A Dualidade da Igreja: Instituição Humana e Organismo Vivo
Ao abordarmos o tema da contribuição financeira e do dízimo, é fundamental, primeiramente, compreender a natureza do que chamamos de "igreja". Vivemos em uma interseção entre duas realidades distintas, dois conjuntos que, embora se toquem, possuem essências completamente diferentes. Compreender essa dualidade é o primeiro passo para alinhar a motivação correta por trás de qualquer ato de generosidade.
A primeira realidade é a Igreja Institucional. Esta é a faceta mais visível e conhecida, muitas vezes alvo de críticas ou defesas apaixonadas. Trata-se da estrutura organizacional humana: a entidade que possui um estatuto, que é registrada na junta comercial e que, juridicamente, funciona como uma associação. A igreja institucional opera com presidências, lideranças, métodos de votação, regimentos internos, missões e valores definidos corporativamente. É uma organização estabelecida na terra, gerida por regras humanas necessárias para o funcionamento de um grupo na sociedade civil.
Em contrapartida, existe a Igreja Orgânica. Esta é a definição bíblica e teológica mais profunda. A igreja, sob esta ótica, não é uma organização, mas um organismo vivo. Ela é composta por gente, por seres humanos conectados não por burocracia, mas por uma fé comum.
"A Igreja Bíblica é a igreja que nos mostra o que chamamos de igreja Mística; ela não tem paredes, ela não tem um lugar geográfico, ela é a ligação de todas as pessoas que foram lavadas pelo mesmo sangue de Jesus."
O apóstolo Paulo, em seus escritos, refere-se a essa conexão como pessoas que possuem "entranhados afetos" que ligam uns aos outros. A igreja orgânica transcende denominações e placas; ela é o corpo de Cristo em movimento na história.
O grande desafio contemporâneo reside na confusão entre "ir à igreja" e "ser a igreja". Muitas vezes, a ênfase recai desproporcionalmente sobre a instituição. Cria-se uma cultura de "torcida organizada", onde o orgulho de pertencer a uma determinada placa, denominação ou prédio supera o orgulho de pertencer a Cristo. Frases como "a minha igreja é melhor", "meu prédio é maior" ou "nossa estrutura é superior" revelam uma mentalidade focada no "monstrengo" institucional que construímos, em detrimento da simplicidade do organismo vivo.
É vital reconhecer que a igreja institucional tem seu lugar — afinal, vivemos em cidades, obedecemos a leis e precisamos de um mínimo de organização para nos reunirmos — mas ela não deve ser o fim em si mesma. A organização deve existir apenas para servir ao organismo. Quando entendemos que não vamos para a igreja, mas somos a igreja, a perspectiva sobre tudo, inclusive sobre o dinheiro, começa a mudar.
A Organização Necessária: Leveza, Simplicidade e Propósito
Embora a essência da igreja seja um organismo espiritual, a realidade de vivermos em uma sociedade civil impõe a necessidade de alguma estrutura. Para um grupo de pessoas se reunir regularmente, especialmente em grandes cidades, é preciso respeitar leis, garantir a segurança e estabelecer uma ordem mínima. No entanto, a sabedoria reside em como essa estrutura é edificada.
O ideal a ser perseguido é que a organização seja a mais leve e mínima necessária. O perigo surge quando a estrutura burocrática se torna pesada demais, fazendo com que os membros girem em torno da manutenção da instituição, esquecendo-se da vida orgânica. A organização deve ser um andaime que sustenta a construção, não o prédio em si.
Para ilustrar essa distinção, podemos imaginar um cenário hipotético: se a igreja decidisse se reunir em um parque público, ler a Bíblia, cantar e cultuar a Deus, e depois cada um fosse para sua casa, isso deixaria de ser igreja? Absolutamente não. Não haveria custo de aluguel, conta de luz ou funcionários. A igreja continuaria existindo plenamente, pois a igreja não depende de onde se reúne, nem de como se reúne, mas sim do porquê se reúne.
