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A Ilusão da Fé Transacional: Entregando para Receber

Uma das questões mais inquietantes no cenário contemporâneo de muitas comunidades religiosas é a relação estabelecida entre a contribuição financeira e a expectativa de recompensa divina. Frequentemente, ouve-se a premissa de que o indivíduo deve "entregar tudo o que tem" sob a promessa de que, ao ficar desprovido de recursos imediatos, as "janelas do céu" se abrirão. No entanto, essa lógica levanta um questionamento prático e teológico fundamental: a bênção de Deus está condicionada à escassez provocada pela doação irrestrita?

Essa mentalidade transforma o dinheiro em um elemento central da fé, não como uma ferramenta de serviço, mas como uma moeda de troca. Cria-se um ambiente onde se "compra" a bênção. A dinâmica torna-se um movimento financeiro da fé, onde a instituição religiosa atua como um intermediário necessário. O fiel deseja um benefício específico (cura, prosperidade, bens materiais) e, para obtê-lo, entrega recursos à instituição, acreditando que esse ato obriga Deus a liberar o que foi desejado.

"A minha fé não é mais a minha rendição de um pecador diante de Cristo (...) na verdade eu não tive nem conversão; me disseram que eu posso ter o que eu quero, que esse 'cara' [Deus] me dá, quando eu entregar para esse outro [a instituição]."

Essa triangulação revela que, em muitos casos, o indivíduo continua servindo à própria ganância e insatisfação pessoal. A motivação deixa de ser o amor ou a missão e passa a ser o desejo de alimentar uma insatisfação crônica, descrita metaforicamente como algo muito maior que uma necessidade básica; é um desejo voraz que nunca se satisfaz.

A frequência aos cultos ou a adesão a uma denominação passa a ser motivada pelos "negócios" que ali podem ser realizados com o divino. Os testemunhos focam em aquisições materiais — carros, casas, roupas — como prova irrefutável da presença de Deus. Contudo, essa perspectiva colide frontalmente com o propósito do sacrifício cristão original.

É necessário refletir: quando Cristo foi à cruz, o objetivo era garantir que o ser humano conseguisse realizar todos os seus desejos materiais, ou era cumprir um desígnio maior de resgate e reconciliação? A postura da fé transacional inverte a oração modelo ensinada por Jesus. Em vez de orar "seja feita a Tua vontade", a prática da barganha financeira clama implicitamente por "seja feita a minha vontade", utilizando a Deus apenas como um facilitador de caprichos pessoais.


O Outro Lado da Moeda: A Retenção por Desconfiança ou Ganância

Se por um lado existe o fiel que contribui motivado pela ganância de receber mais, existe também uma reação oposta, mas igualmente fundamentada na relação com o dinheiro: a retenção deliberada por desconfiança ou por um senso de posse absoluta.

Este segundo grupo observa o cenário religioso, identifica os abusos e a manipulação financeira e decide adotar uma postura defensiva. O raciocínio é pragmático: "Não serei enganado, não entregarei nada, pois este dinheiro é fruto do meu trabalho". Muitas vezes, essa postura é acompanhada de uma teologia de proteção, onde o indivíduo busca respaldo bíblico para afirmar que não será amaldiçoado caso não contribua. Embora existam, de fato, argumentos bíblicos que combatem a ideia de maldição por falta de pagamento, a motivação interna precisa ser examinada.

A recusa em contribuir pode mascarar o mesmo apego material que motiva aquele que dá esperando retorno. Enquanto um entrega porque quer multiplicar seu capital, o outro retém porque quer preservar seu capital.

"Os dois são iguais aparentemente... um quer ter dinheiro por isso entrega, o outro quer guardar dinheiro por isso não entrega. Mas os dois dão ao dinheiro uma importância central. [...] Esse movimento não é retilíneo, é circular, e os dois chegam no mesmo ponto."

