Atos 2:5-13: Pentecostes: Quando Deus Fala a Nossa Língua
O Contexto: Judeus Piedosos Reunidos em Jerusalém
Vamos relembrar o que vimos na semana passada, nos primeiros quatro versículos de Atos capítulo 2. Eles estavam reunidos no Cenáculo, o mesmo lugar da Última Ceia com Jesus. Já estávamos no dia de Pentecostes — palavra que significa "quinquagésimo", o quinquagésimo dia depois da Páscoa. Ou seja, havia pouco mais de um mês que Jesus havia morrido, e cerca de dez dias que Ele havia subido aos céus.
Quando começamos o livro de Atos, vimos que fazia quarenta dias que Jesus estava aparecendo aos discípulos antes de ser levado aos céus. Agora chegava o dia de Pentecostes, mais dez dias depois disso — período em que eles não deveriam se ausentar de Jerusalém, porque Jesus havia dito: "do alto vocês serão revestidos de poder." No capítulo 2, eles estavam reunidos no mesmo lugar quando, de repente, ouviu-se o som de um vento — mas não era vento, era um som como de um vento impetuoso. Não sabemos exatamente como Lucas recebeu essa informação, se estava lá ou se, como ele mesmo diz em seu evangelho, investigou cuidadosamente para relatar o que aconteceu. De todo modo, ele teve relatos de uma visão de línguas de fogo que desciam sobre as pessoas ali reunidas, que foram cheias do Espírito e passaram a falar segundo o Espírito lhes concedia. Ali nasceu a igreja.
Agora prosseguimos a partir do versículo 5, que diz:
"E estavam morando em Jerusalém judeus, homens piedosos, vindos de todas as nações debaixo do céu. Assim, quando se fez ouvir aquela voz, afluiu a multidão, que foi tomada de perplexidade, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua."
Vale registrar algo importante antes de entrarmos no texto: entre o versículo 4 e o versículo 5, em algumas versões da Bíblia, como a Revista e Atualizada, existe uma divisão de parágrafo. Mas é preciso lembrar que o texto de Lucas — e toda a Bíblia — não foi escrito originalmente em capítulos e versículos. Isso foi uma divisão feita posteriormente pelos editores, para nos ajudar a localizar os textos. Da mesma forma, os títulos que aparecem em algumas edições, como "O Dom de Línguas", não fazem parte do texto bíblico original — são decisões editoriais.
E isso importa muito para a nossa leitura. Conhecendo o movimento carismático e como se costuma falar a respeito dos dons de línguas, percebo que nem sempre é exatamente isso o que o texto de Atos está descrevendo. Não que eu queira tratar esse assunto como o mais importante do texto — pelo contrário, o fenômeno das línguas em si não é, para mim, o ponto central. O que importa é que a gente se apegue ao que o texto realmente diz, e não ao que o título nos sugestiona a procurar. Às vezes um título nos leva a ler buscando confirmar uma ideia pré-formada, em vez de simplesmente ouvir o que está escrito.
Vamos então ao texto: "judeus piedosos." Esse termo era usado para designar aqueles que eram tementes a Deus — pessoas que amavam a Deus e cumpriam a religião judaica da antiguidade com zelo e interesse de coração. Certamente eram homens que observavam a lei de Deus, serviam a Ele com obediência aos seus princípios, frequentavam a sinagoga, participavam da leitura da lei e dos profetas, faziam suas orações — em conjunto ou individualmente —, ofereciam seus sacrifícios e mantinham viva a sua tradição. E não há nada de errado nisso: eram gente de Deus. Só ainda não tinham tido um encontro com Cristo. Lembre-se: Jesus havia morrido e ressuscitado havia apenas cinquenta dias. Eram homens piedosos que amavam a Deus, e o texto diz que eles falavam das grandezas de Deus.
