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1. Muito Além do "O Que Jesus Faria?": A Busca pela Palavra

Durante décadas, o mundo cristão foi profundamente influenciado pela famosa pergunta: "O que Jesus faria?" (conhecida pela sigla em inglês WWJD - What Would Jesus Do?). Popularizada pelo livro Em Seus Passos (In His Steps), de Charles Sheldon, essa indagação tornou-se um fenômeno cultural, aparecendo em pulseiras, camisetas e adesivos. A premissa central encorajava os indivíduos a pausarem diante de dilemas éticos ou morais para imaginar a atitude de Cristo naquela situação específica.

Embora o exercício de refletir sobre o caráter de Cristo seja valioso, ele apresenta uma limitação intrínseca: a natureza especulativa da resposta. Ao perguntar o que Ele faria, o indivíduo é forçado a projetar uma ação baseada em sua própria compreensão — muitas vezes limitada ou subjetiva — do comportamento divino. Existe, portanto, o risco de moldar um "Jesus" que apenas valida as próprias inclinações ou preconceitos culturais do observador.

Diante dessa subjetividade, surge uma abordagem metodológica mais sólida e fundamentada: substituir a especulação pela revelação direta. A pergunta essencial deve transitar de "O que Jesus faria?" para "O que Jesus disse?" (WDJS - What Did Jesus Say?).

A diferença fundamental reside na fonte de autoridade: enquanto a primeira pergunta depende da imaginação humana, a segunda ancora-se no registro histórico e teológico das Escrituras.

Saber o que Jesus disse elimina a necessidade de conjecturas, pois suas palavras, preservadas nos Evangelhos, oferecem diretrizes claras sobre sua vontade, seus mandamentos e sua visão de Reino. A verdadeira transformação ocorre não quando supomos as ações de Cristo, mas quando nos submetemos aos seus ensinamentos explícitos.

O Equilíbrio da Dieta Espiritual

A transição para o estudo do que Jesus efetivamente disse traz à tona um problema comum na prática devocional contemporânea: a desproporção entre o consumo de obras derivadas e a leitura da fonte primária.

É frequente encontrar estudantes e praticantes da fé que dedicam a maior parte do seu tempo à leitura de livros sobre a Bíblia, comentários sobre teologia ou reflexões sobre a vida cristã, em detrimento do contato direto com o texto bíblico. Embora a literatura de apoio seja uma ferramenta excelente e necessária para o crescimento intelectual e espiritual, ela não substitui a Escritura.

Uma analogia pertinente para ilustrar essa dinâmica é a relação entre um cardápio e uma refeição:

Ler livros sobre a Bíblia é comparável a ler um menu ou assistir a programas de culinária: você aprende sobre os ingredientes, entende a teoria dos sabores e aprecia a estética do prato. No entanto, ler a Bíblia é o ato de comer a refeição. Apenas a ingestão do alimento real nutre o corpo e sustenta a vida.

Portanto, para responder adequadamente à questão "O que Jesus disse?", é imperativo priorizar a "ingestão" do texto sagrado. É na leitura atenta e direta dos Evangelhos que o crente encontra o sustento real, ultrapassando a barreira da teoria para experimentar a realidade da Palavra viva.


2. O Contexto Essencial e o Propósito do Evangelho de João

A interpretação correta de qualquer texto bíblico depende invariavelmente do contexto. Retirar frases isoladas de sua narrativa original pode levar a conclusões desastrosas ou, no mínimo, absurdas.

Charles Spurgeon, o célebre pregador britânico, ilustrava esse perigo com uma anedota sobre um homem que decidiu buscar orientação divina abrindo a Bíblia aleatoriamente. Na primeira tentativa, seus olhos caíram sobre a passagem que dizia: "E Judas foi e enforcou-se". Insatisfeito e buscando algo mais prático, ele abriu novamente o livro e leu: "Vai tu e faze o mesmo". Em uma terceira e desesperada tentativa, encontrou: "O que fazes, faze-o depressa".

Embora seja um exemplo extremo e humorístico, ele sublinha uma regra hermenêutica vital: um texto sem contexto é apenas um pretexto. Para compreender verdadeiramente o que Jesus disse, é necessário entender quem registrou essas palavras, para quem foram escritas e com qual finalidade.

A Chave na "Porta dos Fundos"

Ao contrário de muitos livros modernos que apresentam sua tese no prefácio, o Evangelho de João reserva sua declaração de propósito para o final da obra. É como se a chave para decifrar todo o conteúdo estivesse pendurada na porta dos fundos.

No capítulo 20, versículos 30 e 31, o apóstolo João explicita a razão de ser de seu relato:

"Jesus, na verdade, operou na presença de seus discípulos ainda muitos outros sinais que não estão escritos neste livro; estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome." Jo 20:30-31

Esta passagem funciona como o filtro interpretativo para todos os capítulos anteriores. Ela revela que o livro não é uma biografia exaustiva (uma vez que omite muitos eventos), mas uma seleção cuidadosa de "sinais".

