1. Introdução: A Natureza da Revelação Divina e a Inspiração das Escrituras
O estudo da Bibliologia é fundamental para a compreensão da fé cristã, pois trata da análise das Escrituras Sagradas como a base autoritativa de doutrina e prática. A Bíblia não deve ser encarada apenas como uma obra literária ou histórica, mas como a Palavra de Deus, uma coleção de 66 livros que, embora escritos por cerca de 40 autores diferentes ao longo de aproximadamente 1600 anos, mantêm uma unidade temática e teológica perfeita.
Para compreender a formação e a autoridade da Bíblia, é necessário primeiramente distinguir os conceitos de Revelação, Inspiração e Iluminação.
A Revelação de Deus: Geral e Especial
A comunicação de Deus com a humanidade ocorre por meio do que a teologia chama de "Revelação". Deus, sendo um ser infinito, decide se dar a conhecer ao ser humano finito. Essa revelação se divide em duas categorias principais:
- Revelação Geral: Manifesta-se através da natureza, da história e da consciência humana. É o testemunho contínuo da existência e do poder de Deus visível na criação. Conforme observado pelo Salmista:
"Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos." (Salmos 19:1)
- Revelação Especial: É a intervenção direta de Deus para se revelar de maneira específica e salvífica. O ápice desta revelação é a pessoa de Jesus Cristo ("o Verbo que se fez carne") e as Escrituras Sagradas (a Palavra escrita).
Enquanto a revelação geral é suficiente para tornar o homem indesculpável diante da divindade, apenas a revelação especial, registrada na Bíblia, oferece o conhecimento necessário para a salvação e o relacionamento íntimo com o Criador.
O Conceito de Inspiração Bíblica
A transição da revelação para o texto escrito envolve o processo de Inspiração. É crucial entender que a inspiração bíblica não se refere a um estímulo intelectual ou artístico, como ocorre com poetas ou músicos. No contexto teológico, a inspiração é o ato sobrenatural do Espírito Santo sobre os autores humanos.
A definição clássica baseia-se no texto de 2 Timóteo:
"Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça." (2 Timóteo 3:16)
O termo grego utilizado é theopneustos, que significa literalmente "soprada por Deus". Isso indica que a origem das Escrituras é divina, e não humana. O Apóstolo Pedro reforça este entendimento ao explicar a mecânica dessa inspiração:
"Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo." (2 Pedro 1:21)
Isso nos leva à doutrina da Inspiração Plenária e Verbal. "Plenária" significa que a inspiração abrange a Bíblia em sua totalidade, e "Verbal" indica que as próprias palavras — e não apenas as ideias gerais — foram escolhidas sob a supervisão divina, garantindo a inerrância do texto original.
Contudo, a inspiração não anulou a personalidade, o estilo ou o vocabulário dos autores humanos. Deus utilizou organicamente as características de cada escritor para produzir um texto perfeitamente alinhado com a Sua vontade.
Distinção entre Revelação, Inspiração e Iluminação
Para evitar confusões doutrinárias, é essencial diferenciar três termos que operam em momentos distintos:
- Revelação: É o ato de Deus comunicar a verdade que o homem não poderia descobrir por si mesmo. Refere-se à origem e ao conteúdo da mensagem.
- Inspiração: É o processo de registro dessa verdade. É a garantia de que a comunicação divina foi preservada sem erros nos manuscritos originais.
- Iluminação: É a obra do Espírito Santo no leitor ou ouvinte contemporâneo. A iluminação não traz novas revelações, mas capacita o indivíduo a compreender e aplicar a verdade já revelada e inspirada nas Escrituras.
Assim, a Bíblia permanece como um documento único na história, cuja autoridade deriva não da aprovação humana ou eclesiástica, mas da sua própria natureza como o sopro de Deus registrado para a humanidade.
2. A Autoridade da Bíblia: Testemunhos Internos e a Voz de Cristo
Estabelecida a premissa de que a Bíblia é uma revelação divina inspirada, surge a questão da sua autoridade. Por que o cristão deve aceitar as Escrituras como a verdade absoluta? A resposta a essa pergunta não depende primariamente de descobertas arqueológicas ou consensos acadêmicos, mas sim do testemunho que a própria Bíblia dá acerca de si mesma e, fundamentalmente, da autoridade de Jesus Cristo.
O Testemunho Interno das Escrituras
A Bíblia não apresenta suas verdades como sugestões filosóficas ou hipóteses humanas. Ela reivindica, de forma consistente e audaciosa, ser a própria Palavra de Deus.
