description Artigo Cristãs groups Teologia e Pregações

Lucas 5:1-11: Mais que uma Grande Pesca: O Verdadeiro Chamado de Cristo

O Contexto: Jesus, a Multidão e o Barco de Simão

Estamos numa jornada dentro do Evangelho de Lucas, uma narrativa escrita para Teófilo, seu amigo — um grego que queria entender mais sobre a fé que estava abraçando. Lucas escreve como quem conta a um amigo tudo o que investigou e apurou sobre Cristo, para que Teófilo tivesse plena convicção daquilo que passava a crer. Por isso, é importante não pegar essa história no meio do caminho, mas entender de onde ela vem.

Na semana anterior a este relato, Jesus havia expulsado um demônio na sinagoga, curado a sogra de Pedro e realizado muitas outras curas. Os endemoniados que eram libertos saíam gritando: "Tu és o Filho de Deus." Diante disso, Jesus se afasta, e a multidão vai atrás dele, insistindo para que não os deixasse. Ele responde que precisa ir a outras cidades anunciar o evangelho também — e é exatamente com essa multidão apertando que o capítulo 5 começa.

Jesus estava em Cafarnaum, uma das cidades da Galileia à beira do mar, uma típica cidade de pescadores. Foi ali, na casa da sogra de Pedro, que ele a curou daquela febre. Agora, pressionado pela multidão que queria ouvir a palavra de Deus, ele desce até a praia.

Há um detalhe interessante sobre aquele lugar: o mar da Galileia — também chamado lago de Genesaré ou lago de Tiberíades — tem um fenômeno natural de ventos que sopram da costa em direção à terra. Quando estive em Israel e visitei Cafarnaum, o guia turístico comentou justamente sobre isso. Esse vento, batendo nas costas de quem estava no barco e soprando na direção da multidão na praia, fazia com que a voz se propagasse com mais clareza — quase como um sistema natural de transmissão de áudio, já que o som é uma onda mecânica que se comporta de forma diferente a favor ou contra o vento.

Foi por isso que Jesus, vendo dois barcos na praia — pescadores lavando as redes depois de uma noite de trabalho — entrou num deles, o de Simão, e pediu que o afastasse um pouco da praia. Assentado ali, ensinava as multidões.

Pedro já conhecia Jesus. O relato do capítulo anterior mostra que Jesus havia entrado em sua casa e curado sua sogra. Não temos, porém, um registro de que Pedro já fosse formalmente um discípulo até este momento — tudo indica que é exatamente a partir desta cena que ele passa a segui-lo de fato. Pedro sabia quem era aquele homem; havia visto o que ele fizera em sua própria casa. E agora, ali dentro do barco, ele voltaria a ouvir as palavras de Cristo — mas desta vez, algo diferente estava prestes a acontecer.


"Sobre Tua Palavra, Lançarei as Redes"

Quando Jesus terminou de falar às multidões, disse a Simão: "Leva o barco para um lugar mais fundo do lago. Então lancem as redes para pescar." E aqui está um detalhe que muitas vezes passa despercebido: Pedro não chama Jesus de "Rabi" ou "Raboni" — termo que um discípulo usava para se referir ao seu mestre. Ele usa a palavra grega epistátēs, que designa um superintendente, alguém que comanda. É como se, na linguagem cotidiana, Pedro dissesse "chefe" — não porque Jesus fosse literalmente seu superior hierárquico, mas numa mistura de respeito com familiaridade.

Pedro responde: "Mestre, havendo trabalhado toda a noite, nada apanhamos; mas, sobre a tua palavra, lançarei as redes." Ali estava um pescador experiente — que conhecia aquelas águas, aquele ofício, aquela rotina — dizendo que já havia se esforçado a noite inteira sem resultado algum. E mesmo assim, decide obedecer.

Não é uma obediência baseada em garantia de sucesso. É uma obediência baseada na palavra daquele que a pedia. E o resultado foi imediato: ao lançarem as redes, apanharam uma quantidade tão grande de peixes que as redes começaram a se romper. Precisaram chamar os companheiros do outro barco para ajudar, e os dois barcos ficaram tão cheios que quase afundavam.

