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João 18:1-14: A Quem Você Procura? O Poder das Trevas Diante do Eu Sou"

1. No Getsêmani: a entrega voluntária do Filho de Deus

Quero que você preste bastante atenção neste relato de João, porque ele vem logo depois daquela grande oração de Jesus que estudamos no capítulo 17. Antes disso, no capítulo 15, Jesus havia falado da videira; no capítulo 16, da obra do Espírito. Terminada a oração, ele se levanta da mesa e vai em direção ao Getsêmani.

O texto diz:

"Tendo dito isso, Jesus saiu com os seus discípulos e foi para o outro lado do ribeiro de Cedrom, onde havia um jardim, e ali entrou com eles" (Jo. 18:1).

Esse detalhe é importante: Judas, o traidor, também conhecia aquele lugar, porque Jesus muitas vezes se reunira ali com os discípulos. Não havia esconderijo, não havia fuga. Lembre-se de que Judas já havia se separado do grupo ainda durante a ceia, quando Jesus lhe disse: "O que você tem a fazer, faça depressa" — e ele saiu. Jesus sabia exatamente para onde Judas estava indo e o que estava sendo arquitetado contra ele.

Por isso, quando a escolta chega, ela não vem discreta. Judas traz consigo uma tropa romana, um comandante — um quiliarco, termo que designa um homem com autoridade sobre mil soldados — e ainda os guardas a serviço dos principais sacerdotes e fariseus. Chegam com lanternas, tochas e armas, como quem vai capturar um fugitivo escondido nas sombras.

Mas não há surpresa nenhuma para Jesus. Ele mesmo toma a iniciativa:

"Jesus, pois, sabendo tudo o que lhe havia de sobrevir, adiantou-se e perguntou-lhes: A quem buscais? Responderam-lhe: A Jesus, o Nazareno" (Jo. 18:4-5).

Esse é o primeiro ponto que quero fixar antes de avançarmos: Jesus não foi pego de surpresa nem tentou se esconder. Ele sabia de tudo, e ainda assim se adiantou ao encontro daqueles que vinham prendê-lo. Essa entrega não foi fraqueza — foi soberania. E é exatamente esse contraste, entre o poder armado que se aproxima e o poder verdadeiro que se revela, que vamos explorar no próximo tópico, quando olharmos para o significado daquela resposta: "Eu sou".


2. "Eu Sou": a revelação que faz recuar

Chegamos agora ao ponto mais impactante desse trecho. Quando Jesus responde à pergunta "a quem buscais?", ele não diz simplesmente "sou eu" como quem apenas confirma sua identidade. No original grego, a expressão é ego eimi — "Eu Sou". E essa não é uma expressão qualquer. É a mesma fórmula usada ao longo de todo o Evangelho de João para revelar a divindade de Cristo, e ela ecoa diretamente o nome que Deus revelou a Moisés na sarça ardente: "Eu Sou o que Sou" (Êx. 3:14).

Veja o que o texto registra logo em seguida:

"Quando, pois, lhes disse: Eu sou, recuaram e caíram por terra" (Jo. 18:6).

Pare e pense nisso comigo. Ali estava um grupo de soldados romanos armados, treinados, endurecidos pela guerra, acompanhados de guardas do templo — e, diante de duas palavras ditas por um homem desarmado, eles recuam e caem ao chão. Isso não é uma reação natural diante de uma simples afirmação de identidade. Algo muito mais poderoso aconteceu ali. Foi o próprio "Eu Sou" se revelando em carne diante daqueles que vieram prendê-lo. Essa é a revelação que vimos se desdobrando desde o início do Evangelho de João: o Verbo que estava com Deus e que era Deus, agora manifesto, dizendo diante de seus algozes exatamente quem ele é.