O Que Realmente Aconteceu no Cenáculo
O texto diz, a partir do versículo 6, que as pessoas que estavam do lado de fora, quando ouviram aquela voz — e no original é singular mesmo, "aquela voz" —, ficaram tomadas de perplexidade. Que voz seria essa? A voz que vinha de dentro, quando eles foram cheios do Espírito dentro do Cenáculo. Não temos informação exata sobre o que estavam falando ali dentro, mas o texto diz que, do lado de fora, cada um — de uma etnia diferente — os ouvia, todos na sua própria língua. Isso é algo realmente surpreendente: o texto não diz que cada um lá dentro falava a língua de alguém que estava lá fora. Diz que cada um de fora os ouvia na sua própria língua.
Embora Lucas não tenha explicado o fenômeno passo a passo — ele por si só já é maravilhoso. Mas fico pensando: o que poderia ter acontecido ali dentro? Imagino que os discípulos ainda não tinham essa formatação de culto cristão como conhecemos hoje. Fazia apenas cinquenta dias que Jesus havia falecido e dez dias que havia subido aos céus. O nosso formato de culto — com auditório, pregação, louvor e ensino — é algo que se desenvolveu ao longo de séculos, especialmente na Idade Média. Que tipo de celebração eles tinham, então? Aquela que praticavam no judaísmo.
Quando lemos o evangelho de Lucas, vemos que Jesus percorria todas as aldeias da Judeia, ensinando nas sinagogas. Há até aquele episódio em que Ele pega o rolo da lei, que vai passando de mão em mão, e lê o texto de Isaías que fala dEle mesmo. Ele participava daquilo que já fazia parte da tradição e da cultura de culto e celebração judaica — os Salmos, que eram recitados e cantados; algumas orações; e, entre esses Salmos, havia os messiânicos, cerca de vinte e quatro deles.
Eu acredito — e aqui estou apenas sugerindo uma possibilidade, que pode estar certa ou não — que eles estavam fazendo uma celebração como sempre costumavam fazer, só que agora com Jesus na cabeça, como o Senhor. Veja, por exemplo, o Salmo 110, um Salmo de Davi:
"Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés."
É interessante que Davi diz que "o Senhor disse ao meu Senhor" — esse "meu Senhor" era a expectativa do Messias. Davi não sabia que se tratava de Cristo, mas os discípulos sabiam. Esse é um Salmo messiânico que fala da vinda do Messias: "O Senhor enviará de Sião o cetro do teu poder... Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque."
É bem possível que eles estivessem, dentro da lógica judaica de quem frequentava o templo e a sinagoga, recitando trechos da lei, orações ou cânticos dos Salmos — só que agora em glória a Cristo. Porque, cinquenta dias depois da morte de Jesus, nada do Novo Testamento havia sido escrito ainda. Quando Jesus fala das Escrituras, Ele está se referindo ao Antigo Testamento. Então imagino que eles estivessem celebrando como sempre celebravam, mas agora com uma pitada nova: o Espírito havia enchido aqueles homens, e eles estavam cheios do poder do Espírito.
E eu acho que nenhuma celebração de nenhuma sinagoga, nenhum dos cânticos dos degraus que faziam em suas peregrinações até o templo, nenhum desses momentos de ajuntamento jamais produziu uma voz como aquela — porque o texto diz que ficaram atônitos e espantados com o que ouviam.
O Cenáculo é uma sala, um salão - lembre-se de que Jerusalém é toda construída em pedra, com vielas estreitas, e havia um pátio do lado de fora.
O texto diz que uma multidão ficou do lado de fora ouvindo aquela voz e aquele estrondo. Por isso acredito que o texto não está dizendo que cada um lá dentro falava a língua de alguém de fora, mas que cada um de fora entendia, na sua própria língua, a voz que vinha de dentro. Imagino que estivessem recitando o mesmo texto, o mesmo cântico, fazendo uma oração em conjunto — mas, assim como temos hoje nosso sistema de som, aquilo foi amplificado pelo Espírito de Deus para o lado de fora.
Mas essa não é a parte mais espantosa. O mais incrível é que cada um do lado de fora ouvia aquilo em sua própria língua materna — o que não era algo comum. Os Salmos e a lei eram sempre lidos em hebraico, nas sinagogas e nas celebrações. Quando os sacerdotes liam a lei desde o Antigo Testamento, percebe-se que não havia esse costume de traduzir para outra língua. Se não me engano, havia uma tradução em Samaria, num templo que ali construíram, mas os judeus não gostavam muito disso — preferiam manter a tradição e ler tudo em hebraico.