Ao longo do Antigo Testamento, a frase "Assim diz o Senhor" (ou variações equivalentes) aparece mais de 2.600 vezes. Os profetas não falavam em nome próprio; eles agiam como embaixadores divinos, entregando mensagens que não se originavam em suas mentes.
"A palavra do Senhor veio a mim, dizendo..." (Jeremias 1:4)
No Novo Testamento, essa autoridade é ratificada. Os apóstolos reconheciam que seus escritos possuíam o mesmo peso de autoridade que as Escrituras do Antigo Testamento. O apóstolo Paulo, por exemplo, é citado pelo apóstolo Pedro, que classifica as cartas paulinas no mesmo nível das "outras Escrituras" (2 Pedro 3:16).
A Autoridade de Jesus Cristo: O Argumento Supremo
Para o cristão, o argumento definitivo para a autoridade da Bíblia é a postura de Jesus Cristo em relação a ela. Se aceitamos Jesus como Senhor e Deus encarnado, a lógica exige que aceitemos sua visão sobre as Escrituras. Jesus não apenas conhecia o texto sagrado, mas submetia-se a ele e o utilizava como a autoridade final em todas as disputas.
Jesus validou a autoridade do Antigo Testamento de diversas formas:
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Nos Debates com Satanás: Durante a tentação no deserto, Jesus não utilizou argumentos lógicos ou poder divino direto para vencer o inimigo. Ele recorreu exclusivamente à autoridade escrita, repetindo três vezes:
"Está escrito..." (Mateus 4:4, 7, 10)
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Nas Controvérsias Religiosas: Ao debater com os líderes religiosos da época, a pergunta recorrente de Jesus era: "Não lestes?" ou "O que diz a Escritura?". Para Cristo, o erro dos saduceus e fariseus residia no desconhecimento da Palavra:
"Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus." (Mateus 22:29)
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Na Validação Histórica: Jesus tratou como fatos históricos literais diversos eventos que o ceticismo moderno frequentemente classifica como mitos ou alegorias. Ele confirmou a criação de Adão e Eva (Mateus 19:4-5), o dilúvio de Noé (Mateus 24:37-39) e a história de Jonas no ventre do grande peixe (Mateus 12:40).
A Promessa do Novo Testamento
Se Jesus validou o Antigo Testamento (a Bíblia de sua época), ele também previu e autorizou a escrita do Novo Testamento. Ele não deixou nenhum escrito de próprio punho, mas comissionou seus apóstolos para essa tarefa, prometendo-lhes a assistência sobrenatural do Espírito Santo.
"Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito." (João 14:26)
Portanto, a autoridade do Novo Testamento deriva da autoridade apostólica conferida pelo próprio Cristo. Aceitar a Bíblia é, em última análise, uma consequência direta de aceitar o senhorio de Jesus. Não é possível ter uma visão elevada de Cristo e uma visão rebaixada das Escrituras que Ele mesmo autenticou.
3. Evidências Externas: A Manuscritologia e o Testemunho do Espírito Santo
Embora a autoridade da Bíblia seja autoatestada e confirmada por Cristo, existem evidências externas robustas que corroboram a confiabilidade histórica do texto sagrado. Uma das críticas mais comuns enfrentadas pelo cristianismo é a alegação de que a Bíblia foi alterada ao longo dos séculos através de sucessivas cópias, perdendo-se assim o conteúdo original. Para responder a essa questão, recorremos à ciência da Crítica Textual.
A Ciência da Crítica Textual e a Preservação do Texto
É um fato que não possuímos os "autógrafos", ou seja, os documentos originais escritos pelo próprio punho de Moisés, Paulo ou Pedro. O que temos são milhares de cópias. A Crítica Textual é a disciplina que analisa essas cópias para reconstruir, com altíssima precisão, o texto original.
O método baseia-se em dois critérios principais:
- Quantidade de cópias: Quanto mais manuscritos disponíveis para comparação, mais fácil é identificar erros de copistas e determinar a leitura original.
- Proximidade temporal: Quanto menor o intervalo de tempo entre a escrita original e a cópia mais antiga existente, menor a probabilidade de corrupção textual significativa.
Quando aplicamos esses critérios à Bíblia em comparação com outras obras da antiguidade clássica, o resultado é impressionante. Ninguém questiona a autenticidade das obras de Platão ou Aristóteles, embora a evidência documental para eles seja escassa em comparação com as Escrituras.
