Introdução aos Atributos Comunicáveis: A Imanência e a Partilha da Natureza Divina
O estudo da teologia sistemática e da natureza de Deus exige uma distinção fundamental entre as qualidades que lhe são exclusivas e aquelas que Ele escolheu compartilhar com a humanidade. Enquanto os atributos incomunicáveis — como a eternidade, a onipresença e a imutabilidade — ressaltam a transcendência de Deus e sua total distinção da criação, os atributos comunicáveis revelam a sua imanência.
A imanência divina refere-se à presença ativa de Deus na criação e à sua proximidade relacional com os seres humanos. É através desses atributos comunicáveis que se torna possível compreender o conceito bíblico de que o homem foi criado à "imagem e semelhança" de Deus. Embora Deus seja infinito em todas as suas perfeições e o ser humano seja finito, existe uma analogia, um ponto de contato, que permite aos seres criados refletirem, ainda que de maneira limitada, o caráter do Criador.
"E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança..." (Gênesis 1:26)
Esta partilha da natureza divina não significa que o ser humano se torne divino, mas que possui a capacidade de exibir qualidades que encontram sua fonte original em Deus. Os teólogos costumam classificar esses atributos em três categorias principais para facilitar o estudo e a compreensão:
- Atributos Mentais: Relacionados ao intelecto, conhecimento e sabedoria.
- Atributos Morais: Relacionados à bondade, justiça e santidade.
- Atributos de Propósito (ou Volitivos): Relacionados à vontade e ao poder de agir.
É crucial notar que, mesmo nos atributos comunicáveis, há uma distinção qualitativa e quantitativa abismal entre Deus e o homem. O conhecimento humano é adquirido e limitado; o de Deus é intuitivo e infinito. A bondade humana é derivada e falha; a de Deus é originária e perfeita. Portanto, ao estudarmos esses atributos, somos chamados não apenas ao conhecimento intelectual, mas ao reconhecimento de nossa dependência para exercitar qualquer virtude.
A compreensão desses atributos é vital para a vida cristã prática, pois define o padrão de conduta e caráter que se espera daqueles que professam a fé. Se Deus é santo, amoroso e verdadeiro, seus seguidores são instados a buscar essas mesmas características em suas vidas diárias.
Atributos Mentais: A Profundidade do Conhecimento, Sabedoria e Fidelidade
Dentro da esfera dos atributos comunicáveis, as faculdades mentais de Deus — seu intelecto e conhecimento — servem como o arquétipo para a mente humana. Embora a capacidade humana de raciocinar e conhecer seja um reflexo da imagem divina, a distinção entre o Criador e a criatura permanece absoluta em termos de alcance e perfeição.
O Conhecimento Divino
O conhecimento de Deus é definido por sua onisciência. Diferentemente do aprendizado humano, que é um processo gradual de acumulação de informações externas, o conhecimento de Deus é intrínseco, eterno e completo. Ele conhece a si mesmo perfeitamente e conhece todas as coisas fora de si — tanto as reais quanto as possíveis — em um único ato eterno de compreensão.
Para o ser humano, o conhecimento é limitado pelo tempo e pelo espaço. Para Deus, não há mistérios nem descobertas. As Escrituras enfatizam que Ele é "perfeito em conhecimento" (Jó 37:16). Isso tem implicações profundas para a existência humana, pois significa que cada detalhe da vida, cada pensamento e cada palavra são plenamente conhecidos pelo Criador.
"Senhor, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me sento e quando me levanto; de longe percebes os meus pensamentos... Antes mesmo que a palavra me chegue à língua, tu já a conheces inteiramente, Senhor." (Salmos 139:1-4)
A Sabedoria de Deus
É essencial distinguir conhecimento de sabedoria. Enquanto o conhecimento refere-se à apreensão de fatos e verdades, a sabedoria é a aplicação correta desse conhecimento. Teologicamente, a sabedoria de Deus significa que Ele sempre escolhe os melhores objetivos possíveis e os melhores meios para alcançá-los.
A criação do universo e o plano da redenção são as maiores demonstrações dessa sabedoria. Na criação, vemos a complexidade e a ordem que sustentam a vida; na redenção, vemos como Deus orquestrou a salvação da humanidade através de Cristo, "poder de Deus e sabedoria de Deus" (1 Coríntios 1:24).
Os seres humanos compartilham deste atributo comunicável quando aplicam o conhecimento bíblico e prático para viverem vidas que honram a Deus e beneficiam o próximo. No entanto, a sabedoria humana é derivada, enquanto Deus é "o único Deus sábio" (Romanos 16:27).
"Quantas são as tuas obras, Senhor! Fizeste todas elas com sabedoria! A terra está cheia de seres que criaste." (Salmos 104:24)
A Veracidade e Fidelidade
Os atributos mentais de Deus também englobam sua veracidade e fidelidade. Deus é o Deus verdadeiro, em contraste com os ídolos que são falsos e inexistentes. Isso implica que todo o seu conhecimento é verdadeiro e que todas as suas palavras são a própria definição de verdade e o padrão final de realidade.