Então, imagine se aproximar, vindo de outra nação, e ouvir aquele cântico que você conhece sendo cantado na sua própria língua materna. Os judeus estavam espalhados por todo o império romano, mas essa dispersão não começou ali — começou cerca de setecentos anos antes de Cristo, quando lemos no Antigo Testamento sobre o exílio assírio e, depois, o exílio babilônico. Foi ali que os judeus começaram a ser dispersos de sua terra. Depois vieram os medos, que tomaram o império babilônico e o expandiram; depois os persas; depois os gregos; e depois os romanos. Estamos falando de sete ou oito séculos antes de Cristo em que já havia judeus espalhados pelo mundo conhecido da época — agora sob domínio romano, mas judeus que vinham para as festas, para as celebrações, por tradição, conhecendo suas orações. Eram homens piedosos, como diz o texto, que conheciam os Salmos, a lei e os profetas no original hebraico.
Eles se aproximavam porque reconheciam ali uma adoração maravilhosa, uma oração feita em conjunto e incrível — mas na própria língua materna deles, porque, em seiscentos ou oitocentos anos, muitos já haviam nascido em outros lugares, criados com outra língua materna, tendo o hebraico apenas como língua de fé. Imagine a cena: "Vamos todos aqui fazer juntos: Deus é bom, todo mundo bom!" — e de repente cada um ouvindo aquilo na sua própria língua, sem que ninguém estivesse de fato falando várias línguas ao mesmo tempo. Foi algo verdadeiramente extraordinário.
O Fenômeno das Línguas: Um Milagre na Audição
Lá fora, o povo ficou tomado de perplexidade. Havia cento e vinte pessoas dentro do Cenáculo, mas parecia que era um milhão de gente falando ao mesmo tempo — e cada um entendia. Deve ter sido algo verdadeiramente extraordinário, porque o brasileiro que estava ali pensava: "Que legal, nunca tinha ouvido esse Salmo cantado em português!" E o espanhol, ao lado dele, dizia: "Não, não estou ouvindo em português, estou ouvindo em espanhol!" E ambos ficavam confusos, se entreolhando, achando que o outro estava bêbado.
É importante destacar que o texto não diz que aqueles que estavam dentro do Cenáculo estavam perturbados ou confusos. Eles estavam cheios do Espírito e celebrando. Quem estava confuso era o grupo de fora — e esse grupo foi aumentando, à medida que mais pessoas se aproximavam e diziam umas às outras: "Espera, mas essa não é a nossa língua? Como assim, chegamos aqui como peregrinos de lugares diferentes, e eles estão cantando na nossa língua?"
A palavra utilizada aqui, no grego, é dialektos, que significa dialeto. Também é usada a palavra glossa, que significa tanto língua quanto idioma. Isso foi um fenômeno que nem sabemos explicar totalmente, e Lucas não se demorou detalhando como aconteceu — apenas registrou o que se via e ouvia. Mas, pelo que o texto relata, ficamos sabendo que lá fora estava tudo em polvorosa: "Irmão, que coisa é essa que está acontecendo?" No Pentecostes, as línguas eram línguas conhecidas — eram idiomas e dialetos reais, não uma manifestação incompreensível.
Vale a pena lembrar, aqui, de um texto do Antigo Testamento que ajuda a entender melhor o que está em jogo nessa cena. Em Gênesis 11, versículos 1 a 8, lemos que, em toda a terra, havia apenas uma língua e um só modo de falar. Os homens partiram do oriente, encontraram uma planície na terra de Sinar e ali se estabeleceram. E disseram uns aos outros: "Vamos fazer tijolos e queimá-los bem." Os tijolos lhes serviram de pedra, e o betume, de argamassa. E disseram: "Vamos construir uma cidade e uma torre cujo topo chegue até os céus, e façamos um nome para nós, para que não sejamos espalhados por toda a terra."