E o mais impressionante é que, mesmo depois de derrubá-los com sua simples palavra, Jesus repete a pergunta:

"Tornou, pois, a perguntar-lhes: A quem buscais? E eles disseram: A Jesus, o Nazareno. Replicou Jesus: Já vos disse que sou eu. Se, pois, é a mim que buscais, deixai ir estes" (Jo. 18:7-8).

Ali está o cumprimento de algo que ele mesmo havia dito na oração do capítulo 17: "Não perdi nenhum dos que me deste" (Jo. 17:12). Jesus não estava apenas se entregando — estava protegendo os seus até o último instante, cuidando para que nenhum deles fosse levado junto. Isso nos revela algo fundamental sobre o caráter de Cristo: mesmo diante da própria prisão e do sofrimento que já sabia que viria, seu coração ainda estava voltado para o cuidado com aqueles que amava.

Esse "Eu Sou" que faz soldados armados recuarem e cair por terra é o mesmo "Eu Sou" que hoje sustenta a nossa fé. Não é força humana, não é articulação política, não é exército. É a simples presença do próprio Deus se manifestando. E é justamente esse contraste — entre o poder que se organiza com armas e tochas, e o poder que se revela com duas palavras — que vamos aprofundar no próximo tópico, quando olharmos para a reação impulsiva de Pedro e para o sentido do cálice que Jesus precisava beber.


3. Pedro, Malco e o Cálice

Diante daquela cena de rendição — os soldados caídos por terra, o próprio "Eu Sou" se revelando —, Pedro reage como qualquer um de nós reagiria: pela carne, pela impulsividade, pela vontade de defender o Mestre com a própria força. O texto diz:

"Então Simão Pedro, que trazia uma espada, puxou-a e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. E o nome do servo era Malco" (Jo. 18:10).

Confesso que acho até engraçado imaginar a cena: não sabemos se Pedro era hábil com a espada e acertou exatamente a orelha, ou se era ruim de espada e tentou acertar a cabeça e errou o alvo. O texto não nos dá esse detalhe. O que ele nos diz com clareza é que Pedro feriu Malco, servo do sumo sacerdote.

E aqui quero que você preste atenção num detalhe que considero muito revelador: por que Pedro atacou justamente Malco, e não um dos soldados romanos? Eu entendo que havia ali uma indignação muito particular. Malco era servo dos sacerdotes — ou seja, era a própria fé judaica, a própria estrutura religiosa que deveria reconhecer o Messias, se levantando contra o próprio Deus e se juntando aos romanos contra a sua própria fé. Isso deve ter deixado Pedro profundamente indignado. Além disso, atacar um soldado romano teria custado a vida de Pedro ali mesmo — cortar a orelha de um soldado do império significava perder o próprio pescoço na hora. A ousadia de Pedro ficou restrita ao ambiente entre judeus.

Mas Jesus repreende o gesto imediatamente:

"Disse, pois, Jesus a Pedro: Mete a espada na bainha; não beberei eu o cálice que o Pai me deu?" (Jo. 18:11)

Esse "cálice" não é uma referência qualquer. Lembre-se de quando a mãe de Tiago e João pediu que seus filhos se assentassem um à direita e outro à esquerda de Cristo em sua glória. Jesus perguntou a eles se estavam prontos para beber o cálice que ele beberia — e não se tratava do cálice de um brinde de coroação, de alguém que se torna imperador em Roma. Tratava-se da cruz. Era esse o cálice que o Pai lhe dera, e era esse o cálice que ele estava plenamente disposto a beber.

Por isso a ordem a Pedro é clara: guarde a espada. Você acha que eu não devo beber o cálice que o Pai me deu? Jesus não veio para ser defendido pela espada humana. Ele veio justamente para beber aquele cálice até o fim, e nenhuma reação impulsiva de um discípulo bem-intencionado poderia — ou deveria — impedir isso.