"Mas o Senhor é o Deus verdadeiro; ele é o Deus vivo; o rei eterno..." (Jeremias 10:10)
A fidelidade é a manifestação prática da veracidade de Deus. Porque Ele é verdadeiro, Ele é confiável. Ele nunca deixará de cumprir suas promessas. Como atributo comunicável, a veracidade chama o ser humano à integridade. A mentira e o engano são contrários à natureza divina; portanto, refletir a imagem de Deus exige um compromisso inegociável com a verdade em todas as esferas da vida.
"Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade." (João 17:17)
Atributos Morais: A Essência da Bondade, o Amor Redentor e a Ira Divina
Os atributos morais de Deus constituem a base ética do universo e revelam o caráter do Criador em sua relação com as criaturas morais. Diferente dos atributos mentais, que tratam da capacidade, os atributos morais tratam da qualidade e da pureza do caráter divino. Eles são fundamentais para entender o conceito de "bem" e "mal".
A Bondade de Deus e Suas Manifestações
A bondade de Deus é a definição suprema do que é ser bom. Significa que Deus é o padrão final de tudo o que é excelente e desejável, e que Ele busca o bem-estar de suas criaturas. Esta bondade não é estática; ela se desdobra em três aspectos práticos fundamentais na experiência humana:
- Misericórdia: É a bondade de Deus manifestada para com aqueles que estão em miséria e aflição.
- Graça: É a bondade de Deus estendida àqueles que merecem apenas punição; é o favor imerecido.
- Paciência: É a bondade de Deus em reter a punição devida por um tempo, dando oportunidade ao arrependimento.
"Louvai ao Senhor, porque ele é bom, porque a sua benignidade dura para sempre." (Salmos 106:1)
O Amor Divino
Talvez o atributo mais celebrado, o amor (em grego, agape) é central na natureza de Deus. A Bíblia declara explicitamente que "Deus é amor" (1 João 4:8). O amor divino é caracterizado pela auto-doação em benefício de outros. A maior prova deste atributo foi o envio de Jesus Cristo para a redenção da humanidade. Como atributo comunicável, o amor é o mandamento supremo para os cristãos.
"Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados." (1 João 4:10)
Santidade: A Separação AbsolutaPublicidade
A santidade de Deus possui dois aspectos principais: sua completa separação de qualquer pecado ou mal, e sua total dedicação à própria honra. Deus é absolutamente puro. Para o ser humano, a santidade implica uma separação dos padrões pecaminosos do mundo e uma consagração ao serviço divino. O imperativo bíblico é claro quanto à comunicabilidade deste atributo:
"Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver; porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo." (1 Pedro 1:15-16)
Justiça e Retidão
A justiça (ou retidão) de Deus significa que Ele sempre age de acordo com o que é certo e que Ele é o padrão final do que é justo. Isso implica que Deus deve tratar as criaturas de acordo com as regras que Ele estabeleceu: punindo o pecado e recompensando a obediência. A justiça divina garante que não há arbitrariedade no universo; há uma ordem moral inabalável.
"Ele é a Rocha, as suas obras são perfeitas, e todos os seus caminhos são justos. É Deus fiel, que não comete erros; justo e reto ele é." (Deuteronômio 32:4)
Ciúme e Ira: A Defesa da Santidade
Frequentemente mal compreendidos, o ciúme e a ira de Deus são atributos morais necessários decorrentes de sua santidade.
- Ciúme Divino: Diferente da inveja humana, o ciúme de Deus é o zelo protetor pela sua própria honra e pelo bem-estar do seu povo. Ele não aceita dividir a adoração devida a Ele com ídolos falsos.
- Ira Divina: É a aversão intensa e controlada de Deus contra todo pecado. Não é um acesso de raiva descontrolado, mas uma oposição settled e justa contra o mal. Se Deus ama o que é bom, Ele necessariamente deve odiar o que é mau.
"Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens..." (Romanos 1:18)
Atributos de Propósito: A Soberania da Vontade e a Onipotência de Deus
Os atributos de propósito, também chamados de atributos volitivos, referem-se à capacidade de Deus de tomar decisões e à força necessária para executar tais decisões. Estes atributos explicam o fundamento da existência do universo: nada existe por acaso, mas sim como resultado da vontade intencional e do poder de um Criador soberano.
A Vontade de Deus
A vontade de Deus é a razão final para tudo o que acontece na criação. Teologicamente, ela é frequentemente dividida em dois aspectos para facilitar a compreensão humana: a vontade decretiva (ou secreta) e a vontade preceptiva (ou revelada).
- Vontade Secreta: Refere-se aos decretos ocultos de Deus, pelos quais Ele governa o universo e determina o curso da história. Estes planos não são completamente conhecidos pelos seres humanos até que aconteçam.