- Platão: Existem cerca de 7 manuscritos, com a cópia mais antiga datando de 1.200 anos após a morte do autor.
- Aristóteles: A cópia mais antiga dista cerca de 1.400 anos do original.
- Novo Testamento: Existem cerca de 5.800 manuscritos em grego e mais de 18.000 em outras línguas antigas. Alguns fragmentos, como o papiro P52 (contendo trechos de João), datam de apenas 30 a 50 anos após a escrita original.
"A estimativa sugere que entre 97% e 99% do Novo Testamento original pode ser reconstruído a partir dos manuscritos existentes acima de qualquer dúvida razoável."
A Descoberta dos Rolos do Mar Morto
No que tange ao Antigo Testamento, a maior descoberta arqueológica do século XX confirmou a fidelidade da transmissão bíblica. Em 1947, foram encontrados os Rolos do Mar Morto nas cavernas de Qumran.
Antes dessa descoberta, os manuscritos hebraicos mais antigos que possuíamos datavam de cerca de 900 d.C. (Texto Massorético). Em Qumran, encontraram-se rolos de Isaías e outros livros datados de aproximadamente 100 a.C., ou seja, mil anos mais antigos. Ao comparar os textos, a semelhança foi assombrosa, demonstrando que os copistas judeus preservaram a Palavra com um cuidado meticuloso ao longo de um milênio.
O Testemunho Interno do Espírito Santo
Apesar de todas as evidências históricas e arqueológicas, a teologia reformada entende que a convicção final sobre a verdade da Bíblia não vem da razão humana, mas de uma operação sobrenatural: o Testemunho Interno do Espírito Santo.
Argumentos lógicos e evidências históricas são úteis para remover barreiras intelectuais e demonstrar que a fé cristã é racional, mas eles não têm o poder de converter o coração. A certeza inabalável de que a Bíblia é a Palavra de Deus provém da ação do Espírito Santo, que testifica no coração do crente, confirmando a autoridade das Escrituras.
Conforme estabelecido em documentos históricos de fé, como a Confissão de Fé de Westminster:
"A nossa plena persuasão e certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provém da operação interior do Espírito Santo, que pela Palavra e com a Palavra testifica em nossos corações."
Portanto, a apologética (defesa da fé) tem seu lugar, mas é o Espírito quem vivifica a letra e convence o homem da verdade divina.
4. Infalibilidade e Inerrância: A Perfeição da Palavra e seus Desafios
Ao afirmar que a Bíblia é a Palavra de Deus, a teologia cristã ortodoxa sustenta duas doutrinas inseparáveis: a Infalibilidade e a Inerrância. Embora frequentemente usados como sinônimos, esses termos carregam nuances teológicas distintas que são cruciais para a defesa da fé.
Definindo os Termos
- Infalibilidade: Refere-se à incapacidade da Bíblia de falhar em seu propósito. Ela é absolutamente confiável e eficaz para conduzir o homem à salvação e revelar a vontade de Deus. O que a Bíblia promete, ela cumpre.
- Inerrância: Refere-se à ausência de erros de fato. A doutrina da inerrância afirma que as Escrituras, em seus manuscritos originais, não afirmam nada que seja contrário à verdade. Isso se aplica não apenas a questões de fé e moral, mas também a afirmações históricas, geográficas e científicas.
A lógica é direta: se Deus é a verdade suprema e não pode mentir (Tito 1:2), e se a Bíblia é soprada por Deus, segue-se que ela deve ser totalmente verdadeira. Admitir erros na Bíblia seria, em última instância, atribuir erro ao próprio Deus ou falha na Sua capacidade de comunicar a verdade.
O Escopo da Inerrância e a Linguagem Fenomenológica
A defesa da inerrância não exige que a Bíblia utilize uma linguagem técnica ou científica moderna. A Bíblia foi escrita para ser compreendida por pessoas de todas as épocas e culturas. Portanto, ela frequentemente utiliza a linguagem fenomenológica, ou seja, a descrição das coisas como elas aparecem ao observador humano, e não como são definidas cientificamente.
Por exemplo, quando a Bíblia diz que "o sol nasceu" ou "o sol se pôs", ela não está ensinando o geocentrismo (que o sol gira em torno da terra). Ela está descrevendo o fenômeno ótico da perspectiva humana, algo que até hoje fazemos, mesmo sabendo que é a Terra que gira. Isso não constitui um erro; é uma forma válida de comunicação.
Além disso, a inerrância permite:
- Uso de números arredondados (comuns na antiguidade).