Há aqui uma lição que atravessa os séculos e chega até nós: muitas vezes, diante da dor, da injustiça ou do sofrimento que Deus permite em nossa vida, nossa primeira reação é a espada — reagir pela carne, pela força, pela indignação impulsiva. Mas o Reino de Deus não opera pela lógica da espada. Ele opera pela entrega, pela submissão à vontade do Pai, mesmo quando essa vontade envolve um cálice amargo.

E é justamente sobre essa lógica diferente — a lógica de um poder que não se constrói pela espada, mas por outros meios muito mais sutis e articulados — que vamos entrar agora, ao olhar para a figura de Anás e Caifás, e para a intrincada teia de poder que eles construíram ao longo de décadas.


4. Anás e Caifás: como se constrói uma dinastia de poder

Depois de prender Jesus e amarrá-lo, o texto nos diz:

"E o conduziram primeiramente a Anás, pois era sogro de Caifás, que era o sumo sacerdote naquele ano" (Jo. 18:13)

Esse pequeno detalhe histórico esconde uma trama de poder fascinante, e quero que você entenda bem esse pano de fundo, porque ele revela muito sobre a natureza da autoridade que se levantou contra Jesus naquela noite.

No Antigo Testamento, o sumo sacerdócio era vitalício e hereditário: morria o pai, assumia o filho mais velho, dentro da linhagem sacerdotal estabelecida por Deus. Mas isso mudou drasticamente com a dominação grega. Depois da morte de Alexandre, o Grande, o império foi dividido, e a região onde ficava Israel passou a ser disputada entre duas dinastias: os Ptolomeus, ao sul, no Egito, e os Selêucidas, ao norte, na Síria e Pérsia. Os Ptolomeus eram relativamente tolerantes; já os Selêucidas, que acabaram conquistando a região, tinham pressa em helenizar tudo à força — inclusive o sacerdócio, que passou a ser vendido a quem oferecesse mais dinheiro, sem qualquer preocupação com linhagem ou vocação espiritual. Foi essa corrupção que levou Matatias e seu filho Judas Macabeu a se rebelarem contra os gregos, mas essa é uma outra história.

Quando Roma chegou à região, cerca de 60 anos antes de Cristo, adotou uma postura mais pragmática: permitiu que os judeus mantivessem sua fé e seu sacerdócio, entendendo que a religião ajudava a apaziguar o povo dominado. Mas havia uma condição: o sumo sacerdote precisava vir de dentro da linhagem sacerdotal, porém cabia a Roma decidir quem ocuparia o cargo — e o cargo deixou de ser vitalício. Nesse período, os sumos sacerdotes eram trocados a cada dois ou três anos, alguns ficando apenas um ano.

É nesse cenário que surge a figura de Anás. Colocado no cargo pelo governador romano Quirino, Anás permaneceu nove anos como sumo sacerdote — um tempo excepcionalmente longo para o padrão da época — até ser removido por um procurador romano. Mas Anás era um homem extremamente bem articulado politicamente. Mesmo depois de deixar o cargo oficialmente, ele conseguiu manter sua influência através de sucessivas negociações: colocou Ismael, depois seu próprio filho Eleazar, depois outro descendente, até finalmente conseguir posicionar seu genro, Caifás, no posto — e Caifás permaneceria ali por incríveis dezoito anos, de forma ininterrupta.

Se você olhar para o conjunto da história, entre os anos 6 e 70 d.C., quando aconteceu a grande destruição de Jerusalém, passaram pelo cargo 21 sumos sacerdotes diferentes. Desses 21, sete pertenciam à família de Anás — cinco filhos, além do próprio Anás e seu genro Caifás. Isso significa que, de 64 anos de história, 35 estiveram sob controle direto da dinastia de Anás. Não era coincidência. Era um projeto de poder cuidadosamente construído.

Anás havia se tornado o que hoje chamaríamos de "eminência parda" — o poder por trás do poder. Diante do povo, o templo continuava sendo o lugar da adoração, e as Escrituras continuavam apontando para Deus. Mas, nos bastidores, a cúpula sacerdotal operava segundo uma lógica bem diferente: a lógica da articulação política, da manutenção de influência, da perpetuação de uma dinastia familiar disfarçada de vocação espiritual.