Diante disso, Simão Pedro se prostrou aos pés de Jesus e disse: "Senhor, afasta-te de mim, porque sou um homem pecador." O espanto tomou conta dele e de todos os que estavam ali — inclusive de Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram sócios de Pedro naquele negócio de pesca.

Esse momento é, sem dúvida, espantoso. Mas ele é apenas o início de algo muito maior do que parece à primeira vista.


Por Que Este Texto Não É Sobre Pesca

Comecei meu ministério pastoral em 1993, ainda como auxiliar dentro de uma comunidade, não a dirigindo. Ao longo de todos esses anos, passei por este texto de Lucas 5 diversas vezes — ouvi muitas pregações sobre ele, e eu mesmo já o preguei em outras ocasiões. E preciso ser honesto: por muito tempo, enxerguei este texto através de lentes que distorciam o que realmente estava escrito ali.

É como se, antes de eu passar a estudar este texto com mais profundidade, eu usasse um óculos colorido — digamos, vermelho. E tudo que eu lia através dele ficava vermelho, independentemente do que estivesse realmente escrito. Eu não estava enxergando o texto como ele é; estava enxergando através de uma lente que só me permitia ver uma cor.

Por muitas vezes, olhei para essa passagem maravilhado apenas com a grande pesca. Achava que o ponto central era esse: um pescador experiente que passou a noite inteira sem pegar nada e, através da palavra de Cristo, teve uma pescaria tão grande que quase afundou o barco. E, ao pregar esse texto, eu dizia às pessoas: "Você também vai ter uma grande pesca."

O problema é que essa leitura tende a se transformar num espírito de coaching. Se sistematizarmos o texto pensando nos "passos que Pedro seguiu para ter uma grande pesca", criamos uma espécie de fórmula com pitadas de neurolinguística: primeiro, empreste seu barco para Jesus; segundo, ouça o que ele tem a dizer; terceiro, não duvide, obedeça; e, por fim, chame os amigos, porque virá muito peixe para a sua rede.

Mas não é disso que este texto trata. Sim, aconteceu uma grande pesca. Foi, de fato, um milagre, e as pessoas ficaram maravilhadas com tudo que presenciaram. Porém, o centro deste texto não é a pesca — assim como o centro da Bíblia inteira não é um milagre, uma cura ou um sinal. O centro é Cristo, porque dele, por ele e para ele são todas as coisas.

Lucas não está escrevendo a Teófilo para lhe entregar uma receita de pesca miraculosa, nem para lhe apresentar alguém que deveria ser contratado pelo sindicato dos pescadores do mar da Galileia. Se Jesus quisesse apenas fazer peixes aparecerem, aquele lugar se tornaria o maior viveiro do mundo — o pesqueiro perfeito, onde quem está fora quer entrar e quem está dentro não sai. Mas o texto não é sobre isso.

Pedro se maravilhou, sim, com a grande pesca — e com razão. Os pescadores que haviam trabalhado a noite inteira sem sucesso ficaram espantados ao ver os dois barcos lotados a ponto de afundar, numa cidade cuja cultura e alimentação giravam em torno da pesca. Mas o que aconteceu em seguida revela que havia algo muito maior acontecendo ali.


O Verdadeiro Centro do Texto: Cristo

Aqui entra uma reflexão que assumo ser uma suposição minha — uma leitura que faço, mas não afirmo com certeza absoluta. Todo judeu daquela época esperava um Messias. Carregava na mente as palavras do Antigo Testamento e as profecias messiânicas: Miqueias anunciando que ele viria de Belém-Efrata; Isaías falando de uma voz que clama no deserto, anunciando aquele que redimiria o povo de seus pecados; a entrada triunfal montado num jumentinho; aquele que seria Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz, cujo reino não teria fim.