- Citações livres (parafrasear o sentido sem citar palavra por palavra).
- Diferentes arranjos de material (cronológico vs. temático nos Evangelhos).
Inerrância nos Autógrafos Originais
Um ponto fundamental, frequentemente mal compreendido, é que a inerrância reside nos autógrafos (os manuscritos originais escritos pelos autores bíblicos). Como vimos no tópico anterior, não possuímos os originais, mas cópias fiéis.
Os teólogos reconhecem que copistas e tradutores ao longo dos séculos podem ter cometido deslizes menores (erros de grafia, inversão de palavras). Contudo, a doutrina da inerrância assegura que o texto original foi isento de qualquer erro.
"A inerrância da Escritura significa que a Escritura nos manuscritos originais não afirma nada que seja contrário à realidade." — Definição Teológica Padrão
O trabalho da Crítica Textual, mencionado anteriormente, tem demonstrado que esses "erros de cópia" são mínimos e não afetam nenhuma doutrina fundamental da fé cristã.
Lidando com Supostas Contradições
Críticos frequentemente apontam "contradições" na Bíblia. Na maioria dos casos, essas dificuldades desaparecem com um estudo mais aprofundado do contexto histórico, cultural e linguístico.
Muitas vezes, o que parece ser uma contradição é, na verdade, informação complementar. Por exemplo, se um Evangelho diz que havia dois anjos no túmulo e outro menciona apenas um, isso não é necessariamente uma contradição lógica. Onde há dois, há um. Um autor pode ter focado no anjo que falou, enquanto o outro relatou a presença de ambos.
A postura correta diante de dificuldades bíblicas não é a rejeição imediata do texto, mas a humildade intelectual. Como afirmou Agostinho de Hipona:
"Se nos deparamos com uma aparente contradição nas Escrituras, ou o manuscrito está corrompido, ou a tradução está errada, ou nós não entendemos o texto."
A confiança na inerrância bíblica é, portanto, a âncora que impede o subjetivismo, onde cada leitor decide o que é "verdade divina" e o que é "erro humano" dentro do texto sagrado.
5. A Suficiência das Escrituras: A Única Regra de Fé e Prática
A doutrina da Suficiência das Escrituras é um dos pilares centrais da Reforma Protestante, encapsulada no lema latino Sola Scriptura (Somente a Escritura). Esta doutrina afirma que a Bíblia contém tudo o que é necessário para o conhecimento da salvação e para a vida cristã piedosa. Não é necessário buscar novas revelações, visões ou tradições humanas para complementar a obra de Deus.
O Significado de "Suficiência"
Dizer que a Escritura é suficiente significa que ela é competente para cumprir o propósito para o qual foi dada. Ela não é uma enciclopédia exaustiva sobre todos os fatos do universo (não nos ensina, por exemplo, como realizar uma cirurgia cardíaca), mas é perfeitamente suficiente para:
- Revelar o caminho da Salvação.
- Estabelecer os padrões de conduta moral.
- Orientar a adoração e a liturgia da igreja.
O Apóstolo Paulo deixa claro este aspecto em sua segunda carta a Timóteo:
"Toda a Escritura é [...] para que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra." (2 Timóteo 3:16-17)
As palavras "perfeito" e "perfeitamente habilitado" indicam completude. Se a Escritura torna o homem de Deus "completo", adicionar algo a ela implicaria que ela era, anteriormente, incompleta ou insuficiente. Da mesma forma, o Salmista declara:
"A lei do Senhor é perfeita e restaura a alma." (Salmos 19:7)
Escritura vs. Tradição
Historicamente, o debate sobre a suficiência das Escrituras contrasta duas visões teológicas distintas sobre a autoridade:
- Visão Católica Romana e Ortodoxa: A autoridade repousa sobre um tripé: Escritura, Tradição (ensinamentos orais transmitidos pelos apóstolos e preservados pela Igreja) e o Magistério (a autoridade de ensino da Igreja). Nesta visão, a Bíblia sozinha não é suficiente; ela precisa ser interpretada e complementada pela Tradição.
- Visão Protestante/Evangélica: A Escritura é a autoridade suprema e final. Embora a tradição e os concílios históricos sejam úteis e respeitáveis, eles são falíveis e devem ser submetidos ao crivo da Bíblia. Qualquer tradição que contradiga a Escritura deve ser rejeitada.
