Atos 4:32–5:11: O Preço da Pureza: A Igreja Primitiva e o Juízo Sobre Ananias e Safira
O Contexto: Sinais, Perseguição e uma Comunidade em Transformação
Depois que o Espírito Santo desceu, vivemos um grande sinal: pessoas ouvindo as verdades de Deus em sua própria língua. Depois veio a cura de um paralítico, no capítulo 3. Esses sinais maravilhosos atraíram multidões em dois eventos que cercaram os apóstolos, enquanto eles falavam sobre a ressurreição. Esse foi o início do livro de Atos, e é justamente nesse ponto que entramos agora — encerrando o quadro de hoje até o versículo 11 do capítulo 5.
Precisamos olhar profundamente para as estacas da edificação da igreja — que ainda nem se chamava igreja nessa época. Era apenas um grupo de pessoas reunidas em torno da mesa do Cordeiro, em torno do Evangelho. Uma comunidade que florescia e nascia com os valores do Rei e do Reino, e não à semelhança dos homens.
Eles também estavam vivendo um outro milagre, fenomenal, dentro de si. Tudo estava mudando: sentimento, razão, a maneira de enxergar o mundo. Tudo estava mudando dentro deles. Eles estavam repartindo o que tinham, socorrendo pessoas. Esse era o maior sinal — um outro tipo de gente pisando nessa terra. Parecia que eles não eram desse planeta; pareciam ser de outro lugar.
E então, os discípulos, por estarem pregando a ressurreição, foram presos — falamos disso no domingo passado — e foram ameaçados para que não falassem mais dela. Mas eles voltam para a pequena comunidade, agradecem a Deus, e o lugar treme. E o texto diz que, com ainda mais intrepidez, eles anunciavam a Jesus. Nessa época, já havia cerca de 5 mil convertidos — ao menos os que foram registrados.
E aqui, Lucas faz uma narrativa de três histórias seguidas. Por isso pegamos o fim do capítulo 4 e um pedaço do 5 — porque para Lucas não existiam capítulos e versículos; isso fomos nós que fizemos depois. Era um texto corrido. E entendo que essas três histórias têm um porquê de estarem juntas. É óbvio: depois da prisão, Lucas conta três histórias que falam exatamente sobre o que estava acontecendo com aquele povo.
O Coração e a Alma de um só: A Vida da Multidão dos Que Creram
Quero começar pela primeira dessas três histórias, e ela usa uma linguagem quase poética para descrever como era aquele povo:
"A multidão dos que creram era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava exclusivamente sua nenhuma das coisas que possuía, mas tinham tudo em comum."
Eles tinham a mesma alma, o mesmo coração, o mesmo sentimento. Ninguém considerava exclusivamente sua nenhuma coisa que possuía — tudo era posto em comum, e com grande poder os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus. Eles não paravam de falar da ressurreição. A mensagem que não sai da nossa boca é essa: existe uma outra vida a partir de Jesus Cristo. A ressurreição é a marca da nossa fé.
O texto também diz que em todos eles havia abundante graça — gente graciosa. Não havia nenhum necessitado entre eles, porque os que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam os valores correspondentes e os depositavam aos pés dos apóstolos. Então se distribuía a cada um conforme a sua necessidade. Essa é a primeira das três histórias — e que loucura é essa.
Como é que uma pessoa consegue dizer: "aquela pessoa está sem casa, e aquela outra também — vamos vender a nossa, repartir, pegar umas mais baratas, e assim todo mundo fica com casa"? Quem faz isso? "Os apóstolos podem administrar; a gente tem que ajudar uns aos outros." Aqui se reparte o pão, se reparte a roupa, se reparte o manto, se reparte a sandália. A vida de um mergulhada na necessidade do outro. Mas ninguém mandou fazer isso — isso brotava naturalmente de dentro para fora. Gente que carregava dentro de si o cuidado pelo próximo, sem ninguém mandar, sem nenhuma lei, sem nenhuma regra. E, de repente, todos se perceberam tomados pelo mesmo sentimento.
Não havia ali apóstolos preocupados em administrar a grana recebida como se fosse um banco do primeiro século. Essas pessoas estavam entregando com pureza, com santidade. Faziam isso com a maior inocência, acreditando que aqueles que estavam recebendo tinham lisura, transparência, ética — e que não se aproveitariam daquilo em benefício próprio. Eles repartiriam de verdade, porque o outro tinha mais importância do que o próprio eu. Gente do céu, gente bonita da Casa da Rocha: isso aqui é um milagre. Ninguém mexe com isso, ninguém brinca com isso, ninguém se aproxima disso olhando para o pé do apóstolo tentando calcular quantas notas ali existem. Não se estraga isso.