Então o Senhor desceu para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens estavam construindo, e disse: "Eis que o povo é um, e todos têm a mesma língua; e isto é apenas o começo do que farão; agora nada mais os impedirá de fazer tudo o que planejarem. Vamos descer e confundir ali a sua língua, para que um não entenda a língua do outro." Assim o Senhor os dispersou dali por toda a terra, e eles pararam de construir a cidade. Por isso ela foi chamada de Babel — que significa confusão — porque ali o Senhor confundiu a língua de toda a terra, e dali os dispersou pela sua superfície.
Isso é algo realmente impressionante — e Lucas não fala diretamente disso; é uma observação que fazemos posteriormente, olhando para os dois textos lado a lado. No início, em Babel, os homens se uniram e se entenderam para construir uma cidade, uma fortaleza, uma torre que os tornasse célebres na terra, inesquecíveis, com seu poder manifesto. E Deus disse, em essência: "Isto é só o começo — esse projeto vai crescer, e da forma como estão se entendendo e se fortalecendo por si mesmos, isso vai resultar em domínio, em exploração, em controle, em glória humana, em orgulho bélico, em escravidão e coisas ainda piores." Por isso Deus disse: "Vamos espalhá-los." E em Babel as línguas foram confundidas bem no meio da construção — imagine a cena de um pedreiro pedindo uma colher e o outro trazendo um abajur, porque já não se entendiam mais.
Aqueles que buscavam poder, glória, força e domínio para si próprios, para que seu nome fosse levantado de maneira inesquecível — ali Deus confundiu. Mas agora, no Pentecostes, o movimento é o oposto: no momento em que o povo se une em torno da glória de Deus e é cheio do Espírito Santo, ao invés de confusão, Deus produz entendimento.
Os Quatro Cantos da Terra em Jerusalém
O texto de Atos 2 nos dá uma lista impressionante de nacionalidades presentes naquele dia em Jerusalém: partos, medos e elamitas — regiões que hoje correspondem ao Irã; naturais da Mesopotâmia — hoje Turquia, Iraque, Síria e Líbano; da Judeia; da Capadócia, do Ponto, da Ásia e da Frígia — regiões que hoje ficam na Turquia; do Egito e das regiões da Líbia, nas imediações de Cirene; romanos residentes ali — tanto judeus quanto prosélitos, ou seja, pessoas que não nasceram judias mas se converteram ao judaísmo; cretenses, moradores de uma ilha importantíssima na rota comercial da época; e árabes.
Olhando para um mapa do mundo conhecido daquela época, é como se Lucas tivesse desenhado um relógio cujos ponteiros varressem toda a terra — havia gente vinda dos quatro cantos do mundo reunida em Jerusalém.
Vale lembrar o que está escrito em Atos 1, versículo 8: "Ficai em Jerusalém, porque do alto vocês receberão poder e serão minhas testemunhas em Jerusalém, na Judeia, em Samaria e até os confins da terra." Passados dez dias do Pentecostes, essa palavra começou a se cumprir, porque havia gente dos quatro cantos da terra conhecida da época — e essas pessoas ouviram falar das grandezas de Deus em sua própria língua materna.
Fico imaginando: no artigo seguinte falaremos sobre a pregação de Pedro, e você vai perceber que três mil pessoas se converteram a Cristo naquele dia. Imagine esses três mil voltando para suas respectivas cidades, levando Cristo com eles. Como eu costumo dizer: nós fazemos a nossa parte, e Deus faz a dele. Aqueles cento e vinte ali dentro do Cenáculo certamente pensavam: "Como é que nós, apenas cento e vinte, vamos alcançar a terra toda?" E a resposta de Deus, em essência, era: "Fiquem tranquilos, vocês não sabem o que eu vou fazer. Aquilo que um dia foi separado e disperso, eu vou reunir em torno do meu nome. Aquilo que um dia foi espalhado e confuso, hoje eu vou tornar inteligível pelo meu Espírito. Aquilo que foi separado, hoje eu vou tornar em comunhão."