E, estudando este texto, uma outra passagem me veio à mente: a profecia de Ezequiel, nos capítulos 40 a 47, sobre a visão do trono de Deus e do templo — não o templo de pedra em Jerusalém, mas um templo espiritual, algo diferente. Quando Ezequiel chega ao capítulo 47, ele descreve um rio que saía do trono e do limiar do templo, trazendo vida às suas margens. Mesmo quando esse rio entrava no Mar Morto — que não tinha peixe algum —, cardumes surgiam aos milhares. A interpretação é clara: aquele rio representava a própria vida de Deus.

Não posso afirmar que essa imagem passou pela cabeça de Pedro naquele momento — não encontrei esse comentário em lugar nenhum, é uma reflexão minha. Mas a verdade é que, quando Pedro percebeu tudo o que estava acontecendo diante dele, ele não se prostrou diante dos peixes. Ele não abraçou aquele monte de peixes agradecendo. Ele se prostrou diante de Jesus.

E isso, para um judeu, era algo extraordinário. Um judeu monoteísta só se prostrava diante do Senhor — "não terás outros deuses diante de mim" estava na Lei. Só diante dele você se curvava, só a ele você adorava. A única forma de um judeu se prostrar diante de outro homem seria em condição de escravidão, como nas invasões assírias, babilônicas, ou sob o julgamento imposto por Roma — nunca por vontade própria.

Mais ainda: Pedro, que havia chamado Jesus de epistátēs ("chefe", num tom de respeito e proximidade), agora o chama de kýrios — Senhor. Essa palavra não era usada normalmente para se referir a seres humanos comuns. Era o termo que os escravos usavam para se dirigir aos seus senhores, aos seus donos. Havia, é verdade, usos sociais mais brandos — alguém se dirigindo respeitosamente a uma autoridade, ou mulheres se referindo a seus maridos dessa forma culturalmente. Mas o uso que Pedro faz aqui, prostrado, confessando seu pecado, é de outra natureza inteiramente.

Quando Pedro diz "Senhor, afasta-te de mim, porque sou pecador", ajoelhado diante de um homem, ele está entregando o coração: eu não estou diante de um ser humano comum. Estou diante do Filho de Deus.

Havia ainda outra camada nessa reação. Para o pensamento judaico, ninguém podia estar onde Deus estava — o Santo dos Santos, dentro do templo, um ambiente fechado por um véu espesso, onde a Arca da Aliança ficava, e onde a Shekinah, a presença de Deus, habitava. Dentro da arca estavam as tábuas da Lei — que nos conduz —, o maná — o alimento que Deus nos dá — e a vara de Arão que floresceu, símbolo de autoridade. A arca representava, essencialmente, Deus no meio do seu povo. E o livro de Hebreus registra que o sumo sacerdote só entrava naquele lugar uma vez por ano, porque não há quem possa entrar na presença de Deus e continuar vivo diante do Santo — o pecador seria simplesmente fulminado.

Era um temor tão grande que os escribas e copistas judeus, ao transcreverem os textos sagrados, ao chegarem ao tetragrama — o nome de Deus — trocavam de pena para escrevê-lo e depois a descartavam, de tanto respeito por aquele nome santo. Por isso usavam "Elohim" ou "Adonai" em seu lugar.

Pedro fez essa ligação: diante dele estava aquele que todo o Antigo Testamento anunciava. E disse: "Ele está aqui, e eu sou um pecador."


"Retira-te de Mim, Porque Sou Pecador"

As pessoas se maravilhavam com a doutrina de Jesus; a multidão o apertava por causa dos seus milagres, porque não queriam que ele fosse embora, mas continuasse fazendo sinais. Pedro estava diante do maior sinal de todos — mas era como se Lucas dissesse ao seu amigo Teófilo: "Preste atenção: o que aconteceu com esse rapaz é muito diferente do que aconteceu com toda essa multidão."

As pessoas apertavam Jesus para tirar algo dele: "Você esteve na casa da sogra de Pedro, pode fazer um milagre aqui também? Pode resolver isso que está me doendo?" Cada pedido, individualmente, era genuíno — é natural que quem vê alguém fazer o bem queira o bem para si também. Mas Pedro reconheceu algo diferente: ele não podia estar perto de Cristo, porque era pecador. Ele não estava diante de um curandeiro, apesar de Jesus curar. Não estava diante de alguém que apenas fazia coisas boas. Não estava diante de um exorcista, apesar de Jesus expulsar demônios. Ele estava diante do Filho de Deus — a vida se apresentando diante dele, a razão do universo ali, na sua frente.