Barnabé, o Filho da Consolação: Uma Oferta que Nasce da Esperança
Olho agora para Barnabé — que nasceu no meio de um povo espalhado pelo Império Romano da época. Aliás, esse espalhamento acontece desde 800 anos antes de Cristo, quando os assírios invadem Jerusalém, Samaria e Israel. Depois, alguns séculos mais tarde, quando a Babilônia invade Jerusalém, vieram os babilônicos, os medos, os persas, os gregos, e agora os romanos. A cada momento, um povo crescido dominava o império que ia se formando, e agora eram os romanos que dominavam havia séculos.
Barnabé nasceu em Chipre, era levita — aquela tribo que não tinha herança na terra. Você se lembra: quando entraram na Terra Prometida, o levita era descendência de Arão, e esses homens trabalhavam no templo. Quando Josué conquista a terra e a divide, a lei dizia ao povo que o levita não teria herança na terra; a sua herança seria o próprio Senhor. Ah, e por isso a terra foi dividida em doze partes — porque a tribo de José se dividiu em duas, entre seus filhos Manassés e Efraim. Por isso não existe tribo de José, mas existe de Manassés e de Efraim; e não existe tribo de Levi. Mas esse levita, Barnabé, já não estava mais ligado à linhagem sacerdotal — ele não trabalhava no templo, nem era sacerdote.
Essa dispersão trouxe a esses judeus espalhados a consciência de que um dia eles voltariam para sua Jerusalém, e que o Messias que esperavam viria. Li um comentário muito interessante de um comentarista alemão: ao que parece, Barnabé — ou seu pai — fazia parte daquele grupo de judeus que vinham do vasto mundo e adquiriam propriedade em Jerusalém, para estarem ali de prontidão, vivos ou mortos, quando o Messias viesse. Nesse caso, a venda do terreno se torna uma ação que se reveste de significado singular. Barnabé se desfaz de uma propriedade que não representava um mero investimento financeiro, mas que se relacionava com a grande esperança de Israel. Ele podia desfazer-se dessa propriedade porque, para ele, a esperança de Israel estava cumprida em Jesus. Por isso, quando vendeu sua terra, trouxe o dinheiro e o depositou aos pés dos apóstolos, esse ato era, ao mesmo tempo, uma confissão de fé.
Eram os judeus dispersos que adquiriam propriedades em Jerusalém porque um dia viria o Messias — e, se ele viesse, era ali que estariam. E, se ele viesse, o que tivessem estaria à disposição dele. Você se lembra de quando Jesus, para entrar em Jerusalém na entrada triunfal, fala aos discípulos: "Entrem ali, vai ter uma casa com um portãozinho, e um jumentinho amarrado. Se o dono da casa perguntar por que estão pegando o animal, digam a senha: o Senhor precisa dele." Porque aquela pessoa estava criando um jumentinho para o dia em que o Messias viesse — e aconteceu exatamente assim. Aliás, quando vão preparar a ceia, Jesus fala: "vocês vão atrás de uma mulher com um balde; ela tem um cenáculo; quando ela perguntar por que precisam arrumar uma ceia para o Senhor, ela vai saber que é o Messias, é Jesus, e vai deixar." Porque havia gente guardando tudo para a vinda do Messias.
Quando isso aconteceu, Barnabé já era conhecido dos apóstolos — nós não o conhecíamos, ele aparece na história agora, mas já tinha até um apelido. O nome dele era José; Barnabé era o apelido, que significa "filho da Consolação". Esse é o mesmo Barnabé que mais tarde viaja com Paulo. Aliás, quando Paulo se converte, ninguém acredita nele — porque ele matava e perseguia cristãos — e é Barnabé quem diz: "gente, calma, ele se converteu de verdade." Era um conciliador, um conselheiro, e depois se torna um dos mestres da igreja gentílica em Antioquia — chegaremos lá. Ele faz viagens missionárias com Paulo. Era um homem temente, profundamente zeloso, que aguardava o Messias, e quando viu aquele movimento, disse: "eu vendo minha propriedade, é para isso que eu guardei." Não era investimento; ele não queria receber o dobro; não estava preocupado com o dinheiro. Gente, não mexe nisso — isso aqui é muito santo, é muito puro.