E foi exatamente esse sistema — construído ao longo de décadas, sustentado por interesses financeiros e políticos — que se levantou naquela noite contra o verdadeiro Rei. No próximo tópico, quero que a gente olhe mais de perto para o próprio Caifás: quem era esse homem, e por que ele foi tão determinante no processo que levou Jesus à cruz.


5. Caifás: o sumo sacerdote astuto e pragmático

Caifás não era um homem qualquer. Se você reunir todas as passagens do Novo Testamento que falam dele, vai perceber um padrão claro: enquanto os outros sacerdotes ainda discutiam o que fazer com Jesus, Caifás já pensava alguns passos à frente. Ele era um homem astuto, pragmático e extremamente bem articulado politicamente — tanto na interlocução com Roma quanto na gestão dos interesses da própria casta sacerdotal.

Já havíamos visto isso antes, lá em João capítulo 11. Naquela ocasião, os principais sacerdotes e fariseus convocaram o Sinédrio, preocupados com a possibilidade de que, se deixassem Jesus continuar operando sinais, todos passariam a crer nele, e isso traria a intervenção romana contra a nação. Foi então que Caifás, sendo sumo sacerdote naquele ano, fez uma declaração que se tornaria uma das profecias mais irônicas de toda a Escritura:

"Não vos convém que um homem morra pelo povo, e que não pereça a nação toda" (Jo. 11:50)

Caifás dizia isso pensando em termos puramente políticos: seria melhor sacrificar Jesus do que arriscar uma reação romana violenta contra toda a nação judaica. Ele calculava com frieza: se conseguissem prender Jesus a tempo de Roma julgá-lo — e não o Sinédrio diretamente —, isso resolveria o problema sem comprometer a posição da casta sacerdotal diante do povo. Ele até pensava na possibilidade de usar o costume da Páscoa, quando o povo tinha o direito de escolher alguém para ser libertado, para articular ainda mais a situação a seu favor — algo que, de fato, viria a se cumprir quando escolheram libertar Barrabás.

O que a história registra, através do historiador judeu-romano Flávio Josefo — a principal fonte histórica desse período —, confirma exatamente o que os Evangelhos retratam: Caifás foi um homem extraordinariamente hábil, tanto nos bastidores da política romana quanto na gestão da casta sacerdotal. E, por trás dele, sempre esteve Anás, seu sogro, que havia sido quem realmente o colocara naquela posição, sustentando-o com seu prestígio e sua ascendência dentro da linhagem sacerdotal.

Tecnicamente, nunca deveria ter havido dois sumos sacerdotes ao mesmo tempo. Mas, na prática, quando Jesus foi preso, ele passou primeiro por Anás e depois por Caifás — os dois dividindo, naquele momento, a mesma esfera de poder. Caifás detinha a autoridade formal e institucional; Anás era o poder por trás do poder, a inteligência estratégica que movia os fios daquela trama.

Quero que você perceba algo importante aqui: essa dinâmica de poder por trás do poder não era uma novidade daqueles dias, e não é estranha aos nossos dias também. A história da humanidade sempre nos apresentou essa realidade — pessoas com cargo formal, e outras, nos bastidores, articulando os verdadeiros movimentos de controle e influência.

E é exatamente esse sistema de poder, construído por Anás e sustentado pela astúcia pragmática de Caifás, que vamos ver se revelar ainda mais claramente no próximo tópico, quando olharmos para um detalhe curioso que João nos oferece: o nome do servo Malco, e o que ele pode nos ensinar sobre quem, de fato, exerce a verdadeira autoridade.


