus? E, por extensão, o que revelaria de nós aquilo que pediríamos a Deus, em favor de quem amamos, na última hora de nossas vidas?


O que se pede na última hora: prioridades reveladas diante da morte

Há uma pergunta que raramente fazemos a nós mesmos, mas que talvez devêssemos: que tipo de oração faríamos ao fim de nossa vida? A morte nem sempre chega de modo abrupto. Às vezes ela se anuncia, avança lentamente, e concede tempo para que se pense, se ore e se despeça. Jesus, naquele momento, sabia que a hora se aproximava. Sabia o caminho: o jardim, a prisão, o julgamento, a cruz.

Diante desse conhecimento, vale perguntar o que passava em sua mente para que escolhesse orar por seus discípulos. E, num movimento de aplicação inevitável, cabe transferir a pergunta para nós: o que pediríamos a Deus, em favor daqueles que amamos, se soubéssemos que restam poucas horas?

É provável que, nesse limiar, muitas das coisas com que tanto nos preocupamos deixem de parecer importantes. Dificilmente alguém, à beira da morte, oraria por dinheiro, por fama, por prestígio social ou por recolocação profissional. Essas preocupações, que consomem tantas de nossas energias diárias, tendem a se dissolver diante da consciência da finitude. O que permanece é outra ordem de prioridade — mais essencial, mais humana, mais espiritual.

A oração de Jesus revela justamente essa ordem. Sua intenção era objetiva: que Deus guardasse os seus. E o motivo dessa súplica está ligado a uma transição que Ele mesmo descreve. Assim como o Pai O havia enviado ao mundo, Ele agora enviava os discípulos. E, enquanto antes estivera fisicamente presente entre eles, agora partiria. A ausência iminente é o pano de fundo de todo o pedido.

"É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus." (João 17:9)

O contraste com a oração humana comum é gritante. Aquilo que costuma ocupar o centro de nossas ansiedades — segurança material, reconhecimento, realização pessoal — não aparece. No lugar disso, surge um cuidado pastoral profundo: que os discípulos permaneçam guardados, unidos e cheios da alegria que só o próprio Cristo pode conceder.

Essa inversão de prioridades funciona como um espelho. Ela não serve apenas para admirarmos o caráter de Jesus, mas para nos confrontar. Se a proximidade da morte tem o poder de revelar o que realmente importa, então talvez o exercício espiritual mais sábio seja viver, desde já, à luz dessa clareza. Ordenar a vida a partir daquilo que permaneceria valioso na última hora é, em certo sentido, aprender a orar como Jesus orou — colocando pessoas, comunhão e fidelidade a Deus acima das coisas que o tempo consome e leva.

E é precisamente essa distinção entre "as pessoas" e "o mundo" que Jesus torna explícita em seguida, ao afirmar que não roga pelo mundo. Esse ponto, que à primeira vista pode soar surpreendente, merece atenção cuidadosa.


"Não rogo pelo mundo": a preocupação de Jesus com as pessoas, não com o sistema

Há uma frase na oração de Jesus que, à primeira leitura, pode causar certo estranhamento: "não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste" (João 17:9). O estranhamento surge porque esse mesmo evangelho já havia afirmado, em um dos versículos mais conhecidos das Escrituras, que "Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito" (João 3:16). Como conciliar as duas afirmações? Como pode o Filho, enviado por amor ao mundo, agora declarar que não ora pelo mundo, mas apenas por aqueles que o Pai lhe deu — e, mais adiante no mesmo capítulo, também por aqueles que viriam a crer por meio da palavra dos apóstolos?

A chave para compreender essa aparente tensão está no sentido da palavra "mundo" em cada contexto. Quando João 3:16 fala do amor de Deus pelo mundo, refere-se à humanidade como objeto do amor redentor — é por isso que o Filho foi enviado. Mas quando Jesus, em sua oração, diz que não roga pelo mundo, Ele está se referindo a outra realidade: o mundo como sistema, como estrutura decaída, como o conjunto caótico de valores e poderes que se organizou em oposição a Deus. Não se trata das pessoas em si, mas da ordem corrompida que as governa.

Essa distinção é central para toda a teologia joanina. A preocupação de Jesus não está voltada para o sistema-mundo, para sua dimensão mais material ou estrutural. Sua preocupação está voltada para as pessoas. E há uma razão teológica profunda para isso: o mundo, entendido como sistema caído, é apenas uma resultante daquilo que as pessoas se tornaram após a queda. Não foi o mundo que corrompeu o ser humano; foi a decisão humana que produziu as condições de um mundo corrompido.

Essa lógica remonta ao relato da queda em Gênesis. O pecado de Adão não produziu apenas consequências espirituais ou morais restritas ao indivíduo — produziu consequências cósmicas. A terra passou a produzir espinhos e ervas daninhas; o ser humano passou a precisar tirar da terra o seu sustento com o suor do rosto. Há, portanto, uma conexão direta entre a decisão humana de servir ou não servir a Deus e o estado do mundo material como um todo. O desajuste cósmico é reflexo do desajuste humano.

Isso explica por que Jesus concentra sua oração nas pessoas que o Pai lhe deu, e não no sistema-mundo como tal. Seu alvo não é reformar estruturas, mas guardar aqueles que já foram tirados, pela fé, da lógica que rege esse sistema. A oração de Jesus, portanto, não é uma negação do amor de Deus pelo mundo — esse amor permanece a base de toda a obra redentora —, mas um reconhecimento de que a ação salvífica se concretiza pessoa a pessoa, e não pela transformação do sistema em si.

Há ainda um elo interessante entre este ponto e um tema já trabalhado em ocasião anterior: o desejo humano de conhecer o mal. Foi por meio desse desejo, na origem, que o mal encontrou lugar no mundo. E, por uma espécie de simetria espiritual, é exatamente pelo desejo de conhecer a Cristo que os seres humanos são salvos. O conhecer, em ambos os casos, é decisivo: conhecer o mal trouxe a queda; conhecer a Cristo traz a redenção.