Você já leu esse texto e alguém já lhe disse que naquela hora era preciso entregar tudo o que se tinha em oferta, porque senão morreria como Ananias e Safira, e isso lhe deu medo, e você saiu entregando tudo aos pés de um cafajeste? Não brinca com isso. Não brinca com isso.
Ananias e Safira: O Acordo Secreto e a Mentira ao Espírito Santo
Chego agora à terceira história. Certo homem chamado Ananias, com sua mulher Safira, vendeu uma propriedade, mas reteve uma parte do dinheiro — e Safira estava ciente disso. Os dois fizeram esse acordo juntos: levaram o restante e depositaram aos pés dos apóstolos — a mesma expressão usada nas três histórias, o mesmo termo. Fizeram como o povo fazia, como Barnabé tinha feito. Só que Pedro disse o seguinte:
"Ananias, por que você permitiu que Satanás enchesse o seu coração, para que você mentisse ao Espírito Santo, retendo parte do valor do campo? Não é verdade que, conservando a propriedade, ela seria sua? E, depois de vendida, o dinheiro não estava em seu poder? Já não era seu? Por que você decidiu fazer uma coisa dessas? Você não mentiu para homens, mas para Deus."
Olhe o que Pedro disse: você podia conservar a propriedade — ela já era sua. Você podia ter mantido o dinheiro depois de vendida — ele já era seu. Você já tinha a propriedade, já tinha o dinheiro. Por que decidiu fazer isso? Você não mentiu para homens, mas para Deus.
Pedro só falou isso. E, ouvindo essas palavras, Ananias caiu morto. Sobreveio um grande temor sobre todos os que souberam do que tinha acontecido. Levantando-se, os jovens cobriram o corpo de Ananias e, levando-o para fora, o sepultaram.
Cerca de três horas depois, entrou a mulher de Ananias, sem saber o que havia acontecido. Ela chegou mais tarde — estava gastando a outra metade do dinheiro. Chegou toda arrumada, cheia de sacola, óculos escuros, nem sabia o que tinha acontecido. Nem olhou o celular — irmãos, as mães que ganharam celular hoje, no Dia das Mães, os filhos fazem um pedido: deixa ligado, deixa o volume alto. Ela não sabia — desculpem, irmãos — ela não sabia o que tinha acontecido. Estava em algum lugar batendo papo com alguém.
E Pedro falou para ela:
"Safira, foi por esse valor que vocês venderam aquela terra?"
Ela respondeu: "Sim, foi esse valor." E Pedro disse:
"Por que vocês entraram em acordo para tentar o Espírito do Senhor? Aí, na porta, estão os pés dos que sepultaram o seu marido, e eles vão levar você também."
No mesmo instante, ela caiu aos pés de Pedro e morreu. E entraram os jovens de novo — vejam, tem mais um — e viram que ela estava morta. Levando-a, sepultaram-na ao lado do marido. E sobreveio um grande temor sobre toda a igreja, e sobre todos os que ouviram falar desses acontecimentos.
Não é Sobre Dinheiro: O Verdadeiro Pecado por Trás do Gesto
Esse texto não fala sobre grana. Não é o dinheiro. Porque Pedro diz assim: o campo não era teu? Já era teu, ficaria com ele, você não era obrigado a entregar. Você vendeu — o dinheiro não era seu, gaste como quiser. Não é o problema do que você vai entregar ou não. O problema é esse negócio que você faz.
Porque você viu Barnabé, um homem abençoado, e quis comprar semente para dar uma de espiritual. Você acha que isso que está acontecendo, esse movimento do Espírito nessas pessoas, é alguma coisa que você olha de fora e acha que pode mexer uns pauzinhos numa equação financeira, e adquirir com esse dinheiro sujo?
Meu pai dizia assim: quando você mexe com dinheiro, lava a mão — porque não tem coisa mais suja no mundo do que dinheiro. E eu falei: é porque muita gente pega nele, né, pai? Também é com esse dinheiro que está na tua mão que tem sangue, tem mentira, tem engano, tem roubo, tem dor, tem lágrima, tem choro, tem desonestidade, tem falta de caráter. É uma coisa podre nesse mundo, o dinheiro. Ele é um deus — ele nos seduz, ele nos compra, e a gente se vende por ele. Você quer um lugar de pastor? Compra. Você quer uma unção? Compra. Você quer um ministério? Compra. Você quer sexo? Compra. Você quer honra? Compra. Você quer seguidores? Compra. Carinho? Compra. Roupa? Compra. Carro? Compra. Qualquer amigo? Compra. Ele é um poder que te diz que você pode ser e ter o que você quiser.