6. A guarda dos sacerdotes e o servo chamado "Rei"

Há um detalhe nesse relato que considero fascinante — talvez uma grande coincidência, mas uma coincidência muito significativa. O texto nos diz que, junto com Judas, vinha um destacamento: uma escolta romana, um comandante, e os guardas a serviço dos sacerdotes. É importante entender quem eram esses guardas: eles não eram soldados armados propriamente ditos, mas servos ligados ao Sinédrio — a corte de julgamento religioso dos judeus, responsável por decidir quem era herege e quem cumpria a lei. O termo usado no grego para descrevê-los é hyperetes, que significa literalmente "servo a serviço de".

E, entre esses servos, havia um que parece ter ocupado posição de destaque: Malco, aquele cuja orelha Pedro cortou. Aqui está o detalhe que me chama atenção: o nome Malco, em grego, deriva do hebraico melek, que significa "rei". É interessante notar que até mesmo o deus dos fenícios mencionado no Antigo Testamento, Moloque, compartilha dessa mesma raiz — e também significava "rei".

Pense nisso comigo: ali estava um homem cujo próprio nome significava "rei", servindo como uma espécie de autoridade entre os guardas dos sacerdotes. Mas, por trás dele, havia um outro comando, um outro poder que de fato governava aquele que carregava o nome de "rei". Talvez João tenha registrado esse nome propositalmente, sabendo do peso simbólico que ele carregava: ali estava um "rei" a serviço de um outro reinado — o reinado construído por Anás e Caifás, sustentado pela aristocracia sacerdotal e pela conivência de Roma.

E esse contraste é justamente o que precisamos enxergar nesse relato: de um lado, um servo cujo nome significa "rei", mas que serve a um sistema de poder terreno; do outro, o verdadeiro Rei, Jesus, que naquele exato momento estava sendo amarrado e conduzido como um criminoso. A ironia não poderia ser maior.

Esse pequeno detalhe nos prepara para entender algo maior: a estrutura de poder que se ergueu contra Jesus não era apenas religiosa. Era uma somatória de forças — religiosas, financeiras e políticas — que se uniram naquela noite. E é exatamente essa "grande potestade", como gosto de chamá-la, que vamos examinar no próximo tópico.


7. A grande potestade: religião, dinheiro e política de mãos dadas

Quero que você entenda bem o que estava por trás daquela prisão no jardim. Não era apenas um grupo religioso perseguindo um profeta incômodo. Era uma verdadeira aliança de poderes — religioso, financeiro e político — que se uniu contra o Filho de Deus.

Vamos por partes. Os saduceus, partido judaico ao qual pertenciam Anás e Caifás, eram descendentes de Zadoque — o sacerdote que Davi estabeleceu quando trouxe a arca de volta a Jerusalém. Daí vem o próprio termo "saduceus": zadoqueus, descendentes de Zadoque. Esse grupo controlava o templo, e é aqui que a coisa fica interessante: eles não controlavam apenas a adoração, mas também o comércio. Controlavam a troca de moedas — os siclos, moeda do templo, por denários romanos e dracmas gregas — e o comércio dos animais destinados ao sacrifício. Esse câmbio, somado ao comércio de animais, rendia uma fortuna considerável. Não é à toa que, quando Jesus expulsou os cambistas do templo e virou as mesas, ele atacou diretamente o coração financeiro daquela estrutura.

Além disso, havia o poder político de Roma. O sistema funcionava assim: Roma permitia que os judeus mantivessem sua fé e seu sacerdócio, isentando-os até de certos impostos, desde que a religião cumprisse sua função de manter o povo pacificado. Em troca, cabia a Roma decidir, dentro da linhagem sacerdotal indicada pelos próprios saduceus, quem ocuparia o cargo de sumo sacerdote. Era um acordo mútuo: religião que apazigua o povo, poder financeiro que sustenta a aristocracia sacerdotal, e força política e militar de Roma que garante que tudo permaneça sob controle.

Percebe o que aconteceu ali? Três formas de poder — a influência religiosa, que controla a mente e determina quem é maldito e quem é bendito; o poder financeiro, que controla o bolso; e o poder político, que controla a força e o exército — se somaram e apertaram as mãos contra o Filho de Deus. Essa é a potestade que se organiza na terra: uma aliança entre quem controla a mente, o bolso e a arma.