É dentro dessa moldura que Jesus formula o pedido central desta parte da oração: que aqueles que o Pai lhe deu permaneçam unidos, como um só corpo, refletindo a mesma unidade que existe entre o Pai e o Filho. Esse pedido pela unidade da Igreja é o assunto que se segue.


As consequências cósmicas do pecado e a natureza do mal

Compreender a oração de Jesus por proteção contra o mal exige uma reflexão mais detida sobre o que, de fato, é o mal. Trata-se de uma pergunta antiga, mas cuja resposta bíblica foge de explicações simplistas. O mal não é uma substância, não é uma força criada por alguém, não é um elemento que Deus tenha colocado no mundo ao lado do bem, como se ambos fossem peças equivalentes de um mesmo tabuleiro.

O mal é, antes, consequência. Ele surge quando alguém decide se afastar de Deus e arrogar para si o governo sobre o que é bem e o que é mal — usurpando, assim, uma prerrogativa que pertence exclusivamente ao Criador. Essa foi precisamente a dinâmica da queda: o desejo humano de determinar por si mesmo os critérios do bem e do mal, à parte da Palavra de Deus.

Uma analogia ajuda a esclarecer esse ponto. Ninguém "cria" a ferrugem. A ferrugem não é um material fabricado; ela é a consequência natural da degeneração do ferro quando exposto a determinadas condições. Da mesma forma, o mal não é uma criação com existência própria, mas a consequência da ausência de Deus. A luz, por sua vez, é objetiva: ela existe e ilumina. Onde ela não está, instala-se a escuridão — não porque a escuridão tenha sido criada, mas porque é, simplesmente, a ausência da luz. O mal, de modo análogo, é a ausência de Deus operando sobre a realidade humana e cósmica.

Essa forma de compreender o mal tem implicações importantes. Ela indica que a origem histórica da corrupção — tanto humana quanto cósmica — remonta à imagem de Adão, e não à imagem de Cristo. Adão representa aquele que deseja conhecer e ser governado pelo mal; Cristo representa a nova humanidade, resgatada dessa lógica. Antes da obra de Cristo, a humanidade se assemelhava muito mais à imagem de Adão do que à imagem do Filho de Deus.

É justamente contra esse pano de fundo que se compreende o pedido de Jesus na oração: "Não rogo que os tires do mundo, mas que os guardes do mal" (João 17:15). O pedido não é para que os discípulos sejam removidos da existência terrena ou poupados das dificuldades naturais da vida — afinal, todos, cristãos ou não, passam por provações. O pedido é para que sejam livres do domínio, do governo, da lógica que o mal impõe sobre a existência humana decaída. Isso é distinto de pedir livramento das dificuldades circunstanciais; trata-se de pedir libertação de uma estrutura de governo espiritual.

Vale observar, inclusive, uma escolha de tradução relevante nesse ponto. Eugene Peterson, ao produzir a paráfrase conhecida como "A Mensagem", optou por traduzir "mal" como "o maligno" — uma hipótese interpretativa razoável, embora o texto grego original utilize de fato o termo "mal", e não uma referência direta e pessoal ao diabo. De todo modo, a ideia central permanece: Jesus não pede que os discípulos sejam poupados dos efeitos desse mundo caído — que continua caminhando para seu fim —, mas pede que eles não estejam mais sob o governo do mal. As lutas e dificuldades da vida cristã, nessa perspectiva, não deixam de existir; elas simplesmente deixam de conduzir ao domínio do mal e passam a conduzir à cruz, e por meio dela, a Cristo.

Esse entendimento sobre a natureza do mal prepara o terreno para o pedido central que Jesus formula em seguida: que os discípulos sejam guardados e, sobretudo, que permaneçam unidos, como reflexo da unidade que existe entre o Pai e o Filho.


"Que sejam um": a unidade da Igreja como corpo de Cristo

No coração da oração de Jesus está um pedido que se repete e se aprofunda ao longo de todo o capítulo: que os discípulos sejam um, assim como o Pai e o Filho são um. Esse pedido aparece já nos versículos 9, 10 e 11, e retorna com ainda mais ênfase na parte final da oração. Jesus não está pedindo apenas cordialidade entre os discípulos, mas uma unidade profunda, capaz de refletir a própria unidade trinitária.

"Guarda-os em teu nome, que me deste, para que sejam um, assim como nós somos um." (João 17:11)

Essa não é a primeira vez que Jesus fala sobre esse tipo de unidade. Já em João 14:20, Ele havia dito aos discípulos: "Naquele dia, conhecereis que estou em meu Pai, e vós em mim, e eu em vós." A relação entre Deus e o Filho se estende, portanto, à relação entre o Filho e seus seguidores — e, por consequência, à relação dos seguidores entre si.

É importante compreender o que essa unidade não significa. A igreja não deve ser entendida como uma instituição da qual alguém se orgulha, da mesma forma que se sente orgulho por um time de futebol ou por pertencer a determinado grupo social. Não se trata de um orgulho de pertencimento, de poder dizer "eu sou de tal lugar" ou "eu faço parte de tal comunidade" como quem ostenta um distintivo. Essa forma de entender a igreja é, no fundo, uma banalização de algo muito mais profundo.

A unidade pela qual Jesus ora tem uma dimensão prática concreta: é a comunhão real entre irmãos, o sustento mútuo nos momentos de dificuldade, a certeza de que existe uma comunidade orando e cuidando uns dos outros. Há relatos que ilustram bem essa realidade — pessoas que, ao atravessar perdas profundas, como a morte de um familiar, descobriram na comunhão da igreja o apoio que lhes faltava, incluindo irmãos que estiveram fisicamente presentes até nos momentos mais difíceis, como o sepultamento de um ente querido. Esse tipo de sustento mútuo é uma expressão concreta daquilo que Jesus pediu ao Pai.