Por isso Jesus disse que é impossível servir a Mamom e a Deus. E Mamom significa o dinheiro elevado a um status de divindade — no mesmo lugar que é amor e graça, no mesmo lugar que tem compaixão e misericórdia.
O coração daquele povo era puro e inocente. O coração de Barnabé também. Se Ananias e Safira caíram duros, se Judas tivesse vivo até agora, era ali que ele ia acabar de morrer — porque o texto de Marcos diz que ele já metia a mão na sacola, porque ficava com a bolsa, era o tesoureiro do grupo, e já roubava fazia tempo. Já tinha um pedaço de Judas em cada um desses. Imagine se Judas tivesse falado: "nem precisava vender Jesus, eu nem quero dinheiro de você, sacerdote — aqui eu tenho uma galinha dos ovos de ouro." A religião é uma galinha dos ovos de ouro, e tem gente que, quando olha para isso, fala: "opa, aquele é o lugar da sacanagem, aquele lugar onde eu compro e vendo."
E sempre há um dia em que alguém se torna o oficial, o representante disso: "senta aqui, um cafezinho, tenho vários investimentos para você fazer, posso abrir minha cartela de investimentos, tem várias rentabilidades, inclusive de influência." Mas como fazer para essa gente continuar dando? É só dizer que elas vão ter tudo o que a gente tem. A gente apresenta o testemunho de prosperidade, e é uma cenoura na ponta do anzol — eles vão andando, andando, e nunca alcançam, mas a gente vai tendo, sem vergonha. Salafrário, vagabundo — queime no quinto dos infernos.
Um Deus de Justiça e Misericórdia: Desfazendo a Falsa Dicotomia Entre os Testamentos
Irmãos, eu não sei como vai ser o inferno. Estamos falando de Apocalipse agora, né — a caminho das cartas, a linguagem é figurada. Alguém ardendo, lago de enxofre — não sei se vai ter lago de enxofre, se é uma coisa física daqui. Não sei. Vai ter choro e ranger de dentes — quem for banguela não vai para o inferno? Há uma linguagem figurada ali. Eu não sei como vai ser. Tem gente que quer dizer que, no fim das contas, Deus vai ser bonzinho com todo mundo, vem todo mundo. Eu falei aquilo para aquele ladrão — mas o outro, na cruz, é: "no fim você vem também, relaxa"? "Ainda hoje estarás comigo no paraíso" — não chora, você também vai?
Eu não sei como vai ser esse juízo. Ele é perfeito. Não me meto nisso. Não sei como vai ser a eternidade sem Cristo. Não me meto nisso. Mas quando penso nessa raça, eu falo: tomara que seja um lago de fogo mesmo. Ainda que eu seja imperfeito — Senhor, me perdoe — esse bando de salafrários que faça gente boa e inocente sofrer, gente pobre, necessitada, que acreditava de maneira pura, e você arrancou dela — vai para o inferno. Nem todo o que me diz "Senhor, Senhor" entrará no Reino dos Céus. E naquele dia eles vão dizer: "mas em teu nome expulsamos demônios, em teu nome fizemos milagres, em teu nome nós curamos" — e ele vai dizer: "não vos conheço."
Eu não consigo acreditar num Deus temperamental, que chuta a quina da cadeira, levanta e pisa no penico cheio, e sai matando todo mundo. Não consigo interpretar a justiça dele com a podridão da minha. Mas eu também não consigo olhar para o amor de Deus e interpretá-lo como essa benevolência tola de que tudo pode. E eu nem sei se consigo ter uma imagem perfeita da misericórdia e da justiça de Deus habitando no mesmo ser — mas ele é. Eu não consigo nem entender o seu ser, mas o que eu sei é que não tem nada a ver com o que eu penso, nem com o que eu sou, e que Deus não precisa das minhas opiniões sobre justiça e sobre amor para ser o que ele é desde a eternidade.