- Vontade Revelada: Consiste nas leis, mandamentos e preceitos que Deus deu à humanidade nas Escrituras. É o padrão de conduta que Ele deseja que suas criaturas sigam.
Como atributo comunicável, a vontade humana é um reflexo pálido, mas significativo, da vontade divina. O ser humano possui a capacidade de fazer escolhas reais e significativas, exercendo agência sobre sua vida e ambiente, embora esta vontade seja sempre limitada e nunca soberana como a de Deus.
"Nele fomos também escolhidos, tendo sido predestinados conforme o plano daquele que faz todas as coisas segundo o propósito da sua vontade..." (Efésios 1:11)
A Liberdade Divina
Estritamente ligada à vontade está a liberdade. A liberdade de Deus significa que nada fora dele mesmo pode impedi-lo ou forçá-lo a agir. Ele não está sujeito a restrições externas. Sua única "restrição", se assim pode ser chamada, é a sua própria natureza: Deus não pode fazer nada que contradiga seu caráter (por exemplo, Deus não pode mentir ou ser injusto).
Para o ser humano, a liberdade (ou livre-arbítrio) é a capacidade de agir de acordo com seus desejos e natureza. Contudo, ao contrário da liberdade absoluta de Deus, a liberdade humana é condicionada por fatores físicos, mentais e espirituais.
A Onipotência (Poder)
A onipotência de Deus refere-se ao seu poder infinito e ilimitado de realizar tudo o que sua santa vontade determina. Nas Escrituras, Ele é frequentemente chamado de El Shaddai (Deus Todo-Poderoso).
É importante esclarecer que onipotência não significa a capacidade de fazer o ilógico (como criar um círculo quadrado) ou o imoral (como pecar), pois tais coisas contradiriam a lógica que Ele criou ou a sua própria essência santa. A onipotência significa que Deus tem poder absoluto sobre sua criação e soberania total sobre todas as possibilidades.
"Ah! Soberano Senhor, tu fizeste os céus e a terra pelo teu grande poder e pelo teu braço estendido. Nada é difícil demais para ti." (Jeremias 32:17)
"Jesus olhou para eles e respondeu: Para o homem é impossível, mas para Deus todas as coisas são possíveis." (Mateus 19:26)
O ser humano compartilha deste atributo de forma muito limitada através da força física e mental para realizar tarefas e moldar o mundo ao seu redor. Contudo, enquanto o poder humano se esgota e falha, o poder de Deus é inesgotável e perfeito.
Conclusão: O Chamado à Imitação e a Prática da Vida Cristã
O estudo dos atributos comunicáveis de Deus não deve ser encarado como um mero exercício intelectual ou acadêmico. Ele possui uma finalidade prática e transformadora: revelar o padrão original para o qual a humanidade foi criada. Entender quem Deus é fornece o mapa para entender quem o ser humano deve ser.
A teologia sistemática nos lembra que somos portadores da Imago Dei (Imagem de Deus). Embora essa imagem tenha sido manchada pela queda e pelo pecado, o propósito da redenção em Cristo é restaurá-la. Portanto, a vida cristã pode ser resumida como um processo contínuo de imitação de Deus.
"Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados." (Efésios 5:1)
Cada atributo estudado lança um desafio prático para o cotidiano:
- Diante da Sabedoria divina, o homem deve buscar viver com prudência e propósito, não como insensato.
- Diante da Santidade divina, o cristão é chamado a purificar-se de tudo o que contamina o corpo e o espírito.
- Diante do Amor divino, o crente é compelido a amar o próximo sacrificialmente, sem esperar retribuição.
- Diante da Veracidade divina, a mentira e a hipocrisia devem ser abandonadas em favor da integridade.
Reconhecer que possuímos esses atributos apenas de forma limitada e derivada deve gerar humildade. Não somos a fonte da bondade ou da sabedoria; somos como espelhos projetados para refletir a luz do Criador. Quando o espelho está sujo pelo pecado, o reflexo é distorcido. A santificação é o processo de limpeza desse espelho, permitindo que o caráter de Deus brilhe com mais clareza através da vida humana.
Em última análise, os atributos comunicáveis são um convite ao relacionamento. Deus não é uma força impessoal distante; Ele é um Ser pessoal que pensa, sente, quer e age. Ele convida suas criaturas a compartilhar dessa comunhão, crescendo em conhecimento e semelhança com Ele, até o dia em que, como promete a Escritura, "o veremos como Ele é" e seremos plenamente restaurados.
Sexta Igreja. OS ATRIBUTOS DE DEUS - PARTE 2 | AULA 10 | CURSO DE TEOLOGIA REFORMADA | PR DIEGO RUY. Disponível em: https://youtu.be/fgc1Ry7LTkw?si=dVeZszDHeij8XxBn