Isso me faz lembrar do centurião romano que pediu a Jesus que fosse até sua casa curar seu servo. Quando Jesus se dispõe a ir, o centurião responde: "Não sou digno de que entres em minha casa; basta que digas uma palavra, e o meu servo será curado." E Jesus declara: "Não vi fé como esta em Israel" — a fé de alguém que não busca apenas a presença de Jesus pelo que ela pode oferecer, mas que teme e reconhece quem ele verdadeiramente é.

O apóstolo Paulo, em 1 Coríntios 1:22-23, resume bem essa tensão:

"Os judeus pedem sinais, e os gregos buscam sabedoria, mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios."

Há gente que se aproxima de Jesus atrás de sinais. Os próprios fariseus pediram um sinal para crer, e Jesus respondeu que o único sinal que lhes seria dado era o do profeta Jonas, que ficou três dias na barriga do peixe — assim como o Filho do Homem ficaria três dias no seio da terra. O maior sinal já estava diante deles: ele mesmo, que se encarnou. Os peixes eram um sinal; a cura era um sinal. Mas o Senhor está acima de tudo isso.

Se você se aproxima de Jesus como um gestor de projetos milagrosos que precisa do aval de Cristo para funcionar; se você o busca como quem preenche um currículo ministerial precisando de sinais para completar suas próprias obras; se você o vê apenas como um curandeiro ou como um sócio no barco para abençoar sua empresa e seus negócios — talvez você ainda não tenha entendido quem ele realmente é. Jesus cura, abençoa nosso trabalho e faz coisas maravilhosas — mas meu interesse não pode estar nas coisas que ele tem ou que ele faz. É exatamente a vida que ele é.

É por isso que, dos dez leprosos curados, apenas um voltou para se prostrar diante dele e dizer "Senhor". Os outros nove tiveram apenas a cura — pararam no sinal, mas não viram o Reino.


De Pescador de Peixes a Pescador de Homens

Diante do temor de Pedro, Jesus responde: "Não tenha medo; daqui por diante você será pescador de homens." E aqui há um detalhe linguístico precioso que vale a pena explorar.

A palavra usada para a pesca que Pedro fazia — a captura dos peixes durante a noite — é agra, no grego original. Ela se refere ao animal vítima da caça: quando saem para pescar, capturam para matar, para se alimentar, para subsistência. Não estou pregando contra ninguém que seja carnívoro — minha própria filha é vegetariana, já pensei em ser também, mas não é esse o ponto. O ponto é que, nessa lógica, o ser humano é o predador no topo da cadeia, quem abate o animal para o seu sustento.

Mas quando Jesus diz "eu vou fazer vocês pescadores de homens", ele usa outro verbo: zōgréō, que significa capturar vivo, prender para preservar a vida, não para tirá-la. É uma diferença profunda. Antes, Pedro pescava peixes para se alimentar deles. Agora, ele vai "pescar" homens — mas a intenção não é se alimentar deles. É dar-lhes vida.

Nós não somos pescadores de homens como somos pescadores de peixes, que alcançamos o cardume para matar nossa fome. É o oposto: alcançamos o cardume para saciar a fome deles.

Jesus andou pela Galileia pescando homens — entrou na sinagoga pescando homens, estava no barco de Pedro pescando homens, falando do seu Reino. Ele havia acabado de "pescar" Pedro — mas não o pescou para que Pedro se tornasse sustentador do seu ministério, como se fosse um escravo financeiro, alguém que cumpre metas e traz relatórios, alguém sugado para que outro líder tivesse sua honra. Não. Jesus veio para que todos tenham vida, e vida em abundância. Ele pesca pessoas para repartir a vida, não para tirá-la. Ele pesca pessoas para trazê-las para a família de Deus, não para usá-las como degrau para o sucesso do seu próprio ministério individual.