Na nossa mente, às vezes temos a ideia de que o Antigo Testamento revela uma época em que Cristo ainda não tinha aparecido, e a lei de Moisés mediava a relação do homem com Deus. Vemos as pragas que Deus mandou sobre o Egito, a terra se abrindo contra a rebeldia contra Moisés, a lepra que veio sobre Miriã — vemos juízos de Deus e falamos: "meu Deus, o Antigo Testamento tem um Deus bravo." E quando olhamos o Novo Testamento, agora chegou Jesus, agora é tudo "salve, salve", agora é paz, misericórdia, que bom que eu vivo nessa época — como se agora Deus não estivesse mais dizendo isso ou aquilo, como se ali atrás não houvesse misericórdia. Há um erro nessa interpretação.
A palavra hebraica hesed é uma das mais importantes do Antigo Testamento — ela significa graça, misericórdia. Aliás, o que sustentou o povo no deserto foi a misericórdia e a graça de Deus. O que os fez conquistar a terra e vencer batalhas contra exércitos muito maiores do que os deles foi a graça e a misericórdia de Deus. O que trazia maná do céu, a água que saía da rocha, as codornizes, o que curou o povo das enfermidades do deserto, o que fez com que atravessassem quarenta anos sem que a roupa se desgastasse, nem a sandália se desfizesse — foi misericórdia e graça. A misericórdia e a graça sempre estiveram ali.
E nós achamos que, depois de Cristo, tudo é amor, agora é a festa do "vale tudo", agora pode tudo porque Jesus é amor — e nos esquecemos da correção, da retidão e da santidade de Deus, que também estão presentes ali. Há um erro em quem acredita que o Deus do Antigo Testamento é um Deus com raiva, que acordou de mau humor mandando fogo em todo mundo, "olho por olho, dente por dente" — está errado. E quem acha que Jesus Cristo agora é só love, que pode cair na gandaia porque aqui tudo pode, na festa do "vale quem quer", porque afinal de contas Deus é amor — também erra.
Erramos porque interpretamos esse Deus antigo, ou da antiguidade, como se fosse outro, como se fossem dois — e achamos que o juízo dele e a justiça dele são iguais aos nossos: com raiva, com ódio, com desejo de vingança, com sangue nos olhos, "dá o troco". Interpretamos a justiça de Deus de acordo com a nossa, que é venal, corrupta, vingativa, odiosa, imperfeita — e lançamos sobre ele uma ideia de justiça muito mais parecida com a justiça humana podre do que com aquela que é pura e perfeita.
Mas também, quando olhamos para o amor de Deus, olhamos como se fosse o nosso amor — que também é corrupto, também é interesseiro, possessivo, ciumento. A gente se aproxima e ama mais os lugares onde tem mais benefício, e onde há menos, ama menos. Em alguns momentos empina o nariz; quando está por baixo, quer amor e carinho — porque também somos sujos, imundos e podres, e o nosso amor é cheio de buracos e falhas. Ah, mas Deus não é amor? Deus é amor — mas não o nosso; o dele, na verdade, é o grande mistério do entendimento desse ser impossível de ser esquadrinhado, chamado Deus. É de um profundo e perfeito amor, e de uma profunda e perfeita justiça.
Um Grande Sinal de Temor: O Significado da Morte do Casal
Mas o que eu consigo entender nesse texto é que, da mesma forma que aquelas línguas que foram entendidas em outros idiomas foram um grande sinal, e que um paralítico curado foi um grande sinal, a morte de Ananias e Safira também foi um grande sinal — porque o texto diz que caiu um tremendo temor sobre as pessoas.
Esse temor, eu não sei se caiu sobre a comunidade porque eles estavam ali inocentemente — veja que foi o mesmo grupo de jovens que veio para o link da galera, teve que enterrar Ananias, e quando voltaram, tiveram que levar Safira de novo. É interessante que a multidão dos que creram trazia as ofertas aos pés dos apóstolos; Barnabé vendeu e trouxe aos pés dos apóstolos — essa também é uma linguagem figurada, não era literalmente no pé, mas sobre a tutela dos apóstolos. E o texto de Lucas, que usa essa mesma linguagem ao se dirigir a Teófilo, mostra que Ananias e Safira também colocaram as peças aos pés dos apóstolos — só que a vida deles não estava aos pés dos apóstolos, nem aos pés de Deus.