Sinais, Crença e Vida

A estrutura teológica de João difere significativamente dos Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas). Enquanto os Sinóticos oferecem uma visão panorâmica e cronológica ("ver juntos") dos eventos, João, escrevendo provavelmente entre 85 e 90 d.C., adota uma abordagem mais reflexiva e teológica.

O termo grego utilizado por João para descrever os milagres é semeion (sinal), em detrimento de palavras que denotam apenas poder ou maravilha. Um sinal não é um fim em si mesmo; ele aponta para uma realidade maior.

A equação proposta pelo evangelista é clara:

  1. Sinais: As evidências apresentadas (como a transformação da água em vinho ou a cura do filho do oficial).
  2. Crença: A resposta esperada diante da evidência — o reconhecimento de que Jesus é o Messias e Deus.
  3. Vida: O resultado final dessa crença, que é a obtenção da vida eterna (Zoe), a própria vida de Deus habitando no crente.

Portanto, ao ler o que Jesus diz neste Evangelho, o leitor não está apenas consumindo fatos históricos, mas sendo confrontado com evidências jurídicas desenhadas para provocar um veredito de fé.


3. O Verbo Eterno e o Papel do Precursor

A abertura de uma obra literária define o tom de toda a narrativa. Ao observarmos o início dos quatro Evangelhos, notamos diferenças marcantes que revelam as ênfases de cada autor. Mateus inicia com uma genealogia que remonta a Abraão, conectando Jesus à aliança judaica. Marcos, pragmático e direto, começa com a ação do ministério. Lucas, o historiador meticuloso, traça a linhagem até Adão, enfatizando a humanidade de Jesus. João, contudo, retrocede para além da história, do tempo e do espaço.

Ele começa na eternidade:

"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez." Jo 1:1-3

O Logos: A Expressão Divina

João utiliza o termo grego Logos (traduzido como "Verbo" ou "Palavra"). Para os gregos da época, o Logos era o princípio racional que governava o universo, a mente por trás da ordem cósmica. Para os judeus, a "Palavra" era o meio pelo qual Deus agia e criava (como no Gênesis: "E disse Deus...").

Ao aplicar este título a Jesus, João faz uma declaração teológica monumental: Jesus não é apenas um mestre moral ou um profeta; Ele é a autoexpressão de Deus, a mente divina tornada compreensível e a força criativa do universo.

O ápice desta revelação ocorre no versículo 14, onde o conceito abstrato se torna realidade palpável:

"E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai." Jo 1:14

A palavra traduzida como "habitou" (no grego, skenoo) significa literalmente "armou sua tenda" ou "tabernaculou". Assim como o Tabernáculo no Antigo Testamento era o local do encontro entre Deus e o homem no deserto, Jesus, em sua humanidade, torna-se o local definitivo desse encontro. Deus mudou-se para a vizinhança humana.

A Testemunha da Luz

Em meio a essa introdução cósmica, a narrativa aterra na figura histórica de João Batista. O evangelista tem o cuidado imediato de definir a identidade e a função do Batista, não pelo que ele é, mas pelo que ele não é.

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"Houve um homem enviado por Deus cujo nome era João. Este veio como testemunha para que testificasse a respeito da luz, a fim de que todos cressem por intermédio dele. Ele não era a luz, mas veio para que testificasse da luz." Jo 1:6-8

João Batista opera como um precursor vital. Em um mundo acostumado à escuridão espiritual, a chegada da Luz verdadeira poderia ser ofuscante ou incompreensível sem preparação. O papel da testemunha é apontar, identificar e validar.

Quando os líderes religiosos pressionam João Batista sobre sua identidade — perguntando se ele era o Cristo, Elias ou o Profeta —, ele nega veementemente qualquer título messiânico. Ele se define apenas como uma "voz":

"Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías." Jo 1:23

A humildade e a clareza de propósito de João Batista estabelecem um modelo para todo mensageiro cristão: o foco nunca deve estar no portador da mensagem, mas exclusivamente naquele para quem a mensagem aponta. Ele prepara o palco, mas sai de cena para que o Verbo encarnado brilhe.


4. "Vem e Vê": A Dinâmica do Chamado e a Superação do Ceticismo

O primeiro capítulo de João descreve uma reação em cadeia fascinante: o discipulado ocorre através do contato pessoal. André encontra Pedro; Jesus encontra Filipe; Filipe encontra Natanael. É nesse último encontro que observamos um diálogo que revela tanto a natureza do ceticismo humano quanto a eficácia da experiência direta com Cristo.

Quando Filipe, entusiasmado, comunica a Natanael que encontrara o Messias descrito na Lei e nos Profetas — "Jesus de Nazaré, filho de José" —, a resposta é carregada de um preconceito geográfico e cultural típico da época:

"De Nazaré pode sair alguma coisa boa?" Jo 1:46a

Nazaré era uma cidade pequena e irrelevante, possivelmente malvista por abrigar uma guarnição romana, o que gerava desprezo por parte dos judeus mais nacionalistas. A dúvida de Natanael era lógica: como poderia o Rei de Israel vir de um lugar tão insignificante?