Acho isso muito interessante, porque, quando lemos o Antigo Testamento, vemos que Deus ungia sacerdotes, que eram consagrados a Ele, e esses homens reuniam o povo em cerimônias — como lemos em Neemias, quando, na reconstrução de Jerusalém, a lei era lida ao povo, e Israel se ajuntava em torno da lei do Senhor. Deus também ungia e capacitava seus profetas: quando Israel caía em pecado e se desviava dos caminhos de Deus, o profeta vinha com uma palavra de juízo ou de exortação, para que o povo se arrependesse e se unisse em torno daquela palavra. Assim como Deus reunia seu povo em torno de um sacerdote ungido e de um profeta ungido, agora Ele estava dizendo que o mundo entenderia essa mensagem — e se curvaria diante dEle pela voz da sua igreja.
Babel e Pentecostes: Confusão e Unidade
Nós somos gente de diferentes culturas. Aqui há descendência de todos os cantos do mundo, porque o Brasil é formado por pessoas de várias etnias. Há quem tenha o hábito de colocar o feijão embaixo do arroz, e quem faça o contrário. Há quem vire a roupa do avesso para lavar, e quem não vire. Cada um de nós carrega hábitos, costumes e preferências diferentes — gostamos de estilos musicais diferentes, uns preferem o samba, outros o pagode, outros o rock. Temos opiniões diferentes sobre como o país deve ser governado, sobre economia, sobre sociedade.
Mas nenhuma dessas vozes pode ser predominante a ponto de dominar a maneira como pensamos, porque nós somos de um outro reino — falamos uma outra linguagem. É por isso que não devemos defender com unhas e dentes as nossas posições dizendo "eu sou disso", "eu sou daquilo", "eu sou de centro", "eu sou de direita", "eu sou de esquerda". Tudo isso é apenas uma maneira como os homens enxergam a construção de sua própria cidade e de sua própria torre. Nós falamos a língua do reino, e ela não é especificamente um idioma — é algo que comunica com todos. O dom derramado no Pentecostes foi, essencialmente, uma manifestação voltada para a expansão do reino de Deus.
É por isso, aliás, que eu disse no início que talvez o título "Dom de Línguas", dado por editores a esse texto, não seja exatamente o que Lucas quis transmitir. O livro de Atos foi escrito depois da primeira carta aos Coríntios, quando Paulo já havia ensinado sobre os dons espirituais. Lucas viajou com Paulo e, mesmo não estando ao lado dele quando escreveu a carta aos coríntios — pelo menos não temos evidências disso —, é bem provável que já conhecesse o ensino de Paulo sobre os dons quando escreveu Atos. A voz de Paulo ensinando sobre os dons já estava no ouvido de Lucas. Mas ele não chamou o que aconteceu ali de "dom" — foram os leitores, posteriormente, que colocaram esse título. É por isso que insisto: não devemos nos deixar sugestionar. O que aconteceu ali foi algo diferente. Não sabemos ao certo se cada um falava um idioma correspondente a quem estava fora, ou se era Deus quem traduzia para cada ouvinte em sua própria língua. De qualquer forma, foi algo fenomenal, que mostra que não há barreiras.
Independentemente de como você compreende teologicamente esse dom — se você segue uma linha mais pentecostal, ou não —, o fato é que, no Pentecostes, as línguas eram línguas conhecidas. Mas, além dessa questão, o que realmente importa é que o reino estava sendo proclamado. Acho que o maior fenômeno daquele dia é que a glória de Deus se manifestou, e todo mundo entendeu.
Enquanto em Babel os homens se uniram para exaltar seu próprio nome e construir sua própria torre — e por isso Deus confundiu suas línguas —, no Pentecostes acontece o inverso: quando o povo se reúne em torno da glória de Deus, cheio do Espírito, ao invés de confusão, surge o entendimento. A torre de Babel buscava tornar os homens célebres por seus próprios méritos; o Pentecostes reúne os homens em torno de um único nome que não é o deles, mas o de Cristo.
Os Três Grupos e os Que Zombavam
O texto diz que outros zombavam e diziam: "Estão bêbados." Há quem interprete que esses zombadores estavam se referindo aos que estavam lá dentro, aos apóstolos, dizendo que eles estavam cheios do Espírito como quem está embriagado. Mas não é isso que o texto afirma. Vejamos com cuidado a estrutura da cena: havia cento e vinte pessoas dentro do Cenáculo, e havia uma multidão perplexa do lado de fora, cada um ouvindo aquela celebração — cânticos ou orações — em sua própria língua. E, depois, Lucas usa a palavra grega héteros, que significa "um outro", mas de uma natureza diferente.