A oração por unidade, portanto, não é sobre uniformidade institucional ou identidade coletiva superficial. É sobre uma comunhão que reflete, em escala humana, a comunhão perfeita que existe entre o Pai e o Filho — e que se manifesta no cuidado real, na presença mútua e no compromisso de caminhar juntos, especialmente diante das dificuldades da vida.

Essa unidade, contudo, está intimamente ligada a outro elemento do pedido de Jesus: que os discípulos experimentem, mesmo em meio às dificuldades do mundo, a alegria completa que Ele mesmo possui. Esse é o próximo aspecto da oração que merece atenção.


A alegria completa que não está sitiada neste mundo

Logo após pedir pela unidade dos discípulos, Jesus acrescenta um elemento surpreendente ao seu pedido: que eles tenham a sua alegria completa em si mesmos. É um pedido que merece atenção cuidadosa, porque revela algo sobre onde, segundo Jesus, a verdadeira alegria pode ser encontrada — e onde ela não pode.

"Mas agora vou para junto de ti e, enquanto ainda estou no mundo, digo estas coisas para que eles tenham a minha alegria completa em si mesmos." (João 17:13)

Esse pedido não é isolado. Jesus já havia dito algo semelhante antes, na conhecida passagem da videira, em João 15:10-11: "Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor. Tenho-vos dito estas coisas para que o meu gozo esteja em vós e o vosso gozo seja completo." Na oração, Jesus retoma essa mesma promessa e a transforma em súplica ao Pai: que aquela alegria, já prometida aos discípulos, de fato se cumpra e permaneça neles.

Há algo digno de nota nesse pedido: Jesus não ora para que os discípulos encontrem alegria neste mundo. Isso não significa negar que existam, de fato, momentos de alegria genuína na vida terrena — eles existem, e são reais. O que se afirma é que a verdadeira alegria, a alegria completa, não pode estar ancorada nas coisas deste mundo. As coisas materiais vêm e vão; o dinheiro surge e se esvai; os objetos novos que adquirimos se tornam velhos com o tempo. Tudo que é bom, nesta realidade, tende a se deteriorar — inclusive nós mesmos.

Existe uma espécie de fé ilusória, bastante disseminada, que sustenta a ideia de que, nesta terra, seria possível alcançar plenitude e felicidade perfeitas. Essa crença é, na verdade, uma mentira reconfortante, mas vazia. E é exatamente contra essa ilusão que a oração de Jesus se posiciona: Ele deseja que sua alegria — não a alegria fabricada pelas circunstâncias favoráveis do mundo — esteja completa nos discípulos.

Há um ditado cristão comum que resume essa ideia: "a alegria do Senhor é a nossa força". A frase é repetida com frequência, muitas vezes de maneira automática, mas raramente vivida em sua profundidade real. É comum que, diante de dificuldades reais, muitas pessoas caiam em desânimo profundo, e que, se alguém tentar consolá-las citando esse mesmo versículo de forma superficial, a reação seja de irritação, não de conforto. Isso revela que a frase, embora verdadeira, exige mais do que repetição: exige uma compreensão que só se sustenta ancorada em algo além das circunstâncias imediatas.

Essa reflexão encontra eco nas palavras do apóstolo Paulo, quando ele afirma que, se a esperança cristã se limitasse apenas às coisas vividas nesta vida terrena, seríamos os mais miseráveis de todos os homens (cf. 1 Coríntios 15:19). A verdadeira alegria, portanto, não está condicionada às circunstâncias favoráveis desta existência. Ela está ancorada na esperança de Cristo, que permanece firme mesmo em meio à aflição. É essa certeza — de que Ele está conosco — que sustenta os cristãos no dia da batalha, e é essa mesma alegria que permanece mesmo quando as circunstâncias externas são adversas.

Esse entendimento sobre a alegria prepara terreno para compreender a relação mais ampla entre os discípulos e o mundo: eles permanecem nele, mas não pertencem a ele. Essa tensão — estar no mundo sem ser do mundo — é o próximo tema a ser desenvolvido.


No mundo, mas não do mundo: uma relação de missão, não de paixão nem de fuga

Um dos aspectos mais marcantes da oração de Jesus é a maneira como Ele descreve a relação entre os discípulos e o mundo. Jesus afirma que lhes deu a palavra do Pai, e que, por isso, o mundo os odiou — porque eles não são do mundo, assim como Ele também não é do mundo. Essa declaração merece atenção cuidadosa, pois estabelece uma distinção fundamental entre "estar em" e "pertencer a".

"Eu lhes tenho dado a tua palavra, e o mundo os odiou, porque eles não são do mundo, como também eu não sou do mundo." (João 17:14)

Jesus, de fato, não era deste mundo. Ele entrou nessa realidade, viveu nela e partiu. Os discípulos, por sua vez, são originalmente "daqui" — nasceram nessa realidade terrena. Há, portanto, uma diferença de origem entre Ele e eles. Ainda assim, Jesus se fez como um daqueles que vivem nesta terra: assumiu a condição humana e entrou na realidade existencial de dor que caracteriza a experiência humana, embora sua origem estivesse muito além dela.

E é justamente para isso que Ele veio: para nos mostrar um caminho diferente, para nos desligar da única realidade que, de outro modo, nos engoliria por completo. Essa realidade imediata — visível, palpável, sensorial — tem um poder de absorção extraordinário. Os olhos humanos se fixam tão intensamente nas coisas que podem ver que acabam perdendo de vista a realidade transcendente do Reino de Deus, mesmo em meio às experiências vividas neste mundo.

Essa é, no fundo, a mesma dinâmica que se instalou desde a queda de Adão: o desejo de conhecer o mal levou à submissão a ele. Da mesma forma, os seres humanos, embora gerados por Deus, são constantemente engolidos pela lógica deste mundo — uma lógica que opera desde as origens da humanidade.