A Melhor Apologética: O Convite à Experiência

A resposta de Filipe a esse ceticismo é instruída e pragmática. Ele não inicia um debate teológico, não discute a linhagem genealógica de Jesus e nem tenta refutar o preconceito de Natanael com argumentos lógicos. Ele oferece três palavras simples:

"Vem e vê." Jo 1:46b

Essa abordagem sugere que a realidade de Cristo é autoevidentemente poderosa. Filipe sabia que argumentos poderiam ser rebatidos, mas uma experiência pessoal com o Messias era irrefutável. O convite "vem e vê" remove a barreira intelectual e propõe uma verificação empírica.

A Figueira e a Onisciência

Ao se aproximar de Jesus, Natanael é surpreendido. Antes que ele pudesse proferir qualquer palavra, Jesus define seu caráter: "Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo" (Jo 1:47). Natanael, perplexo, questiona como Jesus poderia conhecê-lo. A resposta de Jesus transcende o natural:

"Antes de Filipe te chamar, eu te vi, quando estavas debaixo da figueira." Jo 1:48

Esta frase carrega um peso imenso. No contexto judaico, "estar debaixo da figueira" era frequentemente um eufemismo para um tempo de meditação na Torá, oração e busca espiritual solitária. Era um lugar de intimidade e segredo.

Ao afirmar que o viu ali, Jesus não estava demonstrando apenas uma visão remota, mas uma onisciência íntima. Ele estava dizendo a Natanael: "Eu vi você em seus momentos mais privados de busca espiritual. Eu conheço o seu coração e as suas aspirações antes mesmo de nos encontrarmos fisicamente".

O impacto dessa revelação é imediato. O cético que zombava de Nazaré rende-se instantaneamente diante da evidência divina:

"Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!" Jo 1:49

Este episódio ilustra perfeitamente o propósito do Evangelho de João: Jesus oferece um sinal (o conhecimento sobrenatural), e esse sinal produz fé instantânea e confissão de vida.


5. A Escada de Jacó e o Filho do Homem: O Caminho Aberto

A resposta de Jesus à confissão de fé de Natanael não é apenas uma validação, mas uma promessa de expansão da consciência espiritual. Jesus indica que ver alguém debaixo de uma figueira é um sinal menor se comparado à realidade gloriosa que estava prestes a ser revelada.

Para introduzir essa revelação maior, Jesus utiliza uma expressão peculiar e solene:

"Em verdade, em verdade vos digo que vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem." Jo 1:51

A frase "Em verdade, em verdade" traduz o original hebraico Amém, Amém. No contexto litúrgico, "Amém" é dito ao final de uma oração para concordar e afirmar "assim seja". Contudo, quando Jesus utiliza o termo no início de uma sentença — e em duplicata —, Ele está reivindicando uma autoridade absoluta. Ele está dizendo: "O que vou dizer agora é a verdade inquestionável e fundamental".

A Referência a Gênesis 28

Para compreender a profundidade dessa declaração, é necessário voltar ao primeiro livro da Bíblia. A imagem descrita por Jesus evoca diretamente o sonho do patriarca Jacó, registrado em Gênesis 28.

Fugindo de seu irmão Esaú, Jacó adormece no deserto com uma pedra por travesseiro. Em seu sonho, ele vê uma escada apoiada na terra, cujo topo tocava os céus, e os anjos de Deus subiam e desciam por ela. Ao acordar, Jacó chama aquele lugar de Betel ("Casa de Deus") e declara que ali era a "porta dos céus".

A escada de Jacó representava o acesso, a conexão entre a realidade humana caída e a santidade divina. Era a promessa de que Deus não havia abandonado a terra, mas mantinha um canal de comunicação.

Jesus como a Escada Definitiva

A mudança sutil, porém radical, que Jesus faz na narrativa de João 1:51 está na preposição. Enquanto na visão de Jacó os anjos subiam e desciam por uma escada, Jesus afirma que agora eles subirão e descerão sobre o Filho do Homem.

Jesus apropria-se da metáfora da escada. Ele declara ser, em Sua própria pessoa, o cumprimento daquele sonho antigo. Ele não é apenas um mestre que ensina o caminho para o céu; Ele é o caminho. Ele é a interface única e exclusiva entre o Pai e a humanidade.

A afirmação encerra o primeiro capítulo de João estabelecendo a supremacia de Cristo:

  1. O Acesso: O céu não está fechado; ele está aberto através de Cristo.
  2. A Mediação: A comunicação divina (anjos subindo e descendo) ocorre por intermédio Dele.
  3. A Identidade: Ele é o "Filho do Homem" (título messiânico de Daniel 7), aquele que une a natureza humana e a glória divina.

Portanto, "O Que Jesus Diz" aqui é definitivo: a busca da humanidade por Deus termina onde Jesus começa. Ele é a Escada Real, a ponte viva que torna a vida eterna não apenas uma possibilidade teológica, mas uma realidade acessível a todos que aceitam o convite de "vir e ver".


Alistair Begg. What Does Jesus Say? https://www.youtube.com/watch?v=ONG9QJwuPZ0&list=PLNy76tTzjnSi3TVOA5HMEJHB0wm7vO3pu

Avatar de diego
há 4 dias
Matéria: Bíblia
Artigo

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