Não foram os que estavam fora que disseram que os de dentro estavam bêbados — os de fora estavam perplexos. E também não foram os de dentro que disseram isso a respeito dos de fora. O texto indica que havia um terceiro grupo, que também estava ouvindo todo aquele barulho e toda aquela celebração, e que dizia: "O que está acontecendo ali? Eles não estão falando na minha língua — estão bêbados!"
Imagino que esse terceiro grupo não entendia o que estava acontecendo lá dentro. Não conseguiam ouvir naquela língua que os outros, misteriosamente, entendiam. É como se o texto estivesse dizendo: "Vocês estão confusos, encheram a cara, e acham que estamos falando o idioma de vocês." Há gente que ouve o barulho, ouve o som, mas não percebe o que realmente está acontecendo. E há gente que sente como se o Espírito estivesse falando diretamente com ela — como se dissesse: "É com você que estou me comunicando." Talvez tenha sido assim no meio da sua dor, no meio da sua batalha, no meio da sua guerra pessoal, que Deus falou a sua língua. Deus falou de um jeito que você entendeu.
Não sei explicar exatamente como uma pessoa se converte. Existem linhas teológicas diferentes sobre isso. Luiz Fernando dos Santos — já falecido —, havia sido monge beneditino, estudara no Vaticano e conhecia a história da igreja como poucos. Ele havia se convertido e se tornado pastor presbiteriano, e lecionava seminários. Certa vez perguntei a ele: "Professor, os católicos não passaram pela Reforma Protestante. Depois da Reforma, temos a ideia calvinista da eleição — se converte quem está eleito —, ou a visão arminiana, de que é uma decisão humana. Mas os católicos não têm essa separação. Como o católico entende que uma pessoa se converte?" E ele respondeu: "Para o católico, isso é um mistério." Eu disse então: "Então acho que sou católico" — porque, na verdade, as pessoas tentam adivinhar exatamente como uma pessoa se converte, e eu não sei explicar com precisão. Só sei que, um dia, Deus falou a minha língua.
Eu estava sentado nas primeiras fileiras da Primeira Igreja Batista do Ipiranga, devia ter uns onze ou doze anos, ao lado dos meus amigos adolescentes, quando o pastor Cornélio Dorta Bernardes pregava. Não me lembro da mensagem, mas lembro que meu coração ardia, e eu pensava: "É Jesus." Quando ele disse: "Quem quer receber Jesus, levante a mão", eu já estava lá na frente. Não sei explicar exatamente como aconteceu, mas Deus falou comigo, na minha língua, e eu entendi. Talvez houvesse outras pessoas ali dentro que nunca tinham pisado numa igreja e ficaram indiferentes. Mas, para mim, foi muito claro.
E é isso que considero o fenômeno mais extraordinário desse texto: Deus vem falar com os homens, e a igreja é o instrumento dessa voz.
A Língua do Reino: Como Deus Fala ao Coração
Deus vem falar com os homens, e a igreja fala como Cristo falou. Cristo fala a língua da samaritana, com quem ninguém queria conversar. Fala a língua da prostituta, que todos queriam apedrejar. Fala a língua do publicano e do pecador, sentando-se com eles à mesa, sem constrangimento. Jesus fala a língua do centurião romano; fala a língua dos discípulos pescadores, assim como fala a língua que os religiosos e saduceus também entendiam. Ele consegue falar com Herodes, e consegue falar com o pobre Bartimeu, cego, mendigo à beira do caminho — assim como falava com os nobres. Porque a palavra de Cristo alcançava a todos.
Isso me espanta hoje, quando vejo pessoas que, em nome do evangelho, não conseguem conversar com quem pensa diferente. Me espanta ver as redes sociais cheias de gente que, em nome do evangelho, trata quem não é cristão com ódio, com acusação, ou, como vimos há alguns dias, com deboche — dizendo quem é pecador e quem merece ou não a graça de Deus. Enquanto isso, a igreja recebeu a glória de Deus justamente para conseguir se comunicar com todo mundo. Não sei se todo mundo vai se converter, mas conseguimos falar com todos. Isso não significa dizer a alguém que ele está certo em tudo o que pensa e pode simplesmente vir para a igreja sem transformação — não é isso. Nós falamos da glória de Deus; quem vai entender e seguir a Cristo é um outro assunto.