Diante dessa realidade, Jesus não pede que os discípulos sejam retirados do mundo. Ele pede, especificamente, que sejam guardados do mal. E essa distinção é crucial para compreender a relação correta entre o cristão e o mundo: não se trata de uma relação de paixão — como se o mundo fosse o objeto do amor e da devoção do crente —, nem tampouco de uma relação de fuga — como se a única resposta espiritualmente válida fosse o isolamento ou a separação física das realidades cotidianas.

A relação correta, segundo a oração de Jesus, é uma relação de missão. Os discípulos permanecem no mundo, mas não estão mais ligados ao sistema que o rege, porque pertencem a Cristo. Eles continuam habitando essa realidade terrena, mas o fazem levando consigo o amor de Deus e sinalizando a presença do Reino, mesmo em meio a um sistema que ainda opera sob a lógica da queda.

Essa compreensão evita dois erros comuns na vida cristã. O primeiro é o erro do engajamento apaixonado com as estruturas do mundo, como se a fé cristã devesse se identificar plenamente com os sistemas, ideologias ou conquistas terrenas. O segundo é o erro do isolamento, como se a santidade exigisse retirada física da convivência com o mundo. Nenhum dos dois caminhos corresponde ao que Jesus pede. Ele pede, antes, santificação — um conceito que, embora frequentemente mal compreendido, é o que possibilita essa permanência missionária no mundo sem submissão à sua lógica.

Esse é precisamente o tema que a oração desenvolve em seguida: o que significa, de fato, ser santificado, e por que essa santificação não equivale a distanciamento físico do mundo, mas a um processo interior operado pela Palavra de Deus.


Santificação na verdade: um processo interior pela Palavra, não um distanciamento físico

Depois de pedir que os discípulos sejam guardados do mal, Jesus formula um pedido complementar e decisivo: "Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade" (João 17:17). Esse pedido merece uma reflexão cuidadosa, pois o conceito de santificação é frequentemente mal compreendido na vida cristã, sendo reduzido a uma ideia de separação física ou a uma espécie de investidura mágica.

A palavra "santificado" carrega, em sua raiz, o sentido de "separado". Deus, com "S" maiúsculo e artigo definido — o Santo —, é aquele que está completamente separado da realidade humana e cósmica. Ele existe em uma dimensão radicalmente distinta da nossa, muito acima da dimensão em que se desenrola a existência humana. Sendo assim, quando os seres humanos são santificados, eles são, de alguma forma, separados dessa realidade que os engole — a realidade do sistema-mundo caído.

Mas o modo como Jesus pede essa separação é revelador: "Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade". A santificação, portanto, não se opera por meio de um distanciamento físico das pessoas ou dos ambientes considerados profanos. Não se trata de evitar fisicamente o contato com determinados lugares, grupos ou situações, como se a proximidade física com o que é impuro contaminasse automaticamente o crente. Se essa fosse a lógica da santificação, seria necessário viver isolado, como um eremita recluso numa montanha ou numa caverna — solução que, aliás, não tornaria ninguém mais santo, apenas fisicamente distante.

A vida cotidiana, no trabalho, nos relacionamentos sociais e profissionais, coloca o cristão em contato constante com toda sorte de pessoas e circunstâncias — boas e más. Se a exigência da santidade fosse o distanciamento físico absoluto, seria impossível cumpri-la enquanto se vive normalmente no mundo. Mas a santidade, na verdade, é uma separação que acontece internamente, no coração, e que é resultado de um processo, não de um evento isolado ou de uma fórmula mágica.

Esse processo se dá por meio da Palavra de Deus. Cada vez que a Palavra confronta o crente, e ele responde com uma decisão de seguir a Cristo, ocorre um afastamento — não físico, mas espiritual e moral — daquilo que é prejudicial. A separação de algo pernicioso é, assim, o resultado de uma vida vivida sob a Palavra, que vai purificando e transformando o crente ao longo do tempo. Jesus já havia dito algo semelhante na parábola da videira, em João 15:3: "Vós já estais limpos, por causa da palavra que vos tenho falado." A cada nova compreensão, a cada aplicação da Palavra à vida, ocorre uma purificação incremental — um "passo a mais" na caminhada espiritual.

Essa compreensão evita um equívoco comum: tratar a santificação como um "dom" instantâneo, uma unção mágica que confere pureza de uma só vez. Não é esse o modelo bíblico. A santificação é um processo contínuo de vida na Palavra e em comunhão com Deus, que purifica genuinamente e conduz a decisões concretas sobre a própria conduta. E é justamente essa santificação processual que capacita o cristão a permanecer no mundo — não mais pertencendo à sua lógica, mas cumprindo nele uma missão específica, tema que será desenvolvido a seguir.


Enviados ao mundo: guardados do mal para cumprir uma missão

Depois de pedir a santificação dos discípulos, Jesus articula o propósito final desse pedido: "Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo" (João 17:18). Há, nessa frase, uma inversão que merece destaque: os discípulos não são mais do mundo, mas são, precisamente por isso, enviados a ele. A santificação não os retira da missão; ela é o que torna a missão possível.

Essa lógica é surpreendente quando observada com atenção. Se os discípulos não pertencem mais ao sistema-mundo, por que continuariam nele? A resposta está no propósito do próprio envio. Assim como o Pai enviou o Filho ao mundo — não para que Ele se conformasse à lógica do sistema caído, mas para que cumprisse uma missão de redenção —, os discípulos são enviados na mesma condição: presentes no mundo, mas operando sob uma lógica distinta daquela que rege o sistema ao seu redor.

Há, nesse ponto, um convite implícito à verificação pessoal e cuidadosa das Escrituras. A postura correta diante de qualquer ensino — inclusive este — é semelhante à atitude dos crentes bereanos, mencionados em Atos 17:11, que recebiam a pregação de Paulo com prontidão, mas depois examinavam as Escrituras diariamente para confirmar se aquilo que haviam ouvido correspondia, de fato, à verdade. Diante de qualquer explicação sobre um texto tão denso quanto João 17, essa mesma postura de verificação pessoal continua sendo a mais saudável.