Ambas as posturas — a entrega por barganha e a retenção por avareza ou medo — fogem do propósito essencial da igreja. Em ambos os casos, o dinheiro é o protagonista da decisão, e não a fé, a missão ou o amor ao próximo. Aquele que diz "o dinheiro é meu e eu não vou deixar esse salafrário me enganar" pode estar certo em seu julgamento sobre a liderança corrupta, mas pode estar equivocado quanto à disposição de seu próprio coração em relação à generosidade.

O perigo reside na ilusão de superioridade moral. O indivíduo que retém sente-se mais esclarecido que o "ingênuo" que doa tudo, mas se a sua retenção impede a prática da solidariedade e do auxílio mútuo, ele se torna tão escravo de Mamom quanto aquele que tenta comprar milagres. A verdadeira questão não é a defesa da conta bancária contra charlatões, mas a liberdade interior para usar os recursos — sejam eles muitos ou poucos — como ferramentas de amor, e não como fins em si mesmos.


Filargia: O Diagnóstico Bíblico sobre a Relação com o Dinheiro

Para compreender a raiz dos desvios comportamentais relacionados às finanças dentro da fé, é essencial analisar o termo grego mencionado pelo apóstolo Paulo em sua primeira carta a Timóteo: Filargia (ou Philargyria). Esta palavra, que aparece de forma singular no Novo Testamento, oferece um diagnóstico preciso sobre a motivação humana.

Etimologicamente, o termo é a junção de dois conceitos: philos (amigo, aquele que ama) e argyros (prata, dinheiro). Portanto, filargia descreve aquele que nutre um afeto, uma amizade ou um amor que provém do dinheiro ou que é direcionado a ele. A tradução clássica sintetiza esse conceito na famosa advertência:

"Porque o amor do dinheiro é a raiz de todos os males." 1 Tm. 6:10

O texto bíblico não condena o dinheiro em si, mas a relação de "amizade" e dependência emocional que se estabelece com ele. É este "amor ao dinheiro" que impulsiona os ciclos viciosos de manipulação religiosa. Quando um indivíduo procura uma instituição prometendo "entregar muito" para "receber muito mais", ele está manifestando essa patologia espiritual. Ele não busca a Deus; ele busca a multiplicação daquilo que ele verdadeiramente ama: o capital.

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Essa amizade com o dinheiro é o combustível tanto para o líder que explora a fé alheia quanto para o fiel que se deixa explorar na esperança de enriquecimento. O "negócio" de ambos é a grana.

Neste contexto, a fé torna-se um instrumento secundário, utilizada apenas como alavanca para atingir objetivos financeiros. Deus não está envolvido nessa transação baseada na ganância. O que existe é um movimento circular de pessoas impulsionadas por um "pseudodeus" que promete prosperidade, validado por um desejo insaciável de acumulação. O diagnóstico da filargia revela que, enquanto o dinheiro for o objeto de afeto, a espiritualidade genuína — baseada no contentamento e na piedade — fica sufocada pela ambição material.


O Verdadeiro Propósito da Contribuição: Amor e Solidariedade

Diante dos extremos da ganância e da avareza, a narrativa bíblica propõe um "terceiro caminho" que não é pautado pela lógica de mercado, mas pela ética do amor sacrificial. O ensino de Jesus rompe com a contabilidade humana ao instruir sobre a generosidade radical:

"E ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; e se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes." Mt. 5:40-42

A contribuição cristã, em sua essência, não é um investimento para retorno pessoal, nem uma taxa associativa. O apóstolo Paulo, ao instruir Timóteo sobre como orientar os ricos, não pede que eles entreguem tudo para ficarem pobres como prova de fé, nem que retenham tudo para si. A orientação é que "sejam ricos de boas obras" e que estejam "prontos para repartir".

Nas epístolas paulinas, observamos o apóstolo organizando coletas, não para construir impérios ou enriquecer lideranças, mas para socorrer igrejas e irmãos que passavam por necessidades reais. O dinheiro, nessa perspectiva, deixa de ser um fim e torna-se um meio: uma ferramenta tangível para expressar cuidado e amor pelo próximo.