Safira caiu dura aos pés de Pedro. E o que Pedro disse a ela? Ele não disse "está vendo as mãos que sepultaram", nem "os braços que cavaram", nem "os ombros que carregaram". Ele disse: "está vendo os pés dos rapazes na porta?" Aqueles pés conduziram o seu marido, e eles também vão te levar. E Pedro nem precisou dizer "eu tiro minha cobertura espiritual de você", nem soprar como o lobo mau do Chapeuzinho Vermelho as pragas do Egito sobre ela. Basta que Deus ponha o seu juízo diante de uma vida imunda: converta-se, ou vá para o lugar que foi feito para o demônio.
Não se brinca com a comunidade santa e pura. Não se brinca com as coisas que são santas e puras. Não se brinca com gente inocente. É melhor amarrar uma pedra de moinho na própria cabeça e se jogar num precipício do que fazer tropeçar um desses pequeninos.
Guardando o Que É Santo: A Igreja Não Se Sustenta com Dinheiro
Não se deve olhar para esse dinheiro com olhos capitalistas e mundanos, de um aproveitador cujo deus é o próprio ventre — que é o dinheiro. E nem venham dizer que esse povo que repartia era uma comunidade socialista, para depois impor sua ideologia em cima disso. Isso aqui é gente pura. Isso aqui é gente que tem o Espírito de Deus — e não uma ideologia. É onde alguém sobe numa escada para pisar na cabeça dos coitados, achando que sua vida vazia está muito acima dos pobres que diz que vai ajudar. Não se está à altura para dar as mãos a esse tipo de líder religioso que faz a mesma coisa — porque a política e a religião, quando corrompidas, são dois lixos que se merecem.
Isso aqui é gente pura, mas gente de Deus. Gente que tem o Espírito. Gente que negou a si mesma, que tomou a sua cruz, gente humilde, gente simples no meio do jogo do Império Romano, perseguida pela religião — que não olhou para o próprio interesse, mas repartiu e trouxe aos pés dos apóstolos transparência, honestidade, limpeza, pureza. Não se pode mexer com o que aqui é santo — não porque o dinheiro seja sagrado, mas porque ali está a pureza do coração de alguém que amou o outro, e não as suas próprias casas, nem os seus carros, nem a etiqueta da sua roupa.
Essa igreja não se sustenta com dinheiro. Se alguém olhar para a comunidade da fé e achar que ali é lugar para fazer um bom negócio, um pragma, que não fique — que não atrapalhe. Somos pecadores, temos um monte de falhas; ninguém aqui é perfeito, todos são iguais, com os mesmos medos, os mesmos traumas, pagando as mesmas contas, tendo as mesmas dúvidas, chorando, fazendo terapia, tomando os mesmos remédios. Mas a comunidade está tentando não imitar essa igreja de Atos — e sim ter, dentro de si, esse mesmo Espírito e esses mesmos princípios. Se alguém quer fazer negócio, há outros lugares bem perto para isso — mas não aqui, não atrapalhando.
Meu caro amigo Teófilo, esse Jesus que você conheceu, esse sentimento tão bom e verdadeiro que você possui agora, essa alegria que você tem de Cristo, começou assim: Ananias e Safira caíram duros, porque, se já no nascedouro esse movimento tivesse virado o mercadão da fé, talvez não sobrasse nada para chegar até nós hoje — mesmo com tudo o que já sabemos do Evangelho, da teologia que nos ajuda a interpretá-lo, mesmo com tantos negócios existindo no mercado da religião. Foi um grande sinal para Deus dizer: aqui, não.
Por isso Jesus disse que é melhor perder a mão e entrar no Reino sem ela do que tirar alguma coisa de alguém; se o olho faz tropeçar, é melhor arrancá-lo — melhor entrar com um tapa-olho do que perder a própria vida. O Evangelho é maravilhoso, a graça e a misericórdia de Deus são incríveis, o preço que ele pagou e a graça manifesta são o que nos fazem descansar em paz — mas não se deve sapatear em cima da dádiva. Não se despreza, não se é tolo, porque o tolo pisa o favo de mel, diz Provérbios. Olhar para a misericórdia de Deus deve nos dar vontade de sermos mais santos e mais justos — que ele cresça, e que a gente diminua. Essa é a igreja, Teófilo. É assim que começou. É assim que deve ser.
A Casa da Rocha. 10 - O erro de Ananias e Safira - Zé Bruno - Meu Caro Amigo 2. https://www.youtube.com/watch?v=RWcYoqd9BdA
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