O quadro geral, então, é este: Jesus está retornando à glória junto ao Pai. Enquanto esteve no mundo, guardou os discípulos, e nenhum se perdeu, exceto aquele chamado de "filho da perdição" — referência a Judas, cuja traição, segundo se sugere, encontra ecos proféticos em textos como Salmos 41:9 e Zacarias 11:12-13, este último mencionando as trinta moedas de prata lançadas ao oleiro no templo. Agora, porém, Jesus parte, e o cuidado sobre os discípulos passa a ser objeto direto de sua intercessão ao Pai: que Ele os guarde, que os livre do mal, e que — mesmo sem serem retirados do mundo — sejam santificados pela Palavra para que continuem nele como pertencentes a Deus, e não mais dedicados ao sistema que os cercava.

Esse é o núcleo da missão cristã, tal como formulado nesta oração: permanecer no mundo, guardado e protegido do domínio do mal, santificado pela verdade, e enviado com o mesmo propósito redentor que caracterizou o próprio envio do Filho. No fim das contas, aquilo que verdadeiramente sustenta essa missão não é a força humana, mas a graça e o amor de Deus, que envolvem, protegem e conduzem os que foram enviados.

Essa compreensão da missão cristã no mundo se conecta de maneira surpreendente a outro livro do Novo Testamento, também atribuído ao apóstolo João: o Apocalipse. A relação entre esses dois escritos — a oração de Jesus em João 17 e a visão profética registrada em Patmos — revela uma continuidade teológica que merece ser explorada com atenção.


Apocalipse como revelação: a batalha que sempre existiu e a vitória da cruz

Compreender adequadamente a oração de Jesus em João 17 exige, em determinado momento, um deslocamento para outro escrito do mesmo apóstolo: o livro do Apocalipse. Essa conexão não é arbitrária. Há uma hipótese, sustentada por evidências de pais da igreja como Irineu de Lyon, de que João teria escrito seu evangelho depois de sua experiência de exílio na ilha de Patmos, onde recebeu a visão registrada no Apocalipse — possivelmente já estabelecido em Éfeso nesse período posterior. Embora a datação exata dos escritos joaninos permaneça hipotética, como ocorre com boa parte da cronologia bíblica, a proximidade temática entre os dois textos é notável.

Antes de explorar essa conexão, porém, é necessário esclarecer um mal-entendido comum sobre o próprio significado da palavra "apocalipse". O termo não significa "profecia futura" nem descreve exclusivamente eventos que ainda vão acontecer. Quando alguém pergunta "onde começa o apocalipse?", essa pergunta já revela um entendimento equivocado do gênero literário, pois a palavra apocalipse significa, literalmente, revelação. Trata-se de descortinar uma realidade que já existe, e não de iniciar um processo novo.

De fato, uma leitura cuidadosa do Apocalipse, feita à luz de autores sérios sobre o tema, revela que grande parte de seu conteúdo é de natureza preterista, e não futurista. O livro retoma extensivamente imagens e estruturas já presentes em Daniel, Joel, Isaías e Jeremias — a figura dos reinos, da estátua, dos símbolos proféticos. É como se alguém abrisse uma cortina e mostrasse a João aquilo que já estava acontecendo nos bastidores da história, desde muito antes, exatamente como os profetas anteriores já haviam anunciado.

Essa perspectiva revela algo essencial: o Apocalipse mostra a existência de uma oposição constante entre o reino das trevas e o Reino de Deus — uma batalha que não começa no futuro, mas que já é tão presente quanto foi no passado. O livro revela a origem da luta espiritual vivida na existência humana, com um detalhe fundamental: Cristo já venceu essa batalha. Essa vitória é anunciada já no capítulo 5 do Apocalipse, onde o Cordeiro que foi morto aparece assentado no trono — uma imagem que resume o cerne da mensagem cristã: foi na cruz que tudo se resolveu.

Esse entendimento tem implicações pastorais profundas. Quando o Apocalipse foi escrito, funcionou como consolo para os irmãos que enfrentavam perseguição sob o domínio romano, e que conheciam bem as profecias de Daniel, Isaías, Jeremias e Joel, além dos próprios discursos escatológicos de Cristo. Ler o Apocalipse, naquele contexto de perseguição crescente, era uma forma de dizer: "fiquemos em paz, porque o Cordeiro já venceu". A vitória não era uma esperança distante, mas uma realidade já consumada na cruz — como o próprio Jesus declarou ao dizer "está consumado".

Existem interpretações que sugerem que a obra da cruz não teria sido suficiente, e que Cristo ainda precisaria realizar algo adicional para completar a salvação. Mas essa hipótese contradiz a própria declaração de Jesus na cruz. A grande tribulação, o agravamento do estado de conflito espiritual entre os reinos, não é algo que "vai começar" em algum momento futuro específico — a oposição do reino das trevas contra o Reino de Deus sempre existiu. O que se observa ao longo da história é uma intensificação desse estado tribulacional, não seu início. O Apocalipse não anuncia um começo; ele revela algo que já está em curso.

Esse pano de fundo — a batalha espiritual que sempre existiu e a vitória já consumada na cruz — é o que confere sentido pleno à oração de Jesus em João 17. Os discípulos permanecem no mundo, mas Jesus já pediu que fossem livres do domínio do mal e santificados pela verdade, para que, enviados como Ele foi enviado, cumpram sua missão sabendo que a vitória final já está garantida. É precisamente esse horizonte de esperança que conduz a outro texto do Apocalipse, no capítulo 21, que descreve a consumação final dessa vitória: a descida da nova Jerusalém e a instauração de uma nova realidade, plena e eterna.