Jesus confrontou duramente os líderes religiosos de sua época justamente por elevarem suas tradições ao nível da Palavra de Deus, anulando assim o mandamento divino:
"E assim invalidastes, pela vossa tradição, o mandamento de Deus." (Mateus 15:6)
O Perigo de Adicionar ou Remover
A crença na suficiência das Escrituras traz consigo uma advertência severa contra a alteração da mensagem divina. A Bíblia encerra com um aviso solene em Apocalipse, que, embora se aplique especificamente àquele livro, reflete o princípio geral de zelo pela revelação de Deus presente em toda a Escritura (cf. Deuteronômio 4:2; Provérbios 30:5-6):
"Se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro; e, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte da árvore da vida..." (Apocalipse 22:18-19)
Portanto, a suficiência das Escrituras protege a igreja de inovações doutrinárias, falsas profecias e do legalismo humano. Ela assegura que o crente tem, na Bíblia, um fundamento sólido e completo para sua fé, não necessitando de "novas verdades" para alcançar a maturidade espiritual.
6. O Cânon Bíblico e os Livros Apócrifos: Entendendo as Diferenças Históricas
Uma das dúvidas mais comuns no estudo da Bibliologia diz respeito à composição da Bíblia. Por que a Bíblia Protestante possui 66 livros, enquanto a Bíblia Católica possui 73? A resposta reside na compreensão histórica do Cânon e na distinção entre livros inspirados e livros apócrifos.
O Significado de Cânon
A palavra "cânon" deriva do grego kanon, que significa "vara de medir" ou "égua". Na antiguidade, canas eram usadas como réguas de pedreiro. Teologicamente, o termo passou a designar a lista de livros que atendem aos padrões divinos de inspiração e autoridade. É importante destacar: a Igreja não criou o cânon; ela apenas reconheceu os livros que Deus inspirou. A autoridade de um livro bíblico é intrínseca a ele, dada por Deus no momento da escrita, e não atribuída posteriormente por um concílio eclesiástico.
O Cânon do Antigo Testamento
O Antigo Testamento protestante contém 39 livros, que correspondem exatamente ao cânon da Bíblia Hebraica usada pelos judeus e pelo próprio Jesus. A diferença é apenas na contagem e organização:
- A Bíblia Hebraica (Tanakh): Conta 24 livros. Eles combinam livros que nós separamos (ex: 1 e 2 Reis são um só livro; os 12 profetas menores são um único volume).
- A Divisão Tripartite: Jesus referendou essa estrutura em Lucas 24:44, mencionando "a Lei de Moisés, os Profetas e os Salmos".
O ponto crucial é que o cânon hebraico já estava fechado e estabelecido séculos antes de Cristo. Os judeus, a quem "foram confiados os oráculos de Deus" (Romanos 3:2), nunca aceitaram os livros apócrifos como parte das Escrituras Sagradas.
A Questão dos Livros Apócrifos (Deuterocanônicos)
Os 7 livros adicionais presentes na Bíblia Católica (Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruque, 1 e 2 Macabeus) e alguns acréscimos em Ester e Daniel são chamados de Apócrifos (que significa "ocultos") ou Deuterocanônicos ("segundo cânon").
A rejeição desses livros pela tradição protestante e judaica baseia-se em evidências sólidas:
- Ausência no Cânon Hebraico: Eles não faziam parte das Escrituras usadas por Jesus e pelos apóstolos.
- Silêncio no Novo Testamento: Embora o Novo Testamento cite o Antigo Testamento centenas de vezes, nunca há uma citação direta de um livro apócrifo como sendo "Escritura" ou acompanhada da frase "Assim diz o Senhor".
- Erros Históricos e Doutrinários: Alguns desses livros contêm imprecisões históricas e ensinam doutrinas que contradizem o restante da Bíblia (como a oração pelos mortos em 2 Macabeus 12:43-45 e a salvação por obras em Tobias 12:9).
- Testemunho Histórico: Jerônimo (c. 347–420 d.C.), o grande tradutor da Vulgata Latina, fez uma distinção clara entre os livros canônicos (hebraicos) e os apócrifos, afirmando que estes últimos serviam para edificação histórica, mas não para estabelecer doutrina.
A inclusão oficial desses livros no cânon católico ocorreu tardiamente, no Concílio de Trento em 1546, em grande parte como uma reação à Reforma Protestante, pois os apócrifos ofereciam suporte a doutrinas contestadas pelos reformadores.
O Cânon do Novo Testamento
Quanto ao Novo Testamento, há um consenso notável entre católicos, protestantes e ortodoxos: todos aceitam os mesmos 27 livros.