Isso não é uma realidade exclusiva daquela época. Aconteceu antes de Cristo, aconteceu nos dias de Cristo, e continua acontecendo até hoje. O poder é como nitroglicerina: mexer com ele é perigoso e explosivo. E Anás soube construir, ao longo de décadas, uma teia extremamente bem articulada dessas três dimensões de poder.

A questão fundamental, porém, é esta: todo esse poder religioso, financeiro e político jamais esteve a serviço do verdadeiro Rei, nem emanava dele. Estava, na verdade, sendo usado contra o próprio Deus que se fez carne e habitou entre nós. E é justamente esse contraste — entre os poderes que se organizam na terra e o Reino que Jesus representa — que eu quero explorar no próximo tópico, quando olharmos para as palavras de Paulo em Colossenses sobre o domínio das trevas e o Reino do Filho amado.


8. Um Reino que não se mistura com os poderes da terra

Diante de toda essa engrenagem de poder — religioso, financeiro e político — que se levantou contra Jesus, quero trazer à luz uma passagem de Paulo que explica exatamente o que estava em jogo naquela noite. Em Colossenses, ele escreve:

"O qual nos tirou do poder das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor" (Cl. 1:13)

A palavra "poder", nesse texto, é exousia — o mesmo termo usado repetidamente no Novo Testamento para descrever autoridade, domínio, potestade. Em algumas traduções, ao invés de "poder", você encontra "império" — porque é exatamente essa a ideia: um domínio organizado, estruturado, com suas próprias regras de funcionamento. Paulo está dizendo que fomos arrancados desse tipo de domínio terreno — aquele que se organiza, se negocia e se sustenta nos termos do controle religioso, do poder financeiro e da institucionalização política da força.

E aqui está o ponto crucial que quero que você grave: essa categoria de poder do Reino de Deus não se mistura com a categoria de poder que vimos operando através de Anás, Caifás, dos saduceus e de Roma. São como água e óleo. Não se misturam. Toda vez que alguém tenta igualar o Reino de Deus aos poderes estabelecidos na terra, há ali uma tentativa de corromper a própria ideia de Reino.

Jesus nunca costurou uma malha de poder à sua volta. Ele nunca se articulou politicamente para conquistar posição. O próprio texto evangélico nos diz que ele não tinha sequer onde reclinar a cabeça, e quando morreu, foi sepultado num túmulo emprestado — o de José de Arimateia — porque nem onde ser sepultado ele possuía por direito próprio. Ele não representava nenhuma das tradições de formação dos mestres da lei de sua época. Sua posição de autoridade jamais foi construída pela soma do poder religioso dos conluios sacerdotais com o poder financeiro aristocrático dos saduceus, nem tampouco por alianças com César, Pilatos ou Herodes.

Lembre-se ainda da cena da tentação, quando o próprio adversário lhe ofereceu todos os reinos do mundo, caso se prostrasse e o adorasse. Jesus simplesmente recusou — porque ele já era o dono de tudo aquilo que lhe ofereciam. Ele nunca desejou a riqueza da terra, nem a posição de sumo sacerdote, nem o trono de César.

O que ele representa é um outro tipo de poder, um outro tipo de Reino. Enquanto os homens negociam, dividem e somam seus poderes numa mesa de acordos de um mundo sem Deus, Jesus é aquele que declara: "Todo o poder me foi dado nos céus e na terra" (Mt. 28:18) — não como resultado de articulação humana, mas como autoridade que lhe pertence por direito, desde a eternidade. Ele é o Deus que olha para uma mulher pega em adultério e diz: "Nem eu te condeno; vai, e não peques mais". Ele é o Senhor da reconciliação, do perdão, da vida nova — capaz de transformar indivíduos numa irmandade onde ninguém precisa pisar sobre a cabeça do outro para subir.