A nova Jerusalém e a eternidade material: a esperança que desce do céu (Ap. 21:1-5)

A conexão entre a oração de Jesus em João 17 e o livro do Apocalipse encontra seu ponto culminante no capítulo 21, que descreve uma visão de natureza mais explicitamente futurista sobre a consumação de todas as coisas. O texto, em seus primeiros cinco versículos, apresenta uma das imagens mais esperançosas de toda a Escritura:

"Vi um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, preparada como noiva ornamentada para o seu noivo. [...] Ele lhes enxugará dos olhos toda lágrima. Já não haverá morte, nem pranto, nem clamor, nem dor, porque já as primeiras coisas passaram." (Apocalipse 21:1-2, 4)

Um detalhe merece destaque especial nesse texto: a nova Jerusalém não é algo que os seres humanos alcançam por meio de ascensão; ela desce do céu para a terra. Essa direção do movimento é teologicamente significativa. Não é a humanidade que sobe para alcançar Deus, mas Deus que desce para habitar com a humanidade. É por essa razão que se fala em "segunda vinda" — porque é Ele quem vem, e não nós que vamos.

Essa imagem revela algo essencial sobre a natureza da esperança cristã: ela não é uma esperança etérea ou puramente espiritual, no sentido de uma existência incorpórea e desprovida de materialidade. Pelo contrário, a esperança bíblica aponta para uma eternidade material — uma nova terra, uma nova realidade física, mas revestida de perfeição. O apóstolo Paulo trabalha essa mesma ideia em Romanos 8, ao afirmar que toda a criação, e os próprios seres humanos, gemem aguardando a redenção final. Em 1 Coríntios 15, Paulo acrescenta que aquilo que hoje é corruptível — que envelhece, se desgasta e está sujeito ao pecado — se transformará em algo incorruptível. A eternidade cristã, portanto, é uma realidade física, porém plenamente redimida.

Essa perspectiva ilumina retrospectivamente as consequências cósmicas do pecado, já mencionadas anteriormente: a terra que, após a queda, passou a produzir espinhos e ervas daninhas, exigindo do ser humano o trabalho árduo para dela extrair sustento, será também redimida. A mesma criação que sofreu as consequências do pecado de Adão participará da restauração final trazida por Cristo. A nova sociedade, portanto, não emerge de dentro da história humana, mas desce do céu como dádiva de Deus.

Essa é uma visão que convida à imaginação esperançosa: um mundo perfeito, sem os efeitos corrosivos do pecado sobre as estruturas humanas mais banais do cotidiano — sem corrupção, sem descaso, sem os pequenos e grandes males que hoje afetam a convivência social. Um mundo em que os próprios seres humanos, libertos definitivamente da tendência ao pecado, viverão em plena comunhão com Deus e uns com os outros. É digno de nota que, quando Cristo ressuscitou, os discípulos inicialmente não o reconheceram — sua feição estava revestida de perfeição, glorificada, prenunciando aquilo que um dia também será a experiência de todos os que pertencem a Ele.

Essa visão escatológica se conecta diretamente ao tema da oração de Jesus em João 17. Ali, Jesus pede que os discípulos sejam santificados para permanecer no mundo, cumprindo uma missão. Aqui, no Apocalipse, revela-se o destino final dessa missão: uma nova realidade que, embora ainda não plenamente manifesta, já habita o interior daqueles que creem em Cristo. Na cruz, os cristãos se tornaram cidadãos de um novo mundo que ainda não começou externamente, mas que, internamente, já é uma realidade presente. Vive-se, assim, nesta terra ainda marcada por múltiplos males, mas não mais sob o governo do sistema que a rege — e sim como portadores antecipados daquilo que um dia se consumará plenamente.

Esse entendimento sobre a natureza última da esperança cristã tem uma implicação direta e importante sobre como a igreja deve se relacionar com as estruturas políticas e sociais do presente — tema que constitui o próximo ponto de reflexão.


O Deus da cruz e não o Deus da urna: os limites da transformação política

A compreensão de que os cristãos vivem no mundo como portadores antecipados de uma realidade futura já plenamente presente neles tem uma consequência prática importante: ela redefine a expectativa cristã em relação à transformação do mundo presente, especialmente no que diz respeito às estruturas políticas.

É fundamental reconhecer, com honestidade, que a missão cristã não resolverá o mundo. Essa afirmação pode soar desanimadora à primeira vista, mas encerra, na verdade, uma libertação. A vida cristã, vivida com integridade e amor, é capaz de diminuir dores, atenuar injustiças e transformar indivíduos que passam a crer em Cristo por meio desse testemunho. No espaço concreto em que cada pessoa vive — no "metro quadrado" que cada um pisa — é possível enxergar sinais reais do Reino de Deus. Mas esses sinais, por mais genuínos que sejam, não equivalem à transformação total e definitiva do sistema-mundo. Essa transformação plena só ocorrerá no Reino futuro, consumado pela vinda de Cristo, como descrito na visão de Apocalipse 21.

A transformação definitiva do mundo, portanto, não acontece no plano político. Ela já aconteceu, de modo decisivo e irrevogável, na cruz. É na cruz que a humanidade foi resgatada, que se recebeu o poder da reconciliação com Deus, e que o próprio sistema-mundo foi condenado. Foi ali que um novo mundo foi conquistado — não como projeto ainda por realizar, mas como obra já consumada, embora seus efeitos plenos ainda estejam por se manifestar totalmente nesta terra.

A política, por sua natureza, tende a oferecer uma promessa que não pode cumprir: a utopia de uma transformação perfeita e definitiva da sociedade por meio de mecanismos humanos de poder. Essa promessa é ilusória, porque nenhuma estrutura política, por mais bem-intencionada que seja, tem o poder de operar a regeneração que somente a cruz proporciona. Por essa razão, pode-se afirmar que o objeto de adoração e louvor cristão é o Deus da cruz, e não o "Deus da urna" — expressão que capta bem o risco de se transferir para processos e disputas políticas uma expectativa de salvação que pertence exclusivamente à obra redentora de Cristo.