"Igreja não é onde você vai, mas é o que você é."
No entanto, a comunidade muitas vezes decide que quer caminhar junta de forma mais estruturada. Decide-se ter um espaço para que as crianças sejam ensinadas em segurança, um local para acolher os aflitos a qualquer hora, ou uma base para organizar ações de serviço à cidade. É nesse momento que a organização nasce: não como um fim, mas como uma ferramenta para potencializar a missão do organismo.
A motivação dessa união vem do próprio "cabeça", que é Cristo. Assim como um sistema nervoso central impulsiona todos os membros de um corpo, Cristo impulsiona a igreja a ser "luz e sal" no mundo.
Neste contexto, os dons e ministérios assumem seu verdadeiro significado. Enquanto na igreja puramente institucional os cargos muitas vezes servem para disputas políticas, títulos e hierarquias de poder, na igreja orgânica eles servem para o serviço mútuo.
"Um tem palavra, o outro tem profecia, o outro tem exortação [...] sujeitai-vos uns aos outros no temor do Senhor."
Portanto, a organização válida é aquela que facilita esse fluxo de vida, onde quem ensina, quem toca instrumentos ou quem cuida dos adolescentes o faz não para sustentar uma máquina, mas para edificar pessoas, criando um ambiente onde o corpo de Cristo possa se manifestar com saúde e propósito.
O Papel do Dinheiro: A Igreja Precisa de Recursos?
Diante da compreensão de que a igreja é essencialmente um organismo vivo, surge uma pergunta provocativa: a igreja precisa de dinheiro? A resposta mais honesta e direta é: necessariamente, não.
Historicamente, a relação da comunidade de fé com a oferta nem sempre foi monetária. Houve tempos em que a contribuição era feita através do produto da terra, plantações e animais. A moeda, como valor de troca cunhado, é uma invenção posterior na história humana. Portanto, a essência do culto e da comunhão não está atrelada ao capital financeiro.
Se transportarmos esse raciocínio para a atualidade, a lógica permanece. Se uma comunidade decide se reunir em um imóvel alugado, o dinheiro só se torna necessário porque vivemos em um sistema econômico que exige essa moeda de troca. Se o proprietário do imóvel aceitasse o pagamento em pares de meias, alimentos ou serviços, a igreja poderia funcionar perfeitamente sem movimentar um centavo. Ou, se a comunidade decidisse não ter custos fixos, reunindo-se em locais públicos, a necessidade financeira desapareceria completamente.
Por que, então, a igreja lida com dinheiro? A resposta reside na missão e na identidade do cristão.
A contribuição financeira na igreja nasce de um movimento missional de pessoas que se sentem "devedoras" do Evangelho a toda a sociedade. A igreja orgânica compreende que seu papel é ser luz e sal, e que os recursos podem ser ferramentas poderosas para viabilizar esse alcance, seja no cuidado com os pobres, na manutenção de um espaço acolhedor ou no envio de missionários.
Aqui, estabelece-se uma distinção crucial em relação à teologia da prosperidade:
"Eu não creio na prosperidade como uma doutrina nem como uma teologia, porque o cristão não é aquele que acumula, mas é aquele que reparte."
A igreja que recebe recursos não deve fazê-lo para enriquecer a instituição ou para entesourar para si mesma. A "igreja que recebe" são as pessoas cuidando de pessoas. O dinheiro deixa de ser um fim e volta a ser um meio para expressar generosidade e viabilizar a vida em comunidade num mundo prático. A organização arrecada para suprir o organismo, e não o contrário.
Liderança e Governo: O Pastor, a Comunidade e o Verdadeiro Dono
Quando analisamos a estrutura de governo da igreja sob a ótica da dualidade entre instituição e organismo, uma pergunta frequente surge: o pastor deve ser o "dono" da igreja? A resposta bíblica e ética é enfática: absolutamente não.