Isso é fundamentalmente diferente de qualquer estrutura de poder humano. Todo exercício de poder terreno privilegia quem está do lado vencedor do acordo e oprime quem fica do lado derrotado da negociação. Por isso mesmo, a única autoridade que exercemos verdadeiramente por amor — e não por imposição — é a de um pai e uma mãe que se sacrificam por seus filhos. E é justamente esse tipo de autoridade fundamentada no sacrifício e no amor que caracteriza o Reino que Jesus estabelece: um Reino que não se constrói pela força, mas pela entrega.

É esse Reino — completamente distinto da lógica humana de poder — que nos coloca diante da pergunta central que Jesus fez naquela noite, e que ainda ecoa até hoje. É sobre essa pergunta que vamos falar no próximo tópico.


9. A pergunta que exige conversão: o que você realmente procura?

Chegamos agora ao coração desta mensagem. Quero pegar aquela pergunta que Jesus fez no jardim — "A quem vocês procuram?" — e trazê-la para o centro da nossa reflexão hoje, ajustando um pouco a formulação: a quem, e o que, nós estamos procurando?

Volte comigo àquela cena. Quando os soldados e os guardas responderam que buscavam "Jesus, o Nazareno", eles não estavam buscando o Cristo, o Messias prometido pelas Escrituras. Estavam buscando um personagem histórico incômodo, alguém que estava atrapalhando os negócios da casta sacerdotal. A "lojinha" estava com problemas — ele havia derrubado as mesas dos cambistas. Eles não tinham os olhos voltados para as Escrituras, para reconhecer os sinais que apontariam para a chegada do verdadeiro Cristo. Estavam interessados apenas em remover um obstáculo.

Isso me leva a uma pergunta que preciso fazer a você, e a mim mesmo: o que estamos procurando quando dizemos que buscamos a Deus? O que realmente desejamos encontrar quando afirmamos que o procuramos? Que tipo de poder nos fascina quando desejamos o poder de Deus? Que portas queremos que se abram através da nossa fé? Onde, de fato, queremos chegar com o exercício da nossa religiosidade?

Deixe-me contar uma história que vivi há mais de dez anos, nos primeiros tempos desta igreja. Uma pessoa me procurou depois de um culto e relatou sua trajetória: havia passado pela igreja A, e lá tinha conquistado algumas coisas — bens, conquistas materiais — mas não tinha gostado de algum aspecto. Foi para a igreja B, e lá também conquistou coisas relacionadas à sua empresa, ao seu trabalho. Foi contando, igreja após igreja, o que havia "conseguido" em cada uma. E terminou perguntando: "Como é que funciona aqui?"

Fiquei sem saber exatamente o que responder. A relação dessa pessoa com a fé era como se estivesse procurando uma academia: "aqui desenvolvo o tríceps e o bíceps, mas os glúteos ficaram devagar; ali tinha o aparelho de step que eu queria". Como se a igreja fosse um lugar para conseguir determinados resultados específicos, um produto entre outros. Respondi, com toda sinceridade: "Irmão, aqui não temos nenhuma preocupação com isso que você está buscando." Ele parecia até interessado em encontrar alguém para se casar ali.

E eu expliquei a ele — e quero repetir isso para você agora: quando eu me aproximo de Deus, meus olhos não estão postos em outra coisa. Quando venho ao templo, venho para me consagrar a Deus e oferecer meu sacrifício. É só isso. Quando busco a Deus, é Deus mesmo que eu quero encontrar. Quando peço que o Espírito me capacite, é o poder de Deus que eu quero para vencer meu pecado, para ser uma nova criatura e cumprir minha missão nesta terra. Não estou interessado numa prateleira de outros produtos.