Essa compreensão não significa indiferença em relação à vida pública ou ausência de participação social. Significa, antes, recusar a ilusão de que qualquer líder, sistema ou processo político — por mais alinhado que esteja a valores cristãos — seria capaz de produzir a perfeição que somente a cruz pode oferecer. Um cristão que compreende verdadeiramente o evangelho jamais idolatra nenhuma figura de poder terreno, por mais admirável que ela possa parecer.

Jesus, em sua oração, não pediu ao Pai que os discípulos fossem retirados do mundo, mas que fossem santificados para nele permanecerem, sabendo desde já que este mundo, em sua condição presente, não se tornará perfeito por meio de esforço humano ou de conquistas políticas. O pedido era, especificamente, que fossem livres do domínio do mal — não que o mundo deixasse de existir em sua imperfeição estrutural. Os discípulos continuam nesta terra para que o mundo testemunhe, por meio deles, os efeitos concretos da cruz naqueles que conheceram o Reino de Deus e foram salvos.

Vive-se, assim, sinalizando um Reino futuro que já habita o interior de cada crente, mesmo sem que esse Reino tenha se manifestado plenamente na estrutura do mundo presente. E essa forma de viver produz efeitos reais, ainda que parciais: diminui-se a dor, atenua-se a injustiça, aponta-se para aquilo que ainda não chegou por completo, mas que já opera silenciosamente na vida de quem crê. Essa dinâmica concreta de testemunho no cotidiano — o Reino manifesto no espaço específico que cada um ocupa — é o assunto que se aprofunda a seguir.


Sinais do reino no metro quadrado que pisamos

Se a transformação definitiva do mundo não ocorre pelo caminho político, mas já foi consumada na cruz, resta perguntar: como, então, a vida cristã opera concretamente no presente? A resposta está numa imagem simples, mas poderosa: os sinais do Reino de Deus se manifestam no espaço específico que cada crente ocupa — no "metro quadrado" que cada um pisa em sua própria existência cotidiana.

Essa expressão capta bem os limites e, ao mesmo tempo, a real eficácia do testemunho cristão. Não é possível, por exemplo, resolver os problemas estruturais de uma cidade inteira por meio do esforço individual de um crente ou de uma comunidade local. Mas é absolutamente possível, e de fato acontece, que o Reino de Deus presente na vida de alguém produza efeitos concretos e transformadores no espaço restrito em que essa pessoa atua. Um exemplo prático e real dessa dinâmica está no cuidado com crianças atendidas em projetos sociais ligados à comunidade de fé: ainda que essas iniciativas não resolvam os problemas mais amplos de uma cidade, o Reino de Deus presente na vida dos que cuidam dessas crianças diminui a dor delas e as conduz a uma realidade diferente daquela em que estavam inseridas.

Esses são sinais reais do Reino — capazes de transformar individualmente aqueles que são alcançados por eles. Pessoas concretas passam a crer em Cristo por meio do testemunho vivido nesse espaço restrito de atuação. Isso não é pouco; é, na verdade, a forma como o Reino de Deus opera visivelmente nesta era presente, antes da consumação final.

É importante, contudo, manter clareza sobre os limites dessa dinâmica. O testemunho cristão, vivido com justiça e amor, contribui genuinamente para o mundo ao seu redor — mas não o resolve por completo. O amor cristão, presente na vida cotidiana, apaga muitas dores concretas, mas não resolve o mundo em sua totalidade. Ele consegue, isso sim, resolver — no sentido de transformar e redirecionar — indivíduos específicos que, tocados por esse testemunho, passam a crer em Cristo.

Essa compreensão evita duas tentações opostas. A primeira é o desânimo diante da magnitude dos problemas do mundo, como se a impossibilidade de resolvê-los totalmente tornasse inútil qualquer esforço concreto de testemunho e cuidado. A segunda é a grandiosidade ilusória de acreditar que a ação humana, ainda que motivada por boas intenções cristãs, poderia por si só reverter as estruturas de um mundo caído. Entre esses dois extremos, encontra-se o chamado real: agir com fidelidade no espaço concreto que se ocupa, sabendo que o desfecho final da história já foi revelado e garantido.

Esse "desfecho já revelado" é, precisamente, aquilo que confere sentido e esperança à ação presente. Sabe-se, com certeza, como termina a história — a vitória definitiva de Cristo, já anunciada no Apocalipse. E é essa certeza escatológica que sustenta a continuidade do testemunho cristão no presente, mesmo diante das limitações evidentes de qualquer ação humana. É precisamente esse testemunho, vivido em unidade e amor mútuo, que Jesus retoma na parte final de sua oração, estendendo seu pedido não apenas aos discípulos presentes, mas a todos os que viriam a crer por meio deles — tema que se desenvolve a seguir.


A oração que se estende a nós: unidade e amor como testemunho (João 17:20-26)

Na parte final de sua oração, Jesus amplia explicitamente o alcance de seu pedido. Até então, a intercessão parecia voltada especificamente aos onze discípulos presentes — descontado Judas, chamado de "filho da perdição". Mas, a partir do versículo 20, Jesus revela que sua oração não se limita àquele círculo imediato:

"E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que crerão em mim, por intermédio da palavra deles, a fim de que todos sejam um; e como és tu, Pai, em mim, e eu em ti, sejam eles também um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste." (João 17:20-21)

Essa ampliação é significativa: ela inclui todos os que viriam a crer em Cristo por meio da palavra transmitida pelos apóstolos — ou seja, inclui diretamente todos os cristãos ao longo da história, alcançados pelo evangelho que chegou até eles justamente através do testemunho apostólico. Em outras palavras, a oração de Jesus, pronunciada horas antes de sua morte, já contemplava explicitamente aqueles que, séculos depois, viriam a fazer parte do corpo de Cristo.

O pedido central permanece o mesmo desenvolvido ao longo de todo o capítulo: a unidade. Mas agora essa unidade é apresentada com um propósito ainda mais explícito: "para que o mundo creia que tu me enviaste". A unidade da igreja não é, portanto, um fim em si mesma, voltado apenas para o bem-estar interno da comunidade cristã. Ela tem uma função testemunhal diante do mundo. A forma como os cristãos vivem em comunhão uns com os outros comunica algo real sobre a veracidade da missão de Cristo.