A Igreja não possui donos humanos; seu único dono e cabeça é Cristo. O papel de qualquer liderança humana é funcional e de serviço, jamais de posse. Mesmo em casos onde um líder é o fundador da comunidade local, um modelo saudável de governança implica que ele se submeta à vontade do corpo. A legitimidade de um pastor não deve vir da imposição, mas do reconhecimento da comunidade de que aquela pessoa carrega uma vocação necessária para o grupo.
"A igreja não tem donos, o dono é Cristo. O trabalho da liderança é trabalhar pelas pessoas."
Nesse contexto, a questão da remuneração pastoral também deve ser tratada com racionalidade e transparência. O pastor tem que receber salário da igreja? Não necessariamente. Existem muitas comunidades pequenas onde a demanda de trabalho não exige dedicação exclusiva, permitindo que o líder exerça sua vocação enquanto mantém outra profissão secular.
No entanto, à medida que o organismo cresce, as necessidades humanas se multiplicam. Acompanhar nascimentos, realizar sepultamentos, visitar enfermos em hospitais, prestar aconselhamento e coordenar a assistência social são tarefas que exigem tempo e energia. Muitas vezes, é a própria comunidade que reconhece a necessidade de ter alguém dedicado 24 horas por dia a essas funções.
A remuneração, portanto, não deve ser vista como um pagamento por performance ou um privilégio hierárquico, mas como o sustento de um trabalhador que serve ao corpo.
"Aquele que faz isso não faz por causa do dinheiro, mas faz por causa do serviço."
O equilíbrio saudável ocorre quando a contribuição financeira dos membros não é motivada pela idolatria ao líder, mas pela compreensão de que estão sustentando uma estrutura de serviço mútuo, onde uns cuidam dos outros e todos servem à missão comum.
A Motivação do Coração: Amor, Alegria e o Fim da Barganha
Muitas das resistências e feridas relacionadas ao dízimo e às ofertas não nascem da falta de generosidade das pessoas, mas da distorção causada pela supremacia da instituição sobre o organismo. Quando a igreja institucional se torna mais forte do que o próprio corpo e seus projetos particulares sufocam a simplicidade do Evangelho, a relação com o dinheiro adoece.
Nesse cenário deturpado, a contribuição financeira frequentemente se polariza em dois extremos nocivos: a ganância ou o medo.
- Ganância: A pessoa contribui porque "quer mais", movida pela teologia da prosperidade que transforma Deus em um mecanismo de investimento financeiro.
- Medo: A pessoa contribui porque teme "ter menos", receando maldições ou a ação de um "devorador" caso não cumpra o ritual.
Em ambos os casos, a relação de amor com Deus é substituída por uma barganha comercial. O louvor, a adoração e a generosidade genuína dão lugar a um cálculo frio de risco e recompensa.
A verdadeira motivação bíblica para a contribuição rompe completamente com essa lógica de troca. O cristão não deve dar por obrigação, nem por medo, nem por interesse. A base da entrega é o entendimento de que somos membros uns dos outros.
"Deus ama aquele que dá com alegria." 2 Coríntios 9:7
A alegria na contribuição surge quando a igreja se compreende como uma comunidade de amor. Quando o dinheiro é depositado não para sustentar uma estrutura fria, mas para viabilizar o cuidado mútuo e a missão de ser "luz e sal" fora das quatro paredes, o ato de ofertar se torna uma extensão da própria fé.
Em última análise, para se fazer igreja não é necessário dinheiro algum, apenas o sangue do Cordeiro e pessoas dispostas a caminharem juntas. No entanto, aqueles que compreendem a profundidade dessa união frequentemente decidem, com liberdade e alegria, usar seus recursos materiais para abençoar o corpo e expandir o Reino. A organização deve ser apenas a serva desse movimento orgânico de generosidade, garantindo que o amor prático chegue a quem precisa.
Casa da Rocha. 24 - Dízimo | parte 2/3: a igreja que recebe - Zé Bruno - Vetores. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=foZnVEJwmlE.