Essa pergunta que Jesus fez naquela noite é simples na superfície, mas exige uma conversão total do coração: quem, de fato, vocês estão procurando? Que tipo de posição, de status, de influência, de conquista está por trás da nossa busca espiritual? Essas são perguntas que não pretendo responder por você hoje — quero apenas que cada um leve essa pergunta para dentro do próprio coração e responda diante de Deus.

É essa mesma pergunta, e a resposta que ela exige, que vamos concluir no último tópico desta reflexão.


10. Não Procuro Mais Nada Além Dele

Há uma história que ouvi contar — não sei se é totalmente verídica, mas é bastante plausível — sobre uma repórter que entrevistou Madre Teresa de Calcutá. A repórter perguntou se ela gostava muito de orar, e Madre Teresa respondeu que sim, que às vezes orava três, quatro horas seguidas. A repórter, intrigada, quis saber: "Mas o que a senhora tem para pedir que demore tanto tempo?" E Madre Teresa respondeu, simplesmente: "Não, não peço nada. Eu fico só ali, quietinha, com Ele."

É essa a resposta que quero que fique gravada em nós hoje. Não estou procurando nada — porque já encontrei. Encontrei o Senhor. E, tendo encontrado o Senhor, não preciso mais brigar, nem fazer guerra espiritual para obter aquilo que ele já conquistou de graça na cruz do Calvário, através do seu próprio sangue derramado por nós.

O sangue de Cristo nos comprou. Ele nos deu uma vida nova, um coração novo. Os anjos do Senhor se acampam ao redor daqueles que o temem. Nas nossas batalhas, é ele quem fortalece as nossas mãos para a guerra — e por isso podemos descansar tranquilos, porque é o próprio Senhor quem cuida de nós. Ele é a nossa sombra à nossa direita; mil cairão ao nosso lado, dez mil à nossa direita, e não seremos atingidos. É ele quem nos cobre com suas asas, e debaixo delas encontramos abrigo seguro. É na sombra do esconderijo do Altíssimo, do Onipotente, que descansamos e vivemos em paz. Ele mesmo prometeu: "Eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos" (Mt. 28:20).

É ele quem entra conosco no vale da sombra da morte. Há dias em que ele nos livra e nos faz andar sobre as águas. Há dias em que abre o mar para que passemos. E há dias em que simplesmente nos ensina a nadar. E há ainda dias em que ele diz: "Você nem vai precisar atravessar — eu quero que você fique exatamente onde está." É ele quem nos governa, nos conduz, e cuida de cada um de nós.

Muitas vezes fomos ensinados a pensar que precisávamos travar uma guerra espiritual para que Deus nos ouvisse, como se o sacrifício de Cristo na cruz não tivesse sido suficiente para abrir os ouvidos do Pai para nós. Mas a verdade é exatamente o oposto: ele não está longe — está mais perto do que imaginamos. E não vivemos buscando, porque ele já habita em nós. Vivemos na comunhão, na força do seu próprio poder, e cumprimos nossa missão de testemunhar, ao maior número de pessoas possível, que o Reino de Deus é a união de um povo governado por uma lógica completamente diferente da lógica deste mundo.

Então, voltando à pergunta que Jesus fez naquela noite no Getsêmani — "A quem vocês procuram?" — a nossa resposta, hoje, é esta: não procuramos mais nada além daquilo que o Senhor já nos deu. Não procuramos mais nada além do seu amor, da sua graça, do seu Messias, do seu reinado sobre a nossa vida. Que ele nos conduza sempre assim, nos formando e nos forjando como sua igreja, para que possamos, a cada dia, ser mais fortalecidos, cheios da sua presença e da sua palavra — conscientes da nossa missão de sermos luz e sal neste mundo, levando de verdade o seu Reino, sendo gente do seu Reino, vivendo neste mundo governado por outro tipo de império, mas conduzidos pela sua graça e pelo seu poder.


Fonte: A casa da rocha. 57 - O que você procura? - Zé Bruno - Quem é Jesus? https://www.youtube.com/watch?v=SCwcFWw9I0s

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