O processo de reconhecimento desses livros pela Igreja primitiva baseou-se em critérios rigorosos:
- Apostolicidade: O livro foi escrito por um apóstolo ou por alguém intimamente ligado a um apóstolo? (Ex: Lucas era ligado a Paulo; Marcos a Pedro).
- Ortodoxia: O conteúdo do livro estava em total harmonia com a doutrina apostólica já estabelecida?
- Catholicidade (Universalidade): O livro era aceito e usado amplamente pelas igrejas em diferentes regiões desde o início?
Por volta do ano 397 d.C., no Concílio de Cartago, a igreja apenas ratificou oficialmente a lista de livros que já vinha sendo aceita pela cristandade como inspirada pelo Espírito Santo.
7. Conclusão: A Plenitude da Revelação Final e o Encerramento do Cânon
A jornada através da história, autoridade e formação da Bíblia nos conduz a uma conclusão inevitável e gloriosa: Deus falou, e Sua fala está completa. A doutrina do encerramento do cânon não é uma imposição arbitrária da história, mas uma consequência lógica da natureza da revelação divina.
A Revelação Progressiva e seu Clímax
Ao longo dos séculos, a revelação de Deus foi progressiva. Como o nascer do sol que vai clareando o dia gradualmente, Deus revelou Seus planos aos poucos: primeiro através dos patriarcas, depois através da Lei, dos profetas e dos salmos. No entanto, essa progressão tinha um destino final.
O autor da carta aos Hebreus resume magistralmente essa transição histórica:
"Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho..." (Hebreus 1:1-2)
Observe o contraste: "outrora" versus "nestes últimos dias". A vinda de Jesus Cristo não é apenas mais um capítulo na história da revelação; Ele é o clímax, a Palavra encarnada. Uma vez que Deus se revelou plenamente em Seu Filho, não há nada maior, melhor ou mais novo a ser acrescentado.
Por que o Cânon está Fechado?
O encerramento do cânon bíblico está intrinsecamente ligado ao apostolado. O Novo Testamento é, essencialmente, o testemunho apostólico sobre Cristo. Jesus prometeu que o Espírito Santo faria os apóstolos lembrarem de tudo (João 14:26).
Uma vez que a era apostólica terminou com a morte do último apóstolo (João, no final do primeiro século), o fundamento da Igreja foi lançado e concluído.
"Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular." (Efésios 2:20)
Um fundamento é lançado apenas uma vez. Não se constrói o alicerce de um prédio repetidamente em cada andar. Da mesma forma, a revelação normativa para a Igreja foi dada de uma vez por todas. Judas, irmão de Tiago, nos exorta a batalhar:
"...pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos." (Judas 1:3)
A expressão "uma vez por todas" (do grego hapax) indica algo definitivo, que não se repete e não precisa de acréscimos.
O Perigo das "Novas Revelações"
Vivemos em tempos onde muitos buscam novidades espirituais, profecias inéditas e revelações extrabíblicas. No entanto, a história da Igreja mostra que sempre que se tentou adicionar algo à Bíblia, o resultado foi o desvio doutrinário e a heresia.
Se a Bíblia é a Palavra de Deus inspirada, inerrante e suficiente, então qualquer "nova revelação" que concorde com a Bíblia é desnecessária, e qualquer uma que discorde dela é falsa.
Considerações Finais
A Bíblia Sagrada é um milagre de preservação e unidade. Ela sobreviveu a impérios que tentaram destruí-la, a críticos que tentaram ridicularizá-la e a falsos mestres que tentaram distorcê-la. Ela permanece como a âncora segura para a alma humana.
Para o cristão, a Bíblia não é apenas um livro de regras, mas o meio pelo qual ele ouve a voz do seu Pastor. Estudar a Bibliologia não é apenas um exercício intelectual, mas um ato de adoração, reconhecendo que Deus, em Sua infinita graça, não nos deixou na escuridão, mas nos deu a "lâmpada para os pés e luz para o caminho" (Salmos 119:105).
Que possamos, portanto, ler, confiar e obedecer a este Livro Sagrado, certos de que nele temos a mente de Cristo e o caminho para a vida eterna.
Sexta Igreja. REVELAÇÃO ESPECIAL - PARTE 2 - DO QUE SE TRATA A REVELAÇÃO ESPECIAL? | AULA 07 | CURSO DE TEOLOGIA REFORMADA | PR DIEGO RUY. Disponível em: https://youtu.be/tA0AGGeO--o?si=AFsas9z5zLJk2KQa.