Jesus prossegue, reforçando esse ponto com ainda mais intensidade:

"Eu lhes tenho dado a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um; eu neles, e tu em mim, para que sejam aperfeiçoados em unidade, a fim de que o mundo conheça que tu me enviaste, e que os amaste a eles, assim como me amaste a mim." (João 17:22-23)

O anúncio cristão para o mundo, portanto, não se fundamenta em discurso de militância ou disputa ideológica, mas no próprio Reino de Deus manifesto por meio da unidade e do amor entre os crentes. Esse é o argumento apologético mais poderoso que a igreja pode oferecer: não a persuasão retórica ou a força de convencimento intelectual, mas a evidência viva de uma comunhão que reflete, ainda que de modo limitado, a unidade perfeita entre o Pai e o Filho.

A oração se encerra com um pedido pessoal e afetivo, dirigido ao desejo mais profundo de Jesus em relação aos seus:

"Pai, quanto ao que me deste, quero que, onde eu estiver, estejam eles também comigo, para que vejam a minha glória, a qual me deste; pois me amaste antes da fundação do mundo. [...] E eu lhes fiz conhecer o teu nome, e o farei conhecer ainda, para que o amor com que me amaste esteja neles, e eu neles esteja." (João 17:24, 26)

Essas palavras finais revelam a intenção última de toda a oração: que o mesmo amor que o Pai derramou sobre o Filho permaneça também nos discípulos, e que esse amor se propague por onde eles passarem. Não parece haver, nas Escrituras, uma declaração mais clara sobre aquilo que Deus deseja realizar por meio daqueles que creem em Cristo. É um pedido que, em certo sentido, continua sendo dirigido a cada cristão hoje: que a vida de cada um seja, de fato, resposta viva àquilo que Jesus pediu ao Pai naquela última oração — transformado pelo Reino, desligado da lógica ilusória do mundo, e presente nele como luz e sal.

Essa mesma comunhão, unidade e memória do sacrifício de Cristo encontram sua expressão litúrgica mais concreta na prática que se segue imediatamente à oração: a Ceia do Senhor, momento em que a igreja recorda, de modo tangível, aquilo que a cruz realizou.


A mesa da comunhão: a Ceia em memória daquele que venceu

A oração de Jesus em João 17 não é um discurso abstrato, distante da vida prática da comunidade cristã. Ela desemboca, de modo natural, num gesto concreto de comunhão: a participação na Ceia do Senhor. Há algo profundamente coerente nessa sequência — depois de pedir que os discípulos fossem um, que permanecessem guardados do mal e que vivessem no mundo como sinal do Reino, Jesus os reúne, ainda naquela mesma noite, em torno do pão e do cálice, instituindo a prática que a igreja repetiria em sua memória por todas as gerações seguintes.

A Ceia é, antes de qualquer outra coisa, um ato de memória. Jesus mesmo estabeleceu esse sentido ao instituir a prática: "Fazei isto em memória de mim." Tomando o pão, ele o parte e o distribui como símbolo do seu próprio corpo entregue. Tomando o cálice, ele o identifica como a nova aliança selada em seu sangue — não mais o sangue de sacrifícios animais, repetidos ritualmente sob a antiga aliança, mas o seu próprio sangue, derramado uma única vez, suficiente para purificar definitivamente aqueles que creem.

O apóstolo Paulo, em 1 Coríntios 11, acrescenta um elemento importante a essa compreensão: ao participar do cálice, os cristãos anunciam a morte do Senhor até que ele volte. A Ceia, portanto, não é apenas lembrança de um episódio passado, mas também proclamação viva e contínua daquilo que a cruz realizou, sustentada pela esperança do retorno de Cristo. Cada vez que a igreja participa dessa mesa, ela declara, de modo simbólico e comunitário, que o sacrifício de Cristo já resolveu o problema mais profundo da existência humana — a separação entre Deus e a humanidade — e que essa vitória permanece válida até a consumação final de todas as coisas.

Há algo simbolicamente rico no fato de que essa prática se realiza em comunhão, em pequenos grupos reunidos ao redor da mesma mesa. O barulho da comunhão — pessoas conversando, trocando experiências, orando umas pelas outras enquanto compartilham o pão — é, de certa forma, uma expressão viva daquilo que Jesus pediu na sua oração: que fossem um. Essa comunhão concreta contrasta com a experiência, lamentavelmente comum, de pessoas que não conseguem se sentar à mesma mesa por causa de divergências — sejam elas de ordem religiosa, ideológica ou social. A mesa da Ceia, no entanto, reúne pessoas sob um fundamento inteiramente diferente: não interesses ou identidades desta terra, mas o mesmo sangue, o mesmo sacrifício, o mesmo Deus da cruz.

Essa comunhão em torno do pão e do cálice é, portanto, o ponto de chegada natural de toda a oração de Jesus. Ali, na última noite antes de sua prisão e morte, Ele pediu ao Pai que os discípulos fossem guardados, santificados, unidos e cheios de sua alegria completa. E, no mesmo momento, instituiu a prática que tornaria essa unidade tangível através das gerações: uma mesa em que a igreja, reunida, recorda o sangue derramado, celebra a vitória já consumada na cruz e reafirma sua identidade como povo separado para viver, no mundo, a missão que lhe foi confiada.

Ao participar da Ceia, a igreja não apenas relembra o passado, mas reafirma sua vocação presente: permanecer no mundo, sem ser dele, guardada do mal, santificada pela Palavra, unida em amor e enviada como sinal de um Reino que, mesmo não tendo ainda se manifestado plenamente, já habita o coração de todos os que creem.


Fonte: A casa da rocha. 56 - A oração de Jesus - Parte 2 - Zé Bruno - Quem é Jesus? https://www.youtube.com/watch?v=gRFiDnxHwrQ

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