Esse é um detalhe muito bonito para nós, como igreja — e para qualquer um que se considere ministro de Deus. A pergunta que fica é: o que você está fazendo com as pessoas que esses homens pescaram? Está alimentando-as, ou matando-as para alimentar o seu próprio império?


O Reino de Deus: Um Rei Que Sai Para Repartir Vida

Jesus continua: "Não tenha medo. Vocês viram essa pesca incrível agora, mas o que realmente importa são as pessoas que serão alcançadas para o meu Reino. Eu vou sair daqui, e o mar vai continuar sendo mar, a pesca vai continuar sendo pesca. Eu não tenho nenhum interesse em me tornar presidente do sindicato dos pescadores da Galileia ou de Genesaré."

Essa distinção é fundamental para entender a diferença entre os reinos humanos e o Reino de Deus. Os reinos humanos são lugares procurados por pessoas em busca de abrigo para suas próprias vidas — o reino humano é onde alguém procura súditos para sustentarem a sua própria vida. Mas o Reino de Deus é justamente o contrário: é o lugar onde o Rei sai para alcançar pessoas, para repartir a sua própria vida com elas. É onde o Rei se dá para alimentar o seu povo.

Esse é o tipo de gente que compõe o Reino de Deus. E é exatamente esse o próximo passo que Lucas quer mostrar a Teófilo: depois de todas as palavras de Jesus, depois dos milagres, chegamos ao ponto central da vocação. Jesus chama pessoas para serem um presente de Deus para outras pessoas — assim como ele mesmo é um presente de Deus para nós.

O evangelho de Cristo precisa nos abraçar e nos alcançar, para que recebamos a verdadeira vida que só ele oferece. E quando convivemos com alguém ao nosso lado, não podemos estar interessados em que essa pessoa seja "mais um número" dentro da nossa instituição religiosa, ou "mais um contribuinte financeiro" para o nosso projeto. Precisamos enxergar toda a vida que falta a essa pessoa e sermos alguém que a captura — no bom sentido da palavra — com toda a graça, misericórdia e amor do Deus que reparte. É nesse tipo de gente que Cristo quer nos transformar.


Deixando Tudo Para Trás: O Verdadeiro Objeto da Fé

E aqui está o detalhe mais bonito de toda essa história — voltando ao que mencionei no início: todo mundo foca no milagre, lê este texto como se o grande sinal fossem aqueles milhares de peixes. Mas o texto diz, no versículo 11, que, arrastando os barcos até a praia, eles deixaram tudo e o seguiram.

Acho incrível que Pedro tenha arrastado os barcos com aquele monte de peixe, com a multidão maravilhada, provavelmente pensando: "Imagina o que Jesus pode fazer com a minha máquina de lavar quebrada, com os meus contratos" — e, em vez disso, Pedro deixa tudo, se prostra diante de Cristo e diz: "Senhor, afasta-te, porque sou pecador." E Jesus responde: "Pedro, não tenha medo de estar na minha presença. Hoje eu vim para te dar vida — e, daqui para frente, você vai me ajudar a abraçar outras pessoas."

Pedro se levanta e, de alguma forma, aqueles peixes deixam de fazer sentido para ele. Aqueles barcos não servem mais para nada. E ele larga tudo e vai atrás de Cristo.

Hoje em dia, há milhões de pessoas que dizem estar seguindo a Cristo, mas que não têm o olho no peixe — só no gato, ou melhor, o contrário: só estão interessadas no que Cristo pode lhes proporcionar. Seus cultos giram em torno de sinais, suas celebrações exaltam os sinais, seus testemunhos falam da transformação do próprio barco e do próprio peixe — enquanto Jesus caminha longe, à espera de que alguém diga: "Não me importo mais com o peixe e os barcos; hoje eu só preciso segui-lo."

Seguir a Cristo significa aceitar que há dias em que repartimos, e há dias em que precisamos entrar numa plantação de espigas num sábado e colher, porque não temos o que comer. Há dias em que não temos nada, e ele vai multiplicar pães e peixes. Não preciso me preocupar com o que vou ter — eu já encontrei a vida. Como costumo dizer na igreja: Jesus não é a pessoa que me dá tudo que eu preciso; ele já é tudo que eu preciso. E o resto é apenas detalhe.