A igreja, portanto, deve ser um ambiente de repartição. Isso se traduz em ações práticas e urgentes, muito distantes da promessa de carros novos ou mansões. Trata-se de auxiliar no custeio de uma cirurgia, na compra de remédios essenciais, no pagamento de um aluguel atrasado ou no suporte a quem perdeu o emprego.

"A igreja é um lugar de gente que se ama. [...] Se a igreja for igreja de verdade, será que dá pra acreditar mesmo que Jesus pode habitar em alguém? Eu acho que sim."

Viver essa realidade é desafiador e arriscado. Existe o medo de que a bondade seja explorada, mas uma comunidade que afirma ter a "mente de Cristo" (Fp. 2:5) assume riscos em nome do amor. Ter o mesmo sentimento de Cristo implica em esvaziar-se de si mesmo e considerar o outro superior, utilizando os recursos disponíveis não para acumulação, mas para a promoção da vida e da dignidade do próximo. A verdadeira prosperidade do Evangelho é medida pela capacidade de aliviar o fardo do irmão, transformando números em atos de misericórdia.


Liberdade, Metanoia e a Essência da Igreja Orgânica

Em última análise, a discussão sobre contribuição financeira na igreja cristã desemboca no conceito de liberdade individual. Não há coação legítima no Evangelho; o indivíduo é plenamente livre para não entregar nada. A vida e os recursos pertencem a ele, e ele responde por suas escolhas.

No entanto, as perguntas mais frequentes dirigidas às lideranças revelam uma compreensão imatura da fé: "Sou obrigado a entregar?" ou "Serei amaldiçoado se não entregar?". Ambas as questões nascem do medo — medo de perder dinheiro ou medo de punição divina. Raramente se pergunta sobre a solidariedade, o amor ou o cumprimento do "sentimento de Cristo" através da partilha, seja de uma cesta básica ou de alguns centavos.

A verdadeira transformação ocorre através da metanoia — uma mudança profunda de mente e entendimento. Jesus demonstrou muito mais preocupação com o que está dentro do ser humano (metaforicamente, em sua "caixa torácica", no coração) do que com o que está em seu bolso.

"Se Ele conseguir mexer com isso que está dentro da tua caixa torácica e você tiver uma metanoia, a cesta básica que você compra [...] ou o dinheiro que está no seu bolso não vai ser tão importante para você quanto a pessoa que necessita."

Quando essa mudança de mentalidade ocorre, a perspectiva da entrega se altera completamente. A liberdade que permite ao indivíduo não contribuir é a mesma liberdade que, se usada egoisticamente, pode enfraquecer o corpo social da igreja. Surge, então, um paradoxo fundamental: quando o cristão contribui, ele o faz por si mesmo, pois ele é a igreja.

A igreja não é a liderança, nem a instituição jurídica, nem o templo de tijolos. A igreja é um organismo vivo composto por seus membros. Portanto, contribuir é cuidar do próprio corpo a que se pertence. O problema surge quando líderes usurpam essa autoridade, colocando-se como "donos" da igreja para gerir recursos em benefício próprio. Mas, em uma estrutura saudável e orgânica, aqueles que dirigem são apenas facilitadores levantados para organizar o que o Espírito deseja.

A conclusão lógica é que a vida cristã não se pauta pelo que se tem ou pelo que se dá, mas pela transformação interior gerada por Deus. O dinheiro, então, deixa de servir a homens e passa a estar a serviço de Deus através do alívio do sofrimento alheio e da expansão de valores do Reino, como justiça e misericórdia. É uma dinâmica onde quem dá e quem recebe são parte da mesma realidade espiritual, ligados à mesma "Cabeça", transcendendo a matemática financeira em prol da comunhão.


A Casa da Rocha. 25 - Dízimo | parte 3/3: a igreja que dá - Zé Bruno - Vetores. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=jxQiwAVwiVg

Avatar de diego
há 9 horas
Matéria: Bíblia
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