É por isso que não me preocupo tanto em publicar o que penso a respeito de tal linha socioeconômica ou política. Posso até ter minhas opiniões, mas, na verdade, o que realmente acredito é em Cristo — que faz os homens se entenderem. Porque há gente muito preocupada em ser cheia do Espírito, mas que não consegue falar a língua do próprio filho, que está no quarto ao lado, e mesmo assim não se comunicam. Dorme ao lado da esposa, mas não se entendem. Falam línguas diferentes com a sogra, com o sogro, com o avô, com a mãe, com um colega de trabalho, com o vizinho — e até mesmo dentro da igreja.
E, ainda assim, é um milagre: como pode gente tão diferente, com hábitos tão diferentes, vinda de lugares tão diferentes, se unir em torno de algo em comum? Se começássemos a perguntar sobre os costumes de cada um aqui, seria uma loucura — pareceria um grande reality show. Mas nós entendemos a voz do Espírito, e todos nos curvamos a essa voz, para vivermos como Cristo viveu e sermos moldados à Sua semelhança.
Esse mundo precisa da igreja. Ela é a única voz capaz de unir a todos — direita e esquerda, torcedores de times rivais, alemão e judeu e árabe, argentino e brasileiro. Todos ouvem a mesma voz e perguntam: "O que é isso?" É por isso que acredito que, ali dentro do Cenáculo, eles não estavam falando diretamente sobre Cristo — porque os judeus piedosos entenderam o que ouviam, e por isso creio que estivessem recitando Salmos ou a lei, e entenderam. Na próximo artigo, veremos o que Pedro pregou: que tudo aquilo, na verdade, apontava para Cristo.
Por Que Buscar Ser Cheios do Espírito
Fica então a pergunta que não quer calar: para que buscamos ser cheios do Espírito? Para construir a nossa própria torre? Independentemente de como você compreende teologicamente o dom de línguas, você tem toda a liberdade de fazer a sua interpretação e acreditar da maneira que considerar mais correta — essa não é a intenção central da nossa reflexão hoje.
Mas por que eu quero ser cheio do Espírito, enquanto há gente morrendo ao meu lado? Por que eu quero ser cheio do Espírito, se estou em desavença com pessoas que amo e não consigo me entender com elas? Onde não há humildade, não há perdão, a linguagem do reino não se estabelece. Por que nós, igreja, queremos ser cheios do Espírito apenas para que, dentro de quatro paredes, cantemos e vivamos um momento de glória? Isso é bom, e ficamos muito felizes por isso — mas o propósito vai além. Vocês receberão poder para serem minhas testemunhas até os confins da terra.
Minha oração é que eu tenha essa mesma capacidade de me fazer entender — não para engrandecer a mim mesmo, não para construir a minha própria torre, não para convencer as pessoas de que sou o melhor, mas para que elas vejam a glória de Deus. Eu queria muito que as pessoas vissem essa glória, que as conhecessem verdadeiramente. Penso em nossos missionários, por exemplo os que estão na Índia — imagino como deve ser a oração deles: não apenas aprender a língua, mas deixar que a cultura daquele povo entre em suas vidas, para se fazerem compreender, para a glória de Deus.
Quem é que você não entende? Ou quem é que não te entende? Creio que a nossa oração deveria ser: "Espírito, enche-nos, para que, ao invés da confusão de Babel, tenhamos a unidade do Pentecostes." A glória não é nossa. A torre não é nossa. Mas que todo aquele que entender glorifique o nome de Deus e se curve diante dEle. Que sejamos o povo que se entende, porque é uma única voz do Espírito que nos une.
Fonte: A casa da Rocha. 04 - Línguas, unidade e missão - Zé Bruno - Meu Caro Amigo 2. https://www.youtube.com/live/LLYqwXFVYZQ
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