Pedro, Tiago e João deixaram tudo e o seguiram. Todos focam no milagre da pesca, e não no milagre do Rei que chegou. Mas muitos hoje só querem a pesca — cada um corre atrás daquilo que lhe interessa. Eu espero que sejamos pessoas dispostas a deixar de lado o que nos interessa, porque a única coisa que realmente importa é seguir o Rei — não importando se temos ou não temos, se o barco está cheio ou vazio.

Sempre penso nesse texto assim: será que Pedro simplesmente disse "fica com meu barco, não quero mais"? Ou disse "peguem esses peixes e dividam entre vocês"? Não temos esse detalhe. O que sabemos é que ele simplesmente não conseguia mais encontrar sentido naquilo tudo, tendo o Senhor à sua frente.


Conclusão: Sinais ou o Senhor dos Sinais?

Se você entende que Jesus está entre nós, é preciso se perguntar: sua fé em Cristo ainda está focada nas coisas que ele pode fazer por você? Ele pode fazer, fique tranquilo — mas esse não pode ser o centro da sua fé.

Muita gente ainda hoje me pergunta: "Você acredita em milagre?" E minha resposta costuma soar estranha para alguns: não é o milagre o objeto da minha fé, diante do qual me prostro, adoro e creio. Milagre é uma coisa que Deus faz. Eu creio em Cristo. Pode parecer uma resposta boba, mas há pessoas que colocam sua fé no "se eu crer nisso, isso vai acontecer" — e focam sua fé nesse resultado. Deus não nos chamou para crer nisso; ele nos chamou para crer nele. Ele pode te dar isso, pode te dar outra coisa, pode permitir um tempo melhor ou um tempo pior — isso não é o essencial. Quando você realmente entende quem é Cristo, dá pouca importância a essas circunstâncias, porque o objeto da sua fé não é aquilo que ele te dá, mas o próprio Senhor — razão de tudo o que existe e de tudo que nos sustenta.

A pergunta que fica é: ele é apenas um "guia de pesca" para você, ou é o Senhor da sua vida? Você crê nele pelas coisas que ele faz, ou porque descobriu quem ele realmente é? Quando você abre a palavra de Deus para ler, para orar, como se sente diante dele — como alguém que é pecador e indigno, mas grato pela graça de poder falar com ele? Ou o trata como alguém que, porque você deu uma oferta ou fez uma reza certa, está obrigado a te abençoar?

Você segue um milagre — um sinal de peixes — ou o verdadeiro milagre, que é o Filho de Deus que se fez carne e está diante de nós?

Meu caro Teófilo, é assim que o Reino cresce, e é por isso que Jesus faz sinais: é desse jeito que nascem discípulos.

Obrigado, Senhor, pela tua palavra. Obrigado por este texto que Lucas escreveu há séculos para Teófilo — e que continua alimentando cada um de nós hoje. O Senhor é o Deus que cura, que abre portas, que aumenta a nossa pesca, que cuida de cada necessidade nossa — mas que também nos livra de cairmos no pecado de servir às necessidades ou às abundâncias e nos esquecermos dEle, o verdadeiro Kýrios. Que eu ande contigo não porque podes me dar mais, mas porque és Senhor — e que ter ou deixar de ter não mude minha alegria, meu amor e minha fé por ti.

Que sejamos gente de fé no Filho de Deus — gente de fé que deixa barcos e peixes, gente de fé que abraça outras pessoas não para se alimentar delas, mas para repartir amor e vida. Que essa seja a nossa alegria.


Fonte: A casa da Rocha. 08 - É sobre peixes, é sobre o Rei - Zé Bruno - Meu Caro Amigo. https://youtu.be/9K2IKTz-A8w?list=RD9K2IKTz-A8w

favorite_border 0 chat_bubble_outline 0 visibility 2

chat_bubble_outline Comentários (0)

lock Faça login para comentar.

chat

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar!

list

Sumário

smart_toy

Dúvidas sobre a Publicação

Pergunte ao assistente